Qualquer lojinha, hoje, desbloqueia celular. A afirmação, do delegado Neilson dos Santos Nogueira, da 16ªDP, mostra que o tradicional caminho dos aparelhos roubados — que costumam ser desbloqueados numa central clandestina e depois encaminhados para a Rua Uruguaiana e outros pontos comerciais de grande movimento para serem revendidos — ganhou rotas alternativas.
— Hoje, em qualquer lojinha dessas que consertam aparelho celular, eles têm ferramentas para desbloquear o telefone. Depois, os criminosos invadem a conta bancária da pessoa no aplicativo instalado no aparelho, mesmo sem a senha do banco, e fazem operações — diz Nogueira.
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Em seguida, os criminosos partem para a venda do aparelho, mas muitos têm preferido oferecer as mercadorias roubadas pela internet, em vez de as expor no comércio popular — e correr o risco de enfrentar uma batida da polícia. No ambiente digital, o vendedor promete até nota fiscal, o que lhe dá mais credibilidade.
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O delegado explica que as quadrilhas vêm fazendo parceria com empresas criadas apenas para emitir notas fiscais falsas. Uma delas atua na Barra e é investigada há um ano pela unidade.
— Como hoje ficou muito fácil legalizar uma empresa e emitir nota, alguns montam firmas que não têm qualquer movimentação comercial, só emitem nota para quem quiser — destaca o delegado. — Essas empresas vendem cada nota fiscal por entre R$ 20 e R$ 30, para celulares ou outros produtos roubados, e as oferecem em grupos em redes sociais. O cara vai lá, faz o Pix, passa os dados para a nota, e a empresa a emite e manda por WhatsApp. Eles nem se conhecem, não têm contato físico. Aí você tem crimes fiscais e uma série de delitos.
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Segundo mostra a ferramenta interativa Mapa do Crime, a Barra da Tijuca está em quarto lugar no ranking de bairros onde mais se roubam celulares. Nos últimos anos, o bairro oscilou entre as sete primeiras posições. De 2023 para o ano passado, o indicador aumentou 8,7%, passando de 390 para 424 ocorrências. Este número só fez crescer desde 2020, quando foram registrados 222 casos no bairro.
O Recreio também vem tendo aumento constante de roubos de celulares. Entre 2020 e 2024, o índice anual só cresceu: foram 63, 88, 117, 156 e 175 ocorrências anuais. Um aumento de 178%, se considerado todo este período.
Assim como a polícia, a população já percebe que é cada vez mais comum os assaltantes obrigarem a vítima a fornecer a senha do aparelho ou desbloqueá-lo na hora. Isso facilita a sequência do crime.
— O assaltante coloca a configuração do aparelho no modo “nunca”, para não bloquear a tela, e leva o aparelho desbloqueado para dentro da comunidade. Assim ele vale muito mais — observa o delegado.
Questionado se esta prática favorece o aumento de roubos em relação ao número de furtos, já que é necessária uma abordagem mais violenta para se exigir a senha do aparelho, Nogueira avalia que este diagnóstico não é tão simples. A explicação, para ele, tem a ver com a pena que o assaltante pode pegar:
— Isso depende do perfil do criminoso. Tem alguns que preferem atuar no 155, que é o artigo do furto, porque a consequência penal é muito mais branda. No roubo, ele sabe que, se for pego, vai ficar preso efetivamente. No furto, ele vai para a audiência de custódia e a chance de ser liberado é gigante.
De acordo com análises do 31º Batalhão, muitos destes delitos na região são cometidos por adolescentes reincidentes, com a unidade registrando uma média de 33 casos de apreensões de menores mensalmente, a maioria por esse motivo. A reincidência é uma questão levantada também pela comunidade. Formado por representantes da sociedade civil, o 31º Conselho Comunitário de Segurança (CCS) faz reuniões mensais com os delegados da 16ª e da 42ª DP (Recreio) e com o comandante do 31º BPM, nas quais apresenta queixas e tenta municiar as forças de segurança com informações.
— Prejudica muito o fato de a polícia prender o mesmo cidadão inúmeras vezes — avalia Maria Lucia Mascarenhas, presidente do 31º CCS. — A sensação de insegurança cresceu por aqui. Pedimos mais efetivo, mais viaturas e o policiamento mais ostensivo possível.
O músico Léo Moreno sentiu a insegurança na pele. Ao voltar do seu show, às 4h45 de um domingo, ele freou bruscamente o carro na Rua Abrahão Jabour, na altura do Riocentro. Na pista havia pedras e galhos colocados por criminosos.
