Embora o eleitorado pobre tenha se mantido como principal fortaleza do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reeleição, foi em cidades de renda mais elevada que o petista conseguiu alicerçar a virada contra Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Cruzamento entre a geografia do voto e a renda média dos municípios brasileiros mostra que Lula teve o maior aumento entre turnos nos locais mais abastados, apesar de ainda ter sido derrotado pelo adversário nesse universo.
O levantamento dividiu os 5.569 municípios brasileiros em cinco faixas de renda média mensal. A do topo abarca as cidades com mais de R$ 2,5 mil por mês. Na mais rica de todas, a mineira Nova Lima, com vencimentos médios de R$ 6.9 mil, Lula conseguiu até vencer no segundo turno, o que também aconteceu em Minas Gerais como um todo.
Votação por renda média das cidades
Arte/O Globo
Chama atenção o escalonamento das variações entre turnos. Na faixa das cidades mais ricas, ele aumentou a votação em 24%, passando de 22,9 milhões de sufrágios no primeiro para 28,5 milhões no segundo. Depois, considerando a renda média mensal de forma decrescente, os demais grupos oscilaram 23%, 18%, 12% e 9%.
Quanto mais abastada a cidade, maior era a margem para Lula melhorar, dado que nos lugares mais pobres ele já contava com percentual superlativo de votos na primeira rodada eleitoral — e assim continuou no último domingo. No grupo de municípios com renda mensal de R$ 758 a R$ 1.354, o reeleito recebeu 75,5% dos votos, contra 24,5% de Flávio.
A vantagem de Lula por grupo de renda segue lógica inversa à do aumento proporcional entre turnos. Quanto mais pobre a faixa, maior a votação. A única em que, percentualmente, o presidente conseguiu vencer no segundo turno depois de perder no primeiro foi a intermediária, que o levantamento estimou entre R$ 1.724 e R$ 2.153 de renda média por mês. O placar ficou em 52,9% a 47,1%.
Impacto das grandes cidades
Um exemplo impactante de virada nos locais de renda elevada foi o Rio, que registrou a maior guinada petista de um turno para o outro entre as capitais. Depois de ficar atrás de Flávio por 137,8 mil votos no primeiro domingo eleitoral, o presidente venceu no último por 113,1 mil. Foi a primeira vitória do partido na cidade desde 2014.
Uma cidade estar entre as mais ricas do levantamento não significa que a população dela tenha, de modo homogêneo, salários altos. Além de o piso dessa faixa ainda ser baixo, de cerca de um salário mínimo e meio por mês, há desigualdades internas.
Professor da UFRJ, o cientista político Josué Medeiros pontua, por exemplo, que parte da chamada classe C, que muitos analistas consideram o grande desafio de Lula e do PT para se reinventar, vive nessas cidades.
— O que fez essa virada foi um combinado de duas dimensões. Uma é a rejeição ao Flávio. Esse setor é muito capturado por rejeições que a campanha do PT e da sociedade foram cravando nele, como acusações de relação com milícias, escândalos de corrupção, possível desmonte das políticas públicas — diz.
Outra “dimensão fundamental”, segundo Medeiros, foi Lula ter conseguido retomar a capacidade de apresentar medidas para o futuro.
— Lula perdeu cerca de 3 milhões de votos de 2022 para 2026. Ele se recuperou no segundo turno porque, além da rejeição a Flávio, apresentou melhorias como o fim da escala 6×1 e o Prospera MEI. Isso fez com que ele também recuperasse a ideia de que ainda é capaz de entregar coisas.
Cidades mais ricas puxam virada de Lula no segundo turno, apesar de vantagem de Flávio Bolsonaro
