O sexto dia de julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o ex-vereador Jairinho, e da professora Monique Medeiros, réus pela morte do menino Henry Borel, em 2021, chegou ao fim às 23h40 deste sábado, após mais de oito horas de sessão e depoimento de três testemunhas: o irmão de Monique, o engenheiro mecânico Bryan Medeiros da Costa e Silva; Ari Mamede, amigo e colega de profissão da ré; e Márcia Eduarda Andrade Vieira, recepcionista da brinquedoteca do condomínio onde os dois réus moraram, na Barra da Tijuca. A sessão será retomada neste domingo, às 10h.
Bryan contou sobre a reação da ré ao saber da morte de Henry. De acordo com Bryan, Monique teria ficado “fora de si” e expressado interesse em tirar a própria vida, “para ficar perto de Henry”, ao que o pai dela teria respondido: “Não tire sua vida. Se você fizer isso, não vai encontrar Henry”, relatou Bryan. Mais adiante, durante o interrogatório, a defesa de Jairinho fez uma série de questionamentos a Bryan, incluindo perguntas sobre contradições nos laudos do Instituto Médico Legal, na tentativa de sugerir que Leniel Borel, pai da criança, teria manipulado os peritos que produziram os documento, tese sustentada pela defesa de Jairinho desde o início do processo.
Durante a oitiva, Bryan corroborou a tese de que Jairo foi o autor das agressões que levaram à morte de Bryan. A defesa de Jairinho, então, argumentou que o mesmo inquérito policial que Bryan usa como base para imputar Jairinho também indicia Monique. E perguntou: “Então, o senhor concorda com o inquérito em relação ao Jairo, mas não em relação à Monique”. Ao que Bryan respondeu:
— O que o senhor está tentando sugerir é que o inquérito policial é o único elemento para que eu possa concluir dessa forma, mas não é. Nas mensagens interceptadas de Thayná, ela, ao falar com o noivo, por exemplo, é categórica ao falar das sessões de agressão a que Monique e Henry eram submetidos.
O advogado Zanone Manoel de Oliveira Júnior, da equipe de Jairinho, disse que não há registro sobre as agressões em nenhuma delegacia. E Bryan argumentou que Monique poderia não ter total consciência da situação de violência que estava vivendo:
— Ela não fazia acompanhamento psicológico. E, na época, não tinha condições de identificar que aquela situação era de agressão e que estava vivendo um relacionamento tóxico.
Por fim, Bryan foi interrogado pelo promotor do Ministério Público Fábio Vieira, que reforçou que o que pesa contra Monique é que ela “sabendo de toda a situação, preferiu fingir que não sabia de nada e entregar seu sobrinho como oferenda”, disse o promotor. Fábio Vieira relembrou que, ao ser alertada por Leniel Borel, pai de Henry, de que o menino reclamou de um “abraço apertado” de Jairinho, Monique disse que a criança “sonhou com a situação”, numa tentativa de “proteger Jairo”. O promotor citou ainda outras situações, como a ocasião em que Monique estava no salão e recebeu uma ligação da babá Thayna dizendo que Jairo estava trancado com Henry no quarto, com música alta, e, em seguida, a criança saiu mancando e chorando.
— Não tenho conhecimento de que ela tentou minimizar as situações de agressão — respondeu Bryan. — Ela jamais permitiria que ele sofresse agressão; ela jamais seria conivente com a tortura e a morte do filho dela. Infelizmente, foi criada uma campanha difamatória contra ela, com ataques deliberados de pessoas que não a conhecem.
Ari Mamede, que depôs por menos de dez minutos, defendeu que Monique Medeiros era “excelente colega de trabalho. Uma boa professora e boa gestora”
— Monique era amada na escola. Eu presenciei algumas cenas de mãe de aluno se exasperar com alguma professora, a mãe estava incontrolável, e Monique conseguiu controlar com maestria, diálogo e placidez a situação — disse. — Todas as vezes que Henry esteve na escola com ela, eu percebia a atenção, carinho e zelo da mãe com ele.
Já Maria Eduarda Andrade Vieira, última testemunha a ser ouvida no sábado e cujo depoimento durou cerca de 15 minutos, relatou que sempre era Monique quem levava Henry à brinquedoteca e que “percebia a relação de afeto entre os dois”:
— Eles brincavam de lego, um brinquedo de encaixe. Me chamava muita atenção o fato de ela dar muito carinho ao Henry.