— Vieram cinco socando o carro, me mandando descer. Pediram o celular, a senha, pegaram o meu relógio. Fiquei esperando para ver se levariam o carro. Escutei um deles falar para me mandar ir embora, antes que me desse um tiro. Mas eu não sabia se era para entrar no carro ou ir andando. Foi quando tomei duas coronhadas, na cabeça e no pé da orelha — recorda ele, que entrou no veículo e partiu. — Tinha recebido o meu cachê em dinheiro neste dia. Tive a sorte de não terem olhado o meu bolso. Faço este trajeto há um ano, mas nunca mais passo ali. Meu medo foi pensar que nessa hora não era ninguém, que não tinha poder de reação. Poderiam me dar um tiro simplesmente.
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Além das emboscadas em que criminosos forçam a parada do motorista, há as abordagens quando o trânsito engarrafa, inclusive nas vias principais.
— Eles se escondem principalmente em áreas de vegetação, como o Bosque da Barra e atrás do Via Parque. Então aguardam os veículos pararem no congestionamento e atacam os motoristas, principalmente os que estão com o vidro aberto. Há casos em que só pegam o telefone e outros em que ameaçam e até jogam pedras no carro — relata o delegado.
Moradores e frequentadores da região citam também as ruas residenciais do Jardim Oceânico entre as mais visadas. Há pouco menos de duas semanas, na Avenida General Guedes da Fontoura, um ladrão foi perseguido por populares e contido até a chegada da polícia depois de apontar uma arma para um casal com bebês. O vídeo repercutiu nas redes sociais.
O administrador Paulo Ferreira, que trabalha na região, conta que a situação já se tornou comum.
— Trabalho ao lado da Delegacia de Homicídios, mas ninguém respeita nem isso. Recentemente uma colega foi assaltada ali. Nesta última semana, o vigia da creche ao lado chamou outra colega para entrar lá, porque percebeu que ela seria assaltada — conta.
No dia 14 de julho, o Governo Federal lançou o Cadastro Nacional de Celulares com Restrição (CNCR), uma base de dados de aparelhos que foram roubados, furtados ou extraviados. A consulta pode ser feita pelo aplicativo do Celular Seguro, programa lançado para registros de aparelhos em geral, que podem ser bloqueados parcialmente ou totalmente, depois de um roubo, furto ou perda.
No aplicativo, basta abrir a aba “Celulares com Restrição” e digitar ou escanear o IMEI do aparelho, que é o seu principal número de identificação. Se não houver nenhum impedimento, a tela confirmará que o aparelho está liberado para uso.
“O cidadão tem o direito de saber se o celular que ele está comprando é roubado ou não. O cadastro é uma garantia. Com ele, a ferramenta Celular Seguro segue oferecendo mais segurança aos brasileiros na hora de adquirir um bem tão essencial na vida cotidiana, como é o telefone móvel nos dias de hoje”, destaca o secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Manoel Carlos de Almeida Neto.
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Entenda o que é o Mapa do Crime
Quais são os bairros mais perigosos do Rio? Onde os roubos avançaram? Quais é o horário menos seguro para caminhar pela vizinhança? Para ajudar a responder essas perguntas e entender a dinâmica da violência na cidade, o GLOBO desenvolveu o Mapa do Crime, uma ferramenta interativa de monitoramento de roubos no Rio com dados inéditos de delitos por bairros. Disponível no site do jornal, o mapeamento disponibiliza informações sobre quatro crimes diferentes — roubos de celular, a transeunte, de veículo e em coletivo — em 147 bairros diferentes da capital.
A ferramenta foi produzida a partir de microdados de mais de 250 mil registros de ocorrências obtidos via Lei de Acesso à Informação junto ao Instituto de Segurança Pública (ISP). O órgão, responsável por compilar as estatísticas da segurança no estado, divulga mensalmente indicadores divididos por áreas de batalhões e delegacias — que abrangem, na maioria dos casos, vários bairros. Buscando entender dinâmicas criminais hiperlocais, o GLOBO solicitou dados mais precisos de localização dos crimes e recebeu informações sobre os bairros onde cada ocorrência foi registrada, menor unidade territorial disponibilizada pelo ISP. É a primeira vez que indicadores criminais no Rio são divulgados com esse nível de detalhamento.
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Qual é a diferença entre roubo a pedestre e roubo de celular?
Os crimes de roubo a pedestre e roubo de celular, que até podem acontecer ao mesmo tempo, são registrados de forma separada pelas autoridades — e há um motivo para isso. O roubo a pedestre — também chamado de roubo a transeunte — se refere à subtração de qualquer bem pessoal feita com ameaça ou violência enquanto a vítima caminha pela rua, podendo incluir bolsas, carteiras, joias, entre outros itens.
Já o roubo de celular, como o nome indica, diz respeito exclusivamente aos casos em que o aparelho é o alvo do assalto. O telefone pode alimentar a engrenagem do crime de diversas formas: pode ser desbloqueado e usado para transferências bancárias, revendido de forma clandestina ou até desmontado para a venda de peças.