A carnavalesca Maria Augusta tinha o sonho de criar um instituto para reunir o rico acervo que ela foi juntando em décadas devotadas ao carnaval carioca. A intenção era que o material fosse disponibilizado para estudantes, pesquisadores e amantes da folia. Ela já tinha deixado inclusive um nome escolhido: Instituto Maria Augusta Rodrigues (Imar). Com o apoio de alguns amigos, como o historiador Eduardo Gonçalves e o advogado João Pedro Figueira, havia começado a elaborar um estatuto. Sua morte, ocorrida no último dia 11, aos 83 anos, interrompeu seus planos. Mas, para os amigos, a jornada está apenas começando.
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Todo o material deixado pela carnavalesca está guardado em centenas de caixas distribuídas pelos cômodos do apartamento com cerca de 180m² em que ela passou a maior parte de sua vida, num prédio construído na década de 1920 na Rua Almirante Tamandaré, no Flamengo, na Zona Sul. Sem uma destinação definida, amigos e parentes torcem para que alguma instituição de preservação de memória e cultura se interesse pelo acervo, que guarda ainda um farto material de folclore herdado da mãe, a folclorista Anna Augusta. Já que até hoje o Rio de Momo não tem um museu à altura da maior festa popular da cidade.
— É um material único. Maria Augusta era a maior pesquisadora de escola de samba da nossa cidade, do nosso estado. Acho que ela não só vivenciou criando, mas contribuiu para que novas gerações estivessem nas pranchetas, agora nos computadores, evoluindo e criando as novas narrativas do espetáculo — afirma o empresário e jornalista Bruno Chateaubriand, que é também, assim como era a amiga, jurado do Estandarte de Ouro, prêmio dos jornais O GLOBO e Extra para os melhores do carnaval carioca.
Só de desenhos foram deixados mais de dois mil, sendo que cerca de 40% já estão digitalizados. Há croquis mostrando, por exemplo, fantasias criadas para a Ala das Damas do Salgueiro, em 1971, quando a escola desfilou com o enredo “Festa para um rei negro”, assim como para a ala Futebol, da União da Ilha, no carnaval de 1977, quando a agremiação mostrou na Avenida o enredo “Domingo”.
Mas há também fantasias usadas em desfiles das escolas onde atuou, troféus, sinopses e roteiros de desfiles, objetos pessoais como as famosas guias usadas por ela, bandeiras presenteadas pelas agremiações, partes de alegorias e panfletos recolhidos durante as disputas de samba-enredo a que comparecia. Enfim, uma infinidade de peças que podem ajudar a preservar a memória e a contar a história do carnaval carioca.
Bruno Chateaubriand revelou que foi procurado pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que teria demonstrado interesse em conhecer o material. A direção da entidade confirmou o contato, acrescentando que há a intenção de colaborar com a catalogação do acervo, que pode dar origem a uma exposição.
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Maria Augusta era filha única, nunca se casou nem teve filhos. Como não deixou testamento, sua herança será distribuída entre sete primos que vivem no Rio, São José dos Campos (SP), na capital paulista e nos Estados Unidos. Um deles, Marcelo Cordeiro de Mello, o inventariante, acredita que da parte dos parentes haverá consenso de que os planos traçados pela prima devem seguir adiante:
— Os do Rio (são três) concordam que o acervo deve ser preservado. Com os outros ainda não conversei. Mas creio que tenham o mesmo interesse. A questão aí não deve ser financeira. O que existe de fato é o valor cultural, gigantesco e único — diz.
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O amigo Eduardo Gonçalves que, em 2023, foi curador com Leonardo Antan da exposição “Cartografias de Augusta”, que ficou em cartaz durante quatro meses no Sesc Madureira, na Zona Norte, contou que há cerca de oito anos começou a mexer em pastas com desenhos que a carnavalesca não abria havia anos. Foi quando passou a digitalizar os croquis. Para a mostra, disse ter encontrado em um quarto pranchas com desenhos feitos para uma exposição da artista na Escola de Belas Artes (EBA), em 1981, nas quais desde então ela jamais havia mexido.
— É um patrimônio da memória do carnaval — aponta.
Maria Augusta é uma das poucas mulheres com nome gravado no panteão dos grandes criadores do carnaval, ambiente dominado por homens. Ela deu os primeiros passos na folia carioca ao lado dos mestres Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues.
No Salgueiro, criou três enredos campeões: “Bahia de Todos os Deuses” (1969), “Festa para um Rei Negro” (1971) e “O Rei de França na Ilha de Assombração” (1974). Sua trajetória foi marcante também na União da Ilha, onde foi responsável por desfiles memoráveis como “Domingo” (1977) e “O Amanhã”, de 1978. Também teve passagens pela Paraíso do Tuiuti, de 1980 a 1983; Tradição (1985) e Beija-Flor (1993).