O presidente do banco central da China apresentou nesta quarta-feira um plano para um sistema financeiro global que dependa de várias moedas principais, e não apenas do dólar, enquanto Pequim intensifica sua campanha para enfraquecer a primazia da moeda americana.
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Pan Gongsheng, presidente do Banco Popular da China, não mencionou o dólar nominalmente, mas fez uma crítica prolongada aos perigos potenciais da dependência internacional de uma única moeda nacional.
Em uma referência velada aos Estados Unidos, Pan citou os riscos decorrentes de problemas fiscais e regulatórios no país emissor da principal moeda global.
Esses problemas podem “transbordar para o mundo na forma de riscos financeiros e até evoluir para uma crise financeira internacional”, disse ele.
O governo Trump já falou sobre enfraquecer o dólar em relação a outras moedas para tornar as exportações americanas mais atraentes para compradores no exterior. A moeda americana se desvalorizou consideravelmente neste ano, incluindo uma queda de 11% em relação ao euro.
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Um dólar mais fraco poderia ajudar a reduzir o déficit comercial americano. Mas também pode aumentar o custo de endividamento do governo dos EUA em meio a déficits orçamentários federais cada vez maiores.
A China manteve o valor de sua moeda, o yuan, fortemente atrelado ao dólar. Isso fez com que ela caísse junto com o dólar, tornando os preços das exportações chinesas ainda mais competitivos na Europa, um parceiro comercial importante, assim como em outras regiões.
O dólar é, de longe, a principal moeda usada no comércio global, inclusive quando a China está envolvida, seguido pelo euro. O yuan aumentou seu uso nos últimos anos, mas continua sendo um ator secundário no comércio internacional.
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Pan alertou que um país com uma moeda dominante inevitavelmente busca “armá-la” de forma injusta durante conflitos geopolíticos. A China está fortemente alinhada com a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte e tem se manifestado contra medidas dos EUA que visam sufocar o comércio com esses países.
A China compra praticamente todas as exportações de petróleo do Irã e grande parte das exportações de petróleo e gás da Rússia, e realiza essas transações por meio de pequenos bancos e empresas chinesas que têm pouca necessidade de dólares.
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A força do dólar reside, em parte, em seu uso disseminado no financiamento do comércio internacional. Os bancos frequentemente dependem de procedimentos consolidados há décadas que estão atrelados ao dólar, incluindo alguns que ainda utilizam fax.
Pan criticou esses arranjos, defendendo que mais pagamentos transfronteiriços utilizem tecnologias emergentes, incluindo o yuan digital da China. Isso poderia facilitar a realização de transações em moedas que não o dólar.
Pan e outros altos funcionários do governo chinês discursaram nesta quarta-feira na abertura do Fórum Lujiazui, em Xangai, o principal encontro anual dos formuladores de políticas financeiras e executivos da China.
A segunda maior economia do mundo enfrenta obstáculos enormes para promover sua moeda como alternativa ao dólar. Um dos maiores é que o país tem um enorme e crescente superávit comercial. Como resultado, grande parte do yuan em circulação no exterior é normalmente usado para comprar mais produtos chineses ou pagar dívidas com a China.
Além disso, a China impõe rígidas restrições à movimentação do yuan para dentro ou fora do país. O objetivo é evitar que empresas e famílias chinesas enviem suas economias para outros países em busca de segurança ou melhores retornos financeiros. Mas essas restrições tornam a moeda chinesa uma forma ineficaz de reserva de valor para estrangeiros.
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Nos últimos anos, Pequim conseguiu convencer alguns países em desenvolvimento a liquidar parte de seus saldos comerciais com a China em yuan.
— A China não está globalizando o yuan no sentido ocidental, mas regionalizando-o — inserindo a moeda no comércio, nos pagamentos e nas relações entre Estados, especialmente no Sul Global — disse Dan Wang, economista especializada na China, do escritório do Eurasia Group em Cingapura.
Pan, de forma notável, não mencionou as dificuldades financeiras dos consumidores chineses em seu discurso desta quarta-feira. Tampouco o fez Chen Jining, membro do Politburo e líder do Partido Comunista em Xangai. Ele fez o discurso de abertura do fórum e concentrou-se no papel do setor financeiro da China em financiar investimentos em inovação científica e tecnológica.
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O setor bancário, controlado pelo governo, aumentou rapidamente os empréstimos a fabricantes de carros elétricos, painéis solares e outras tecnologias avançadas. Ao mesmo tempo, o colapso do mercado imobiliário no país causou um forte impacto nos gastos dos consumidores.
Grande parte da classe média urbana do país perdeu suas economias de uma vida inteira com a queda dos preços dos apartamentos, que recuaram entre um terço e metade.
Os preços começaram a despencar em 2021, após o governo agir para conter uma bolha especulativa que durava décadas e havia elevado o valor dos imóveis em até 20 vezes em muitas cidades, tornando os novos apartamentos inacessíveis para grande parte da população.
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Sinais tímidos de estabilização nos gastos dos consumidores começaram a surgir recentemente. As vendas no varejo cresceram 6,4% em maio em relação ao mesmo mês do ano passado, superando as expectativas da maioria dos economistas.
Mas esse aumento, divulgado em dados do Escritório Nacional de Estatísticas da China na segunda-feira, foi impulsionado por altas acentuadas em algumas categorias específicas de produtos fabricados principalmente na China, como eletrodomésticos, que passaram a ser elegíveis para subsídios governamentais de troca.

