As centrífugas da usina de enriquecimento de urânio de Fordow, no Irã, “não estão mais operacionais” depois que os Estados Unidos atacaram a instalação com bombas antibunker, afirmou nesta quinta-feira Rafael Grossi, diretor-geral da agência nuclear da ONU, em entrevista a uma rádio francesa.
- O que diz cada lado: Ataque dos EUA contra instalações nucleares do Irã abre guerra de versões e janela diplomática
- Veja como funciona: EUA divulgam vídeo de teste de bomba de 14t usada pela 1ª vez em ataque ao Irã
Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não conseguiram acessar os locais nucleares desde os bombardeios. Mas Grossi declarou à Radio France Internationale que, embora seja difícil avaliar os danos apenas com imagens de satélite, o poder das bombas lançadas e as características técnicas da instalação fazem com que já seja possível dizer que “essas centrífugas não estão mais operacionais”.
As centrífugas — máquinas giratórias usadas para enriquecer urânio — exigem alta precisão e são vulneráveis a vibrações intensas, explicou Grossi, acrescentando não ser possível “escapar de danos físicos significativos”. Ele afirmou, porém, que é “exagero” afirmar que o programa nuclear iraniano foi “aniquilado” após os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel, observando que nem todos os locais nucleares foram atingidos no Irã — e que autoridades do país disseram que tomariam “medidas de proteção” para o urânio já enriquecido.
As declarações de Grossi, diretor-geral da AIEA, surgem em meio a questionamentos sobre a eficácia dos ataques americanos contra os locais nucleares iranianos. O presidente americano, Donald Trump, tem insistido que o bombardeio “aniquilou” a instalação de Fordow — posição que alguns membros de sua administração continuam defendendo, mesmo após o vazamento de um relatório de inteligência preliminar e confidencial dos EUA, segundo o qual os ataques teriam atrasado o programa nuclear iraniano em apenas alguns meses.
- AIEA diz que não foi notificada: Conselho do Irã aprova projeto de lei que suspende cooperação com agência nuclear da ONU
Nesta quinta-feira, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, e o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, ofereceram mais detalhes sobre o planejamento e a execução dos ataques americanos. Mas não apresentaram novas avaliações sobre os danos causados ou sobre o estado do programa nuclear iraniano. E, na entrevista à rádio francesa, Grossi se recusou a estimar em quanto tempo o programa nuclear iraniano teria sido atrasado pelos ataques:
— Talvez décadas, dependendo do tipo de atividade ou objetivo — disse ele, ecoando comentários feitos por Trump nesta semana durante uma cúpula da Otan. — É verdade que, com essas capacidades reduzidas, será muito mais difícil para o Irã continuar no mesmo ritmo de antes.
Um dos principais objetivos da AIEA é monitorar a atividade nuclear na República Islâmica e em outros países, inclusive aqueles que assinaram o Tratado de Não Proliferação Nuclear. Mas as relações entre a agência e o Irã já estavam em baixa mesmo antes de Israel atacar o país.
Os inspetores da agência permaneceram no território iraniano durante a guerra, mas não conseguiram acesso às instalações nucleares devido aos combates. E não está claro quando — ou mesmo se — eles poderão retornar agora que um cessar-fogo está em vigor.
O Parlamento iraniano, dominado por linhas-duras, votou na quarta-feira a favor de um projeto de lei para suspender a cooperação com a agência e proibir a entrada de seus inspetores no país. Embora o projeto ainda precise da aprovação de uma instância superior iraniana para entrar em vigor, sua aprovação foi vista por analistas e autoridades como um gesto de desafio por parte de Teerã.
Mas, como signatário do Tratado de Não Proliferação, observou Grossi na entrevista, o Irã é “obrigado a ter um sistema de inspeções”. Ele instou as autoridades iranianas a não “rejeitarem unilateralmente” as inspeções, “porque, caso contrário, estaremos à beira de outra grande crise”.
Grossi, que classificou como “limitada” a cooperação do Irã com a AIEA antes da guerra, disse que entrou em contato com o ministro das Relações Exteriores iraniano para discutir o retorno dos inspetores da agência aos locais nucleares do país, mas ainda não recebeu resposta.