No foco de um investimento milionário anunciado pela prefeitura, o comércio do Centro de Niterói enfrenta o fechamento de estabelecimentos e a redução do movimento em algumas das principais vias da região. Na Avenida Amaral Peixoto, dezenas de lojas estão com placas de “Vende-se” ou “Aluga-se”. Bancas de jornal também aparecem fechadas e são alvo frequente de furtos durante a madrugada. Em ruas como Marechal Deodoro, Visconde de Sepetiba e Coronel Gomes Machado, comerciantes relatam que, depois das 18h, a circulação de pessoas diminui e a presença de moradores em situação de rua passa a fazer parte da rotina.
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Na última quarta-feira, a equipe do GLOBO-Niterói percorreu as principais vias do Centro para observar a situação do comércio e conversar com quem ainda mantém seus negócios na região. Entre os estabelecimentos visitados estava uma banca de jornal que funciona nas proximidades da Avenida Amaral Peixoto. A proprietária, que preferiu não se identificar, conta que ainda consegue manter o movimento até o fim do expediente do Poder Judiciário, que se tornou seu principal público.
— O movimento caiu bastante. Mas ainda estou resistindo aqui — conta.
Em maio deste ano, reportagem do GLOBO mostrou o esvaziamento do Niterói Shopping, um dos tradicionais pontos comerciais da região. Segundo levantamento da administração, das 109 lojas distribuídas pelos três pisos, 69 estavam desocupadas — o equivalente a 63% dos espaços. Os corredores, que já receberam apresentações culturais e concentraram grande circulação de consumidores, passaram a apresentar diversas portas fechadas.
O esvaziamento do Centro de Niterói reflete um fenômeno observado em grandes cidades no Brasil e no mundo, avalia o presidente da CDL-Niterói, Luiz Vieira. Segundo ele, a adoção do home office após a pandemia reduziu a presença de trabalhadores em escritórios da região, deixando salas comerciais vazias, enquanto a digitalização de serviços bancários, públicos e da Justiça eliminou a necessidade de deslocamento até o Centro. Para Vieira, o comércio eletrônico também disputa espaço com as lojas físicas, movimento que soma-se ao crescimento do comércio nos bairros, hoje mais habitados. Ele defende que a revitalização urbanística em curso, aliada a incentivos para atrair moradores, pode reverter o quadro nos próximos anos.
— Hoje, no mundo inteiro, os grandes centros estão esvaziados, porque os centros sempre tiveram a concentração de comércio e de serviços. Após a pandemia, muitas empresas, principalmente de serviços, e escritórios, adotaram o sistema de home office, e isso causa um outro impacto, que é o fato de o Centro ter várias salas vazias. O empresário não quer fazer investimento no local que está deteriorado. A partir do momento em que seja uma rua bonita, urbanisticamente renovada, com certeza esses investimentos voltarão. A tendência é o comércio ser híbrido. Você tem a loja física, mas participa do digital também — avalia.
Projetos municipais
A situação ocorre enquanto a prefeitura aposta em uma série de projetos para tentar reverter o esvaziamento do Centro e aumentar a população residente na região. Entre as principais intervenções está a requalificação da Avenida Amaral Peixoto, da Rua da Conceição e de vias do entorno. O projeto contempla cerca de 35 mil metros quadrados, com recuperação e alargamento de calçadas, modernização da drenagem, infraestrutura de telecomunicações, novo pavimento, paisagismo, arborização e sinalização. O investimento previsto é de R$ 78,9 milhões, com conclusão estimada para o segundo semestre de 2027.
Em nota, a prefeitura afirmou que Amaral Peixoto também começa a receber projetos de ocupação residencial. A estratégia do município é aumentar também o número de moradores permanentes. Atualmente, cerca de 18 mil pessoas vivem na região central. A meta é chegar a 40 mil nos próximos dez anos. Uma das iniciativas é o Aluguel Universitário, que oferece auxílio mensal de R$ 700 para estudantes de menor renda que morem no Centro, em São Domingos e em São Lourenço.
Para a prefeitura, os primeiros sinais de retomada do mercado imobiliário aparecem nos dados reunidos pelo portal do Reviver Centro. Segundo o levantamento, o bairro respondeu por 15% das transações imobiliárias da cidade e registrou crescimento de 37% nas vendas em 2025.
A questão da população em situação de rua também vem sendo contemplada. Desde 2025, funciona o Programa Recomeço, com um Centro Integrado Multidisciplinar que reúne serviços de assistência social, saúde, alimentação, banho, lavanderia, qualificação profissional, educação, documentação, atendimento jurídico e encaminhamento para emprego e moradia. O equipamento funciona diariamente, inclusive nos fins de semana.
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