As famílias dos desaparecidos sírios já não vêm às dezenas todos os dias ao cemitério de Najha, em busca dos restos mortais de seus entes queridos e do consolo que isso poderia trazer. Nos dias que se seguiram à queda do ditador Bashar al-Assad, em dezembro, eles apareciam, às vezes com pás na mão, com a intenção de desenterrar a vala comum ali marcada por montes de terra revirada. Eventualmente, desistiram ao perceberem que encontrariam pouco mais do que ossos em sacos para cadáveres e nenhuma maneira de determinar a quem pertenciam.
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Durante os quase 14 anos de guerra civil, dezenas de milhares de pessoas consideradas opositoras ao regime de Assad foram detidas pelas antigas autoridades e desapareceram, muitas delas executadas ou mortas sob tortura, segundo grupos de direitos humanos. Acredita-se que centenas, talvez milhares, tenham sido enterradas às pressas no cemitério de Najha, nos arredores da capital, Damasco.
O destino dos desaparecidos é uma ferida aberta para os familiares que passaram anos em silêncio doloroso, imaginando o que aconteceu com seus entes queridos.
Pelo menos 60 valas comuns foram identificadas em toda a Síria, segundo autoridades, e novas são descobertas regularmente. Mas descobrir quem está enterrado nelas é parte de um problema mais amplo e complexo para os novos líderes do país, que estão tentando trazer alguma medida de responsabilização e justiça pelos crimes de guerra cometidos pelo regime de Assad.
Khaled al-Mishtowli, de 36 anos, foi um dos que foram para Najha logo após a queda de Assad. Ele conta nos dedos o número de familiares desaparecidos: três irmãos, seu pai, três primos e duas tias. Ele diz acreditar que eles foram parar naquela vala comum porque desapareceram na região, que fica perto de suas casas.
Ele só desejava que aqueles que mataram pessoas e jogaram seus corpos nas trincheiras “tivessem ao menos enterrado os documentos de identidade das pessoas junto com os corpos”, disse ele.
— Pelo menos assim suas famílias saberiam onde elas estão — refletiu o homem
Al-Mishtowli disse que ainda se via ocasionalmente voltando ao cemitério. Durante os feriados do Eid, quando os muçulmanos visitam os túmulos de seus entes queridos, ele ia.
Ele e muitos outros na mesma situação estão apelando ao governo e às organizações internacionais para que realizem o que as autoridades alertam ser um processo longo e minucioso de exumação e identificação dos corpos.
O novo governo não possui a expertise técnica e as capacidades forenses necessárias para isso e precisará da ajuda de organizações internacionais.
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O ministro sírio de Gestão de Emergências e Desastres, Raed al-Saleh, afirmou que cerca de 140 mil sírios ainda estão desaparecidos e sem paradeiro conhecido, citando organizações de direitos humanos.
A dimensão real do número de pessoas que o regime de Assad pode ter matado ficou mais clara quando as prisões da Síria foram invadidas por rebeldes há um ano, durante uma ofensiva pelo país. Eles abriram as celas e mais de 24 mil prisioneiros escaparam, segundo a Rede Síria para os Direitos Humanos. Mas as famílias dos desaparecidos esperavam encontrar muito mais.
Em algumas prisões, famílias e equipes de resgate passaram semanas escavando o piso de concreto em busca do que acreditavam ser masmorras subterrâneas com um grande número de prisioneiros adicionais. Eles, porém, não encontraram nada. Os familiares, então, perceberam que os desaparecidos provavelmente seriam encontrados nas valas comuns.
— Estamos pedindo a qualquer pessoa, organizações internacionais, Nações Unidas, qualquer um que possa exumar os corpos e identificá-los — disse al-Mishtowli.
Mas as exumações ainda podem estar muito longe de acontecer.
— Este é um processo muito longo, que começou agora, mas que infelizmente se estenderá por muitos anos — disse Zeina Shahla, porta-voz de uma comissão síria sobre pessoas desaparecidas, um órgão criado pelo governo.
A comissão buscará o auxílio de organizações internacionais para desenvolver capacidades técnicas e forenses, como laboratórios de DNA, acrescentou ela.
‘Comunidade internacional precisa ajudar’
Em Damasco, num quartel de bombeiros, um grupo de recrutas iniciava o seu primeiro dia de treino de campo com dois instrutores da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala. A organização tem utilizado a experiência adquirida na busca por vítimas da guerra civil de 36 anos na Guatemala para treinar equipas em todo o mundo.
Os instrutores guatemaltecos haviam enterrado oito esqueletos de plástico em um terreno baldio. Os recrutas sírios estavam inspecionando o local, observando irregularidades no solo ou descoloração na terra — possíveis sinais de uma sepultura.
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Marwa Thatha, uma farmacêutica de 30 anos de Damasco, bateu com o pé num pedaço de terra na beira do terreno.
— Isto pode ser uma vala comum — disse ela, com o rosto protegido do sol por óculos escuros, um chapéu e uma máscara facial amarrada atrás do lenço na cabeça com fita de isolamento da polícia em preto e amarelo.
— A que profundidade você acha que eles os enterraram aqui? — perguntou Eman Zaaroor, de 26 anos, da cidade de Aleppo, no norte do país.
Zaaroor, que disse ter estudado química na universidade e trabalhado com grupos de ajuda humanitária em Aleppo, no norte da Síria, durante a guerra, se inscreveu no treinamento assim que soube dele. Para ela, e para muitos outros, é algo pessoal.
Dois de seus parentes ainda estão desaparecidos. Um deles, segundo ela, foi morto a tiros em uma linha de frente em Aleppo e seu corpo foi levado por soldados do regime.
— Eu queria fazer parte disso para poder ajudar primeiro a minha família, depois os meus amigos e, por fim, toda a Síria — disse Zaaroor.
Durante o treinamento, os recrutas aprendem a procurar pistas sobre o que aconteceu com as vítimas — habilidades que precisarão ao examinar e coletar evidências de sepulturas reais.
No passado, a ONU outras agências internacionais assumiram a responsabilidade pela exumação de valas comuns em vez de treinar equipes locais para fazê-lo, disse Karla Quintana, chefe da Instituição Independente das Nações Unidas sobre Pessoas Desaparecidas na Síria.
Mas, segundo ela, isso causava um problema porque a tarefa muitas vezes se estendia além do envolvimento internacional.
— A comunidade internacional precisa ajudar as autoridades sírias a construir infraestrutura primeiro e a treinar seu povo para que, eventualmente, aprendam a fazer isso por conta própria — disse Quintana. — Encontrar os desaparecidos não é fácil nem rápido. É um processo que leva tempo.

