
Uma espécie desconhecida de crocodilo pré-histórico, que viveu há cerca de 45 milhões de anos no território onde hoje fica o Egito, foi identificada por cientistas a partir de um fóssil encontrado na mesma formação rochosa utilizada na construção da Grande Esfinge de Gizé. O animal, batizado de Herugavialis cairensis, teve seus restos descobertos na década de 1920, mas só agora foi reconhecido como uma espécie distinta, após uma nova análise com tomografia computadorizada.
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O estudo, publicado na revista científica Royal Society Open Science nesta quarta-feira, foi conduzido por pesquisadores do Egito, do Reino Unido, da Suécia e da Alemanha. A equipe examinou o crânio fossilizado e comparou suas características anatômicas com as de outros crocodilianos, identificando diferenças que permitiram rever a classificação original do animal.
Fóssil foi confundido com outra espécie por quase um século
Os restos do crocodilo foram encontrados na formação de Mokattam, nas proximidades do Cairo. Quando o material foi analisado inicialmente, os pesquisadores o classificaram no gênero Tomistoma, grupo que inclui o falso gavial, réptil de focinho alongado que vive atualmente em áreas de água doce do Sudeste Asiático.
A classificação, porém, levantava dúvidas sobre a distribuição geográfica desses animais ao longo da evolução. Com o avanço das técnicas de análise, os cientistas voltaram a examinar o fóssil por meio de tomografias computadorizadas e avaliaram mais de 300 características anatômicas do crânio. Os resultados indicaram que o exemplar pertencia a uma linhagem diferente da inicialmente atribuída.
O crânio holótipo (SMNS 10575) de H. cairensis
Divulgação
O Herugavialis cairensis faz parte do grupo dos gaviais, crocodilianos conhecidos pelo focinho comprido e estreito, adaptado à captura de peixes. O registro fóssil mostra que esses animais já tiveram uma distribuição geográfica muito mais ampla do que a atual.
Nome faz referência à mitologia egípcia
A escolha do nome da nova espécie estabelece uma ligação entre a história natural do Egito e seu patrimônio arqueológico. A primeira parte, Heru, faz referência a uma antiga divindade egípcia associada à inspiração para a Grande Esfinge. Já cairensis remete ao Cairo, cidade próxima ao local onde os fósseis foram encontrados.
Outra coincidência chamou a atenção dos pesquisadores: tanto o crânio fossilizado quanto a Esfinge estão sem a extremidade do focinho ou do nariz, respectivamente. No caso do fóssil, a ponta do focinho não foi preservada.
A conexão entre os dois, no entanto, é geológica, não cronológica. O crocodilo viveu milhões de anos antes da construção do monumento, esculpido em calcário há cerca de 5 mil anos. Na época em que o réptil habitava a região, durante o Eoceno, boa parte do norte da África estava coberta por águas marinhas rasas.
Crocodilos já habitaram regiões onde hoje não existem
A descoberta também contribui para o estudo da evolução dos crocodilianos e da antiga diversidade de espécies que viviam na região do Mediterrâneo. Fósseis indicam que diferentes tipos de gaviais habitaram esses ambientes ao longo de milhões de anos, quando as condições climáticas e o nível do mar eram diferentes dos atuais.
Essa diversidade desapareceu com as transformações ambientais. Há cerca de 6 milhões de anos, o Mediterrâneo passou por uma crise de salinidade que provocou o ressecamento de grande parte de sua bacia, processo associado ao desaparecimento dos crocodilianos da região.
Hoje, os gaviais sobrevivem em áreas de água doce do sul e do sudeste da Ásia. A reclassificação do fóssil egípcio ajuda os pesquisadores a compreender melhor a história evolutiva desse grupo e a explicar como seus representantes se distribuíram pelo planeta no passado.