A Grifols, empresa espanhola que administra 17 clínicas privadas de coleta de plasma sanguíneo no Canadá, suspendeu temporariamente as doações em todas as unidades do país nesta sexta-feira. A decisão ocorre meses após a morte de dois doadores em Winnipeg, na província de Manitoba, e um dia depois de a Health Canada, órgão regulador federal, emitir uma notificação de não conformidade contra uma das clínicas da companhia.
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A empresa informou que comunicou a decisão à Health Canada nesta quarta-feira, mesmo dia em que recebeu a notificação referente à unidade da Taylor Avenue, em Winnipeg. Segundo o órgão, a clínica apresentava problemas relacionados ao cumprimento de normas para estabelecimentos de coleta de sangue.
A Grifols afirmou que decidiu interromper as atividades de forma “proativa e voluntária” diante do que classificou como “atenção infundada” sobre a coleta remunerada de plasma. A empresa disse que pretende retomar as operações após estabelecer, com a Health Canada e a Canadian Blood Services, uma estrutura para garantir uma rede de coleta “sustentável e robusta”.
— A segurança dos doadores e a qualidade do plasma que coletamos nunca foram comprometidas — afirmou a empresa em comunicado.
A Health Canada informou ter identificado “várias preocupações de conformidade” e afirmou que a segurança dos canadenses deve ser prioridade. O órgão disse que a suspensão temporária não afetará a segurança ou a disponibilidade do sangue e do plasma no país.
Mortes de doadores
As mortes ocorreram em outubro de 2025 e janeiro de 2026. Em um dos casos, a vítima foi identificada como Rodiyat Alabede, de 22 anos, estudante internacional que se preparava para trabalhar como assistente social. Segundo familiares e amigos, ela ficou inconsciente durante uma doação de plasma em Winnipeg, em 25 de outubro, e morreu pouco depois.
Um exame de autópsia apontou parada cardíaca como causa da morte. A Health Canada afirmou ter encontrado “nenhuma ligação” entre a morte de Alabede e o processo de doação de plasma. A Grifols também negou que houvesse relação entre o procedimento e a morte.
Representantes da família, no entanto, questionam a conclusão e pedem uma nova investigação. Defensores de pacientes afirmam ter identificado discrepâncias entre o relatório da autópsia e um resumo médico divulgado posteriormente pela Health Canada.
Rodiyat Alabede morreu aos 22 anos por uma parada cardíaca após doação de plasma
Reprodução | GoFundMe
Irregularidades encontradas
Relatórios de inspeção do órgão regulador também apontaram deficiências em clínicas da Grifols. Entre os problemas identificados estão treinamento inadequado de funcionários, falhas no cumprimento de procedimentos operacionais, registros incompletos e falta de medidas corretivas para problemas já identificados.
Na unidade da Taylor Avenue, uma inspeção realizada em junho encontrou problemas na triagem dos doadores, na limpeza e manutenção dos equipamentos e na investigação de erros e acidentes. O relatório também apontou que os procedimentos operacionais nem sempre eram seguidos e que os registros sobre qualificação, treinamento e avaliação de funcionários eram insuficientes.
Segundo dados da Health Canada, 25 reações adversas graves foram registradas desde 2018 nos centros atualmente operados pela Grifols. A empresa entrou no mercado canadense de coleta de plasma com fins lucrativos em 2022, após um acordo com a Canadian Blood Services, organização sem fins lucrativos responsável pelo sistema nacional de sangue.
Doações de plasma
A companhia permite que os doadores recebam até 100 dólares canadenses por doação e anuncia ganhos de até 6 mil dólares canadenses por ano. Antes da suspensão, as doações podiam ser realizadas até duas vezes por semana.
O plasma é a parte líquida e rica em proteínas do sangue. No procedimento de aférese, o sangue é retirado do corpo, separado em seus componentes e as células sanguíneas que não serão coletadas são devolvidas ao doador. A operação dura cerca de 90 minutos e permite que uma pessoa doe plasma com mais frequência do que sangue total.
O material é utilizado na produção de medicamentos para doenças como hemofilia e enfermidades hepáticas, além de alguns tipos de câncer e outras condições crônicas e raras.
A coleta remunerada de plasma é permitida em algumas províncias canadenses, mas proibida em outras, como Quebec e Colúmbia Britânica. Manitoba, onde ocorreram as duas mortes, permite que empresas paguem aos doadores.
A Grifols, que possui cerca de 400 centros de coleta de plasma no mundo, afirmou que a suspensão permitirá discutir com o governo canadense e a Canadian Blood Services uma estrutura que reduza a dependência do país de produtos importados.
A Health Canada informou que já havia imposto condições adicionais à licença da Grifols e determinado medidas como redução do número de agendamentos, reavaliação da quantidade de funcionários treinados, revisão dos prontuários dos doadores e maior supervisão de profissionais mais novos. O órgão também realizou uma inspeção sem aviso prévio.
A empresa afirmou que retomará a coleta assim que for possível, após chegar a um acordo com as autoridades canadenses sobre as condições para a retomada das operações.

