Há um enigma intrínseco na vida, na obra e na permanência de Clarice Lispector (1920-1977). A escritora ucraniana de origem judaica, naturalizada brasileira, cujos livros e contos são um mergulho existencial repleto de subjetividade, não para de atrair novo e grande público com peça, instalações, livros e filmes. Beth Goulart voltou à cena em “Simplesmente eu, Clarice Lispector” (na primeira temporada, ficou em cartaz de 2009 a 2014) e foi lançado o filme “Lispectorante”, de Renata Pinheiro; o livro “O Rio de Clarice: passeio afetivo pela cidade” (Autêntica), de Teresa Montero com fotos de Daniel Ramalho, ganhou segunda edição, ampliada; a exposição “Projeto Centenários: Clarice Lispector” ocupou a Estação Luz do metrô de SP; e a editora Rocco anunciou a preparação de uma HQ de “A hora da estrela”, último livro da escritora publicado em vida. “Ela virou uma figura mítica como Frida Kahlo”, diz o editor responsável por sua obra, Pedro Karp Vasquez.
Poeta e ensaísta, Eucanaã Ferraz lista alguns motivos para a febre “clariciana”. “Falava-se pouco sobre ela na década de 1980, lembro-me de encontrar seus livros em sebos no Centro do Rio, o grande público não dava bola”, conta. “Considero um marco a publicação da sua biografia pelo americano Benjamin Moser, em 2009. Foi uma virada internacional. No mais, foram mudando os desejos e as vontades, e Clarice foi aparecendo.”
perenidade dos temas abordados por Clarice também está na essência do interesse contínuo. “Ela toca em questões atemporais como o tempo, a morte, a linguagem, a nossa total incompreensão diante da vida, o desejo de transcender para além da morte confrontado com a flagrante efemeridade da existência”, analisa Eucanaã. A forma singular da escritora de abordá-las atravessa gerações. “Clarice é ímpar, lida com tudo isso de modo único. Não existem autores parecidos.” E continentes: em setembro do ano passado, no Festival de Cinema de San Sebastian, na Espanha, a atriz Cate Blanchett, em um discurso, chamou a escritora de “gênio absoluto”. Mês passado, a cantora Olivia Rodrigo afirmou estar lendo o livro “A hora da estrela”.
Outra alavanca para a propagação de suas palavras são as redes sociais. Citações da escritora, e outras atribuídas a ela, são hits na internet e engajam o público jovem. “Ela tem frases lapidares, é um pouco como Nelson Rodrigues”, compara Eucanaã, que enxerga com bons olhos essa disseminação. “A banalização existe, mas é, antes de tudo, a comprovação da força de Clarice que consegue alcançar as pessoas de maneira tão poderosa”, reflete.
O ineditismo da sua obra se confunde com as suas escolhas de vida, que revelam uma mulher à frente do seu tempo. A escritora chegou ao Brasil com apenas 2 anos. A família fugiu da Ucrânia natal para escapar da Guerra Civil Russa (1918-1921) e da perseguição aos judeus naquela região. Depois de desembarcar em Maceió e morar em Recife, os Lispector vieram para o Rio quando Clarice tinha 15. Em 1943, formou-se em Direito na Universidade do Brasil (a UFRJ de hoje), mesmo ano em que se casou com o diplomata Maury Gurgel Valente. O casal teve dois filhos, Pedro e Paulo. “Foi uma trajetória nômade, um percurso cheio de idas, vindas e luta. Clarice encontrou seu caminho na palavra”, explica Teresa Montero, autora de “À procura da própria coisa: uma biografia de Clarice Lispector” e de “O Rio de Clarice: passeio afetivo pela cidade”, em que traça uma biografia geográfica. “Na segunda edição, incluí locais que têm a ver com a sua origem judaica, como o Grande Templo, no Centro. Foi lá que uma de suas irmãs se casou”, diz.
Teresa ressalta, ainda, a identificação com a emancipação feminina. “No começo dos anos 1940, bem jovenzinha, Clarice foi trabalhar na redação do jornal ‘A noite’, um ambiente totalmente masculino”, comenta. “Nessa mesma fase, em 1944, publica seu primeiro livro, ‘Perto do coração selvagem’.”
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Pedro Vasquez reforça essa característica. “Depois de viver 15 anos no exterior (de 1944 a 1959), para acompanhar o marido diplomata, ela se desquita e volta para o Rio com os dois filhos”, conta. “Naquele tempo, a mulher que se separava era malvista. Todas as questões levantadas por sua obra foram adotadas pelo femininismo.” Renata Lima, uma das idealizadoras do caminhão baú “A Casa que anda. Que mistérios tem Clarice?”, exposição itinerante baseada em histórias infantis da escritora, que rodou o Brasil no ano passado, acrescenta: “Ela foi muito avançada, tinha estilo e presença fortes”.
No palco, Beth Goulart esbanja feminilidade e profundidade. Fazem parte da sua composição o olho marcado com delineador, o cabelo com volume e a cintura definida em vestidos colocados sobre uma combinação dos anos 1920. “Ela era dona de uma elegância natural e, como mulher de diplomata, explorou a beleza e apurou os modos”, diz a atriz. Beth chega duas horas antes para fazer o cabelo e a make. “Clarice também deu dicas de maquiagem no jornal”, lembra. Para a intérprete, o que fisga pessoas de todas as idades é a dimensão universal da obra da autora: “Sua literatura é um espelho que olha para dentro da gente. Outro dia, uma menina de 13 anos, fã da escritora, foi assistir ao espetáculo. Seu questionamento é sobre o estar no mundo”, afirma. Teresa Montero completa: “As frases ‘à procura da própria coisa’ e ‘eu sou uma pergunta’ sintetizam essa busca”.

