Após 30 anos no corredor da morte, Christa Pike, de 50 anos, permanece algemada e acorrentada à cama de um hospital no Tennessee depois de sobreviver a uma tentativa de execução por injeção letal realizada na semana passada. Segundo seus advogados, ela está consciente, consegue falar e recebe cuidados médicos intensivos, mas ainda enfrenta uma recuperação prolongada e de prognóstico incerto.
Entenda: Repórter que acompanhou quase 500 execuções nos EUA diz nunca ter visto caso como o de Christa Pike
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Pike recebeu duas doses de pentobarbital durante o procedimento. Ela passou dias inconsciente enquanto a equipe médica trabalhava para retirar a substância do organismo, segundo reportagem da BBC. O caso é considerado sem precedente por especialistas porque, nas outras tentativas malsucedidas de execução registradas anteriormente, o procedimento havia sido interrompido antes que uma substância fosse efetivamente administrada pelas veias.
Mesmo depois de recuperar a consciência, Pike permanece sob custódia e presa à cama do hospital. A defesa afirma que ela continua algemada e acorrentada enquanto recebe tratamento médico intensivo.
Antes de voltar a falar, Pike passou vários dias inconsciente após receber as duas doses de pentobarbital. Ainda não está claro quais serão as consequências médicas de longo prazo da tentativa de execução.
O anestesiologista Joel Zivot, que assessora a equipe de defesa, afirmou que ainda existem dúvidas importantes sobre o que ocorreu durante o procedimento, incluindo quanto da substância entrou efetivamente no organismo e qual era sua concentração no sangue após a aplicação.
— Eu não diria, de forma alguma, neste momento, que todos os grandes riscos ficaram para trás.
Caso é considerado sem precedentes
A criminologista Deborah Denno, professora da Faculdade de Direito da Fordham, afirmou estar extremamente surpresa com o fato de Pike ter recuperado a consciência e conseguido falar.
Segundo Denno, houve outros sete casos de prisioneiros que sobreviveram a tentativas de execução, mas em todos eles o procedimento fracassou antes da administração de qualquer substância pelas veias. No caso de Pike, o pentobarbital chegou a ser aplicado.
— E eles fizeram tudo o que deveriam fazer como parte do processo de execução, e simplesmente não funcionou — disse Denno: — Isso nunca aconteceu antes.
O anestesiologista Joel Zivot também afirmou que a sobrevivência após uma injeção letal é extremamente incomum.
— A maioria das pessoas que recebe uma injeção letal morre por causa dela — disse ele à BBC. — Na verdade, praticamente todas, exceto Christa. Portanto, o fato de ela ter sobrevivido… foi algo incomum.
As autoridades do Tennessee ainda não decidiram se haverá uma nova tentativa de execução.
Defesa levanta hipótese para a falha
Antes da execução, Zivot havia afirmado que as duas doses aplicadas seriam suficientes para matar Pike caso o pentobarbital tivesse chegado normalmente à corrente sanguínea.
A hipótese apresentada pela defesa é que o medicamento possa ter se espalhado pelos tecidos sob a pele, em vez de circular adequadamente pelo sangue. Os advogados já haviam alertado que as condições médicas de Pike poderiam dificultar a obtenção de um acesso intravenoso adequado.
Entre essas condições estão a trombocitose, que favorece a formação de coágulos, e as veias pequenas. Nesta terça-feira, a defesa afirmou que Pike sofreu “danos graves” nos braços durante o procedimento.
Tennessee suspendeu execuções
Depois da tentativa malsucedida, o governador do Tennessee, Bill Lee, suspendeu todas as execuções no estado pelo restante do ano. O chefe do sistema penitenciário estadual também anunciou que pretende deixar o cargo.
O caso ocorreu poucos meses depois de outra execução malsucedida no Tennessee. Em maio, o procedimento contra Tony Carruthers, condenado por sequestrar e matar três pessoas em 1994, foi interrompido porque os funcionários não conseguiram encontrar uma veia adequada para aplicar o medicamento. Carruthers recebeu do governador um adiamento de um ano.
Os advogados de Pike têm uma audiência marcada para quarta-feira, em Nashville, e também planejam conceder uma entrevista coletiva em frente ao tribunal.
A defesa pede que o governador transforme a pena de morte em prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Até o momento, não há decisão oficial sobre uma nova tentativa de execução.
Pike tinha 18 anos quando matou Colleen Slemmer, de 19, em 1995. Ela e seu então namorado, Tadaryl Shipp, espancaram, torturaram e mataram Slemmer, que eles haviam conhecido em um acampamento de treinamento profissional para adolescentes problemáticos. Shipp tinha 17 anos na época e, por ser menor de idade, não recebeu pena de morte. Ele continua preso.
Steven Hale, jornalista do Nashville Banner que testemunhou a tentativa de execução, afirmou que não conhecia outro caso exatamente igual. Ele também destacou o impacto que o episódio pode provocar nos familiares de Slemmer, que esperam há décadas pelo cumprimento da sentença.
— Como deve ser isso para a família da vítima, que há 30 anos ouve que vamos fazer justiça para vocês e que justiça é executar Christa Pike?
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