O formato cônico e os 64 metros de altura interna impressionam quem chega. A porta da fé, como é conhecida a entrada principal da Catedral de São Sebastião, no centro do Rio, é ponto disputado pelos turistas que querem registrar a passagem pela igreja. Eles parecem não se importar com a tela que cobre um dos vitrais, que estão passando por manutenção. Os reparos fazem parte de uma reforma que havia sido interrompida em janeiro, por falta de recursos, e foi retomada mês passado, às vésperas do cinquentenário, comemorado no próximo dia 16.
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— É diferente a arquitetura, o interior dela, a grandeza. Os vitrais são muito bonitos. Gostamos muito. Quando se pesquisa o que fazer no Rio tem esta catedral em muitos roteiros — contou o comerciante colombiano Davi Peña, de 28 anos, que visita o Rio com um grupo de amigos de Medellín.
Botão aciona sinos
Realmente, a arquitetura destoa dos demais prédios do entorno — no prédio à frente da entrada principal, com vidraça fumê que espelha o próprio desenho da catedral, uma sala foi cenário para o escritório de Odete Roitman, personagem da última versão de “Vale Tudo”, da TV Globo.
A inspiração para o projeto do arquiteto Edgar de Oliveira da Fonseca veio das pirâmides maias. Na década de 1960, Dom Jaime de Barros Câmara lançou a pedra fundamental e as obras foram iniciadas. A inauguração simbólica do templo aconteceu em 1976, quando foi transferido da Antiga Sé, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Praça Quinze, para o endereço na Avenida Chile. A cerimônia marcou a nova sede da Arquidiocese do Rio, que completava, naquele ano, seu tricentenário (1676-1976).
— O formato de cone e circular era alinhado ao conceito de a igreja ser um lugar de comunhão. À época, havia esse desejo de construir um espaço sagrado que pudesse abrigar um número grande de fiéis e ser um local de referência na cidade. É uma alegria ver uma reforma nos 50 anos da catedral, o nosso Jubileu de Ouro — comenta o padre Arthur Torres, que celebra as missas do templo.
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Essa é a primeira grande reforma realizada no local desde a fundação. A etapa inicial contempla a restauração e afinação dos seis sinos da torre, cujos pesos variam entre 300 quilos e 3,5 toneladas — eles foram retirados com guindastes e já devolvidos ao lugar de origem há dez dias. A novidade é a adequação elétrica: agora, o acionamento é automatizado, por meio de botões, e não mais manual. No dia 16 de novembro, data da celebração dos 50 anos, eles vão soar juntos na convocação dos fiéis para o Jubileu de Ouro da Catedral.
O projeto de restauro abrange também a recuperação da fachada, dos vitrais e de outros elementos do conjunto arquitetônico. Os reparos já estão em andamento e têm previsão de término para julho de 2027.
— É uma recuperação estrutural da catedral, que nunca teve uma intervenção deste porte. Na parte externa, estamos tirando a cobertura que está degradada e colocando material apropriado. Fora os vitrais, os sinos e a torre também passam por retoques importantes. Tudo em segurança, sem interromper as atividades da igreja — afirma Leonardo Dias, engenheiro e gerente da Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop-RJ), responsável pela reforma.
A obra integra o Programa Infratur, voltado à revitalização e à qualificação de patrimônios turísticos e prédios públicos. O investimento total é de R$ 72,1 milhões, custeado com recursos do Fundo Soberano do Estado do Rio de Janeiro (Funserj), que recebe verba de royalties.
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Mosaico de vidro
A catedral tem quatro grandes vitrais com mosaicos feitos com a técnica dalle de verre (placa de vidro, em francês), que utiliza blocos grossos de vidro colorido com cerca de 2cm a 3cm de espessura, unidos por uma matriz de concreto. Ao todo, são seis mil pedaços de vidro por vitral.
— Começamos as obras em outubro de 2024 e paramos em janeiro de 2026 porque faltaram recursos. Nós fizemos a parte externa, emergencial, tratamos a fachada, tiramos as peças que estavam em pior estado, algumas quebradas. O trabalho agora será na parte interna dos vitrais — conta Cláudio Sacramento, de 51 anos, que trabalha no ateliê da catedral desde os 14 anos: — Passei 11 anos limpando o ateliê, e aos poucos comecei a me interessar. Fui aprendendo só de observar. Um dia houve uma greve de ônibus, e eu fiz o serviço no lugar de um artesão. Perguntaram quem tinha feito, e eu assumi. E aí comecei a restaurar oficialmente, já aos 25 anos — conta Cláudio, que se tornou referência e mão de obra rara no Brasil.
Claudio Sacramento restaura cada pedaço de vidro dos vitrais em seu ateliê, no subsolo da Catedral
Ana Branco
A Catedral Metropolitana do Rio é o oitavo ponto turístico mais visitado da cidade: recebeu quase 740 mil turistas nacionais e internacionais em 2026, de acordo com dados do Observatório do Turismo Carioca, plataforma de inteligência da Secretaria municipal de Turismo, a partir do sistema GeoData, com base na movimentação da telefonia celular.
Viagem pela fé
A procura por viagens que incluem arte, história e arquitetura de locais sagrados aumentou especialmente depois da pandemia. Desde então, o turismo religioso entrou no radar do Visit Rio, fundação sem fins lucrativos criada para promover o setor na cidade. A tendência também foi apontada pelo Ministério do Turismo. Diante desse cenário, foi criada uma categoria específica dedicada à promoção do turismo religioso e ao posicionamento do Rio como um destino com potencial para esse público.
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— Além de seu significado religioso, a Catedral Metropolitana é um ícone da arquitetura modernista e um dos marcos da paisagem carioca. A retomada das obras é importante para preservar esse patrimônio e manter viva sua contribuição para o turismo religioso no Rio — afirma Luiz Strauss, presidente-executivo do Visit Rio.
De família católica, Lucas Batista, de 28 anos, de Itaúna, no centro-oeste mineiro, visitou o templo com a mãe e os tios:
— Somos muito religiosos e queríamos conhecer o local. Já ouvimos falar muito bem daqui, é um ponto turístico que chama atenção no centro da cidade. Era uma referência importante para a gente. Futuramente, voltar depois de pronto vai ser interessante.
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Ana Branco
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