Mosquito ganhou esse apelido na infância por ser magrinho. Quando já fazia sambas, ouviu de amigos que deveria se livrar da alcunha. “Isso é horrível”, diziam. Preferiu assumir o nome, e hoje pouca gente no meio sabe quem é Pedro Assad, mas quase todos sabem quem é Mosquito.
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Aos 38 anos, dez após gravar um CD com o seu apelido no título, ele lança o segundo trabalho solo, “Quinhão”, também com apoio de Paula Lavigne e Caetano Veloso, como foi o primeiro. A produção agora é de Pretinho da Serrinha. O show de lançamento é hoje, a partir das 19h, na Casa Savana, na Rua Camerino, no Centro do Rio.
— Nesse tempo em que eu fiquei sem gravar, aprendi violão e fiz músicas pra caramba. Tenho é música guardada nessas gavetas. Ia mandando para o Pretinho, que foi moldando o repertório — conta Mosquito, carioca da Ilha do Governador (Zona Norte) e que hoje mora no Vidigal (Zona Sul).
Mosquito chamou a atenção, primeiramente, como versador ou partideiro, aquele que cria versos de improviso nas rodas de partido alto. Pegou as manhas vendo outros, como Jayme Neto, amigo que também lhe ensinou a tocar cavaquinho. Os dois formaram uma dupla e lançaram um CD em 2011.
— Comecei nas rodas com uns 17 anos. Teve um dia em que pintou uma brecha e eu mandei um verso. E saiu certo. Todo mundo se espantou, até eu. Mandei outro. Quando eu vi, saía. Aprendi fazendo. Depois percebi que era um exercício e fui brincando — recorda.
Criado pela avó materna, sem conhecer o pai e tendo pouco contato com a mãe, Mosquito não ouvia muita música em casa. Recorria às casas de amigos, onde escutou suas maiores referências: Moreira da Silva, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Fundo de Quintal e outros.
— Quando descobri o samba, quis comer todos os CDs, aprender tudo num dia só. Comecei a querer escrever. Servia no quartel e passei a fazer músicas de brincadeira sobre a rotina — diz Mosquito, que logo ficou conhecido pela capacidade de compor crônicas do cotidiano.
Após concluir o ensino médio e servir no Exército, iniciou a batalha para se profissionalizar. Diz que sequer pensou em fazer faculdade:
— A música me tomou por inteiro. Trabalhei em muitas coisas: vendi carro, fiz pesquisa de opinião nas ruas, trabalhei no Inmetro, na Polícia Federal, tudo terceirizado. E a cabeça sempre na música.
Embora tenha muitas canções compostas, são poucas as gravadas por outros artistas. Em depoimento enviado à imprensa, Caetano diz que pensou em gravar “Só por hoje”, do primeiro disco de Mosquito, mas desistiu: “Percebi que fica bonito mesmo é com Mosquito cantando com sua voz pura e límpida, muito jovem, mas dominada até o âmago pelo sotaque do samba de raiz.”
Pretinho conta que certa vez, contratado para uma festa de casamento, ouviu do contratante o pedido para cantar “Filho da mãe”, samba de Mosquito.
— Falei que não. Música do Mosquito é com o Mosquito — afirma ele, que destaca a versatilidade do compositor. — Faz samba dolente, de breque, partido alto, varia muito.
“Quinhão”, o álbum, espelha essa versatilidade. Tem sambas de estilos variados, um ijexá (“17 de janeiro”, parceria com Mart’nália e Teresa Cristina) e uma embolada (“Caranguejeiro”, feita com Leandro Fregonesi). Das dez faixas, sete contam com a assinatura de Mosquito. Várias ele testou no Beco do Rato, a casa da Lapa onde mantém uma roda há dez anos, toda quinta-feira.
— Não quis fazer no disco nada diferente do que ele faz no Beco — ressalta Pretinho. — O som é sem teclado, sem bateria, para ele não sair do lugar que habita.
Mosquito realizou o sonho de gravar o samba “Desistiu de mim”, parceria de seu amigo Cezar Mendes com Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carminho. Só dele é “Rabo de arraia”, de letra antirracista. Mosquito não tem pele preta, mas se considera negro.
— É o que a rua me diz. Brinco que tenho esse corpo esguio, ando pela Zona Sul de sandálias havaianas, vou passando e as senhoras vão fechando as bolsas, trancando os carros — conta. — São situações que eu passo no dia a dia e que vão magoando. Mas não é uma música que vitimiza. Ela fala de nariz em pé.
No momento, Mosquito está lendo a biografia de Moreira da Silva, escrita por Alexandre Augusto. Mas diz enriquecer mais o seu vocabulário ouvindo músicas:
— Sou um ouvinte voraz. Gosto das letras de Nei Lopes, com bastante poesia e informação.