Outras testemunhas que seriam ouvidas nesta noite são Rosângela Medeiros da Silva e Costa, mãe de Monique, e Ana Paula Medeiros Pacheco, prima da ré. Mas a defesa de Monique optou por dispensá-las.
Cronologia do julgamento
Até esta manhã, 13 das 27 testemunhas previstas já haviam sido ouvidas pelos jurados. Entre elas estão testemunhas de acusação, do juízo e peritos considerados centrais para a reconstrução da morte de Henry Borel. Na segunda-feira, o julgamento foi iniciado após tentativa da defesa de Jairinho de adiar o julgamento, apontando um dos motivos o infarto do advogado Fabiano Tadeu Lopes, o principal responsável pela estratégia jurídica do réu. Na terça, prestou depoimento as primeiras testemunhas de acusação, o delegado Edson Henrique Damasceno, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca) quando Henry morreu, em março de 2021, e da delegada Ana Carolina Lemos Medeiros de Caldas, ambos responsáveis pelas investigações do caso. No mesmo dia, Fabiano Lopes anunciou que voltaria à banca de defesa de Jairinho.
O terceiro dia, na quarta-feira, foi marcado por embates entre acusação e defesa e depoimentos que detalharam os últimos momentos de vida de Henry Borel. Ao longo da tarde e da noite, os jurados ouviram o psiquiatra Rafael Bernardon e a médica Maria Cristina Souza Azevedo, responsável pelo atendimento do menino no Hospital Barra D’Or na noite da morte. Durante a sessão, a defesa questionou a atuação de testemunhas da acusação e a condução do julgamento, enquanto a médica relatou a reação de Monique após a confirmação do óbito e as tentativas de reanimação de Henry.
Já a quinta-feira teve o retorno do advogado que infartou, Fabiano Tadeu Lopes, e depoimentos com relatos de supostas agressões atribuídas ao ex-vereador, contradições em depoimentos de testemunhas e novos momentos de tensão no plenário. Uma das testemunhas ouvidas foi Kaylane Pereira, filha de uma ex-namorada de Jairinho. Hoje maior de idade, ela relatou episódios de agressões que afirma ter sofrido quando era criança.
A sexta-feira se destacou pelo fortalecimento da linha de acusação sobre a morte de Henry Borel. Ao longo da sessão, o perito criminal Luiz Carlos Leal Prestes e o médico-legista Luiz Airton Saavedra descartaram a hipótese de acidente doméstico, rejeitaram a tese de que as lesões poderiam ter sido causadas por manobras de reanimação e apontaram sinais compatíveis com agressões sofridas pela criança. Os especialistas também reforçaram a conclusão de que Henry já estava morto quando chegou ao Hospital Barra D’Or. O dia ainda foi marcado pela saída dos dois réus do plenário por alegados problemas de saúde e pelo depoimento de Leniel Borel, pai do menino.
Até o momento, já foram ouvidos o delegado Edson Henrique Damasceno; a delegada Ana Carolina Lemos Medeiros de Caldas; o psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro; a médica Maria Cristina de Souza Azevedo; Kaylane de Oliveira Duarte Pereira; Natasha de Oliveira Machado; Débora Mello Saraiva; a empregada Leila Rosângela de Souza Mattos; a cabeleireira Tereza Cristina dos Santos; a manicure Paloma dos Santos Meireles; o perito Luiz Carlos Leal Prestes; o médico-legista Luiz Airton Saavedra de Paiva; Leniel Borel de Almeida Júnior; o irmão de Monique, o engenheiro mecânico Bryan Medeiros da Costa e Silva; e a babá Thayná de Oliveira Ferreira.
A morte
Henry Borel morreu em 8 de março de 2021, aos 4 anos, após dar entrada no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, com múltiplas lesões internas e em parada cardiorrespiratória. Jairinho e Monique respondem por homicídio triplamente qualificado, tortura, coação no curso do processo, fraude processual e falsidade ideológica. Segundo a denúncia do Ministério Público, o menino foi submetido a agressões dentro do apartamento onde morava com a mãe e o então padrasto, na Zona Oeste do Rio.

