A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi confirmada neste domingo como candidata a senadora pelo PL do Distrito Federal. O partido fez uma convenção em um parque em Brasília na qual anunciou também a candidatura da deputada Bia Kicis (PL-DF) ao Senado e o apoio à reeleição de Celina Leão (PP) ao governo local. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da sigla, participou do evento, que marcaria o primeiro encontro dele com Michelle após as rusgas entre os dois se tornarem públicas, mas ela não apareceu.
A ex-primeira-dama foi internada no sábado após um quadro de cefaléia e, de acordo boletim médico, passou por um procedimento de bloqueio anestésico de nervos cranianos. O comunicado, divulgado no fim da tarde, quando o evento do PL já havia começado, informava que ela teria alta ainda ontem, mas aliados justificaram a ausência pelos efeitos dos medicamentos, que a deixaram sonolenta.
“A Assessoria de Comunicação de Michelle Bolsonaro informa que ela continua hospitalizada e que, devido à persistência do quadro de cefaleia, hoje foi realizado procedimento de bloqueio anestésico dos nervos cranianos e pericranianos”, dizia o texto publicado por Michelle em suas redes sociais na tarde deste domingo.
Michelle vinha relutando a entrar na disputa após expor as desavenças com Flávio, seu enteado, em um vídeo divulgado no fim de junho. Na ocasião, ela disse ter sido “maltratada e desrespeitada” pelo senador após divergências em relação à montagem do palanque do PL no Ceará. Flávio e a cúpula do partido optaram por apoiar Ciro Gomes (PSDB) para governador no estado, enquanto a ex-primeira-dama se posicionou contrária à aliança.
Diante do potencial desgaste para sua campanha, em especial com o eleitorado feminino, Flávio divulgou há dez dias um vídeo em que pediu desculpas à madrasta. Também por meio de um vídeo gravado, a ex-primeira-dama disse perdoá-lo e aceitou o pedido. Mas, desde então, os dois não chegaram a se reunir, o que era aguardada para este domingo.
— Quero desejar melhoras para Michelle, que ela se recupere rápido. Há pouco nossa filha teve enxaquecas fortes e fez essa mesmo tratamento. Peço que coloquem Michelle e Bia Kicis no Senado. Com o Senado forte, vamos fazer com que ministros do Supremo respeitem o Senado Federal, vamos aprovar a anistia. Vamos ver aqui em Brasília, muito em breve, em nome de Jesus, Jair Messias Bolsonaro livre — discursou Flávio no evento.
Redistribuição de forças
Como mostrou O GLOBO neste domingo, o pedido público de desculpas do senador representou, para dirigentes do PL, um marco na redistribuição de forças dentro do partido. A avaliação é que a ex-primeira-dama saiu da crise fortalecida e consolidou um papel que já vinha exercendo nos bastidores: o de árbitra das disputas internas do bolsonarismo.
Respaldada por Valdemar Costa Neto, presidente da sigla, e frequentemente apresentada como porta-voz da vontade de Jair Bolsonaro, Michelle passou a influenciar diretamente a definição de candidaturas, a proteger aliados e a interferir em acordos estaduais, reabrindo negociações que dirigentes davam como encerradas.
No Distrito Federal, por exemplo, ela trabalhou pessoalmente para manter o apoio do PL à governadora Celina Leão (PP), mesmo depois de a federação União Progressista decidir permanecer neutra na disputa presidencial. Michelle conversou diretamente com Celina e atuou junto ao comando nacional da legenda para preservar o acordo. O movimento acabou isolando o senador Izalci Lucas (PL-DF), que primeiro viu fracassar seu projeto de disputar o governo e, posteriormente, abandonou a expectativa de concorrer ao Senado diante da possibilidade de a própria Michelle ocupar uma das vagas da chapa.
Em São Paulo, sua influência também pesou nas decisões internas. Como revelou O GLOBO, Michelle trabalhou para impedir que a vereadora de São Vicente Aninha Ferreira (PL) disputasse uma vaga na Câmara por entender que sua candidatura dividiria votos da deputada Rosana Valle (PL), sua aliada. A decisão provocou uma reclamação da mulher de Valdemar, Dana Costa, que telefonou ao presidente do PL para contestar o veto.
— Uma ordem da princesa derruba todo mundo? — questionou.
Valdemar respondeu sem hesitar:
— Lógico. A princesa é que tem voto.
No Mato Grosso do Sul, Michelle também entrou diretamente na montagem da chapa estadual. Durante meses, insistiu para que o deputado Marcos Pollon (PL-MS) integrasse a disputa majoritária e chegou a divulgar uma carta assinada por Jair Bolsonaro, na qual o ex-presidente manifestava apoio à candidatura do parlamentar ao Senado, numa tentativa de fortalecer seu nome dentro do partido. A mobilização provocou incômodo na direção estadual do PL, que já trabalhava para consolidar uma chapa em torno do ex-governador Reinaldo Azambuja (PL) e do ex-deputado Capitão Contar (PL).
Apesar da insistência da ex-primeira-dama, prevaleceu a articulação da cúpula local. A contragosto de Michelle, Pollon desistiu da disputa majoritária na semana passada e decidiu buscar a reeleição para a Câmara.
No Amazonas, Michelle também contrariou parte da direção estadual ao defender a manutenção da candidatura de Maria do Carmo (PL) ao governo. A decisão desagradou integrantes da legenda que defendiam rever a estratégia por considerar que a empresária mantinha uma relação excessivamente próxima ao governo estadual. Com o aval da ex-primeira-dama, Maria do Carmo terá sua postulação homologada na próxima terça-feira.
Publicamente, o PL evita relacionar a redistribuição de forças no partido ao conflito entre Michelle e Flávio. O líder da legenda na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirma que a relação entre os dois segue em reconstrução.
— Toda ferida leva um tempo de cicatrização. Já avançamos 70%. Agora ela vai ser candidata ao Senado e, com o Flávio no evento no Distrito Federal no domingo, avançaremos mais ainda.

