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outubro 14, 2026
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Com Lula à frente em oito dos dez bairros com mais faltosos, Rio concentra 'bolsões de abstenção' bem definidos

Por · outubro 14, 2026
78% consideram muito importante a participação de Flávio e Lula em debates no segundo turno, mostra Datafolha


Em uma eleição polarizada desde o início entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), as duas campanhas passaram a disputar ferrenhamente os eleitores que não foram às urnas no primeiro turno. Dentro do universo de 33 milhões aptos a votar em todo o país que não compareceram, o Estado do Rio de Janeiro é estratégico. Não só é o segundo com mais faltosos proporcionalmente (23,32%) como tem a capital com a maior taxa do país (26,12%). A geografia da abstenção da segunda maior cidade brasileira traz oportunidades e desafios para os dois lados da disputa: dos dez bairros onde proporcionalmente mais eleitores deixaram de ir às urnas, oito deram vitória a Lula, mas Flávio liderou em locais com maior número absoluto de faltantes.
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Os dados mostram que a Ilha de Paquetá foi o bairro com maior abstenção na capital fluminense, com 32% dos eleitores aptos faltantes. Na pequena ilha, Lula saiu vencedor. O petista, que saiu das urnas em desvantagem no primeiro turno, foi também o mais votado em áreas populosas com grande abstenção. Foi o caso de Copacabana, maior colégio eleitoral da Zona Sul, onde 31% não foram às urnas.
A Zona Sul concentra outros bairros que aparecem entre aqueles com mais eleitores que faltaram, como Ipanema, Leblon e Urca. Dados do Censo 2022 mostram que estes são também alguns dos bairros com o maior percentual de idosos.
Foco no eleitorado 70+
Antes mesmo do fim do primeiro turno, Lula buscou incentivar que esse público fosse votar, sobretudo os maiores de 70 anos que não possuem obrigatoriedade legal de comparecerem às urnas. O petista também teve vantagem frente a Flávio no primeiro turno em Bonsucesso e em Lins de Vasconcelos, bairros do subúrbio carioca que tiveram cerca de 30% de abstenção.
Outro destaque em contingente de faltosos é Acari, na Zona Norte do Rio, com 31%. A região enfrenta um histórico de enchentes e fica sob a bacia do Rio Acari, o ponto de alagamento mais crítico da Zona Norte. A prefeitura do Rio, com recursos federais do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), iniciou uma grande obra que promete acabar com os alagamentos por R$ 430 milhões. Apesar da intervenção, o bairro que carrega o nome da bacia hidrográfica deu a vitória a Flávio Bolsonaro. O senador venceu ainda em Ricardo de Albuquerque, que fecha o ranking dos dez bairros cariocas com maior abstenção.
O cientista político Josué Medeiros, coordenador do Observatório Político e Eleitoral (Opel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que as mudanças de seções eleitorais feitas pelo Tribunal Regional Eleitoral podem ajudar a explicar o recorde de abstenção que o Rio atingiu nesta eleição. Para Medeiros, a abstenção deve reduzir no segundo turno, já que o eleitor terá que dar apenas um voto, não haverá filas e os idosos ainda têm o incentivo de que a presença contará como prova de vida para o INSS. Na avaliação do pesquisador, porém, as campanhas devem focar no eleitor ausente, mas não apenas nele:
— Provavelmente essa pessoa que não foi votar tem uma preferência eleitoral. Mas há de 5% a 10% de público que votou com menos certeza e as campanhas podem disputar uma mudança de voto.
A eleição para governador no Rio foi resolvida no primeiro turno com a vitória do presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Douglas Ruas (PL). O resultado fez com que as duas campanhas presidenciáveis recalculassem a atuação no estado.
O PT contava com um eventual segundo turno tendo Eduardo Paes (PSD) como palanque para Lula no estado. O presidente perdeu cerca de 150 mil votos nas cidades fluminenses em relação ao primeiro turno de 2022 e viu o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro conquistar mais 135 mil votos na comparação com o pai.
A campanha do petista no Rio passou a seguir a estratégia nacional de intensificar a presença nas ruas — a exemplo da manifestação promovida em Copacabana na segunda-feira — e nas redes, mas de forma adaptada. Outra aposta é atrair o público jovem, através do uso das contas de fã-clubes de artistas, os chamadas fandoms.
Núcleos pela cidade
A vereadora Tainá de Paula (PT) diz que os petistas lançaram mão de um mix de táticas para tentar virar a disputa. Sem o palanque da eleição ao governo estadual para ampliar a campanha e ajudar a financiar o material, a saída encontrada é pulverizar grupos no Rio.
— Queremos estimular o voto de quem não foi votar. É um número muito expressivo de pessoas que não foram às urnas e é mais fácil buscar esse eleitor do que entre os que votaram no Flávio. As redes sociais, com uso de canais de WhatsApp, por exemplo, precisam estar acompanhadas minimamente de uma rua. E por isso há o incentivo para nossa militância se organizar em núcleos espalhados, mesmo que pequenos, mas diariamente — afirma Tainá.
Já Flávio Bolsonaro também não terá o palanque de um candidato, mas porque seu aliado saiu vencedor e fortalecido da disputa estadual. O governador eleito se tornou o coordenador da campanha do presidenciável no Rio. Na semana passada, Ruas e Flávio fizeram um almoço de campanha com aliados fluminenses e o discurso foi de buscar cooptar os votos da terceira via, abstenções e possíveis eleitores de centro que apoiaram Lula no primeiro turno.
— O foco é mostrar aos indecisos e quem não votou em nenhum dos dois que essa é uma eleição como fosse um plebiscito: continuar com esse governo se estiver tudo bom ou mudar para o Flávio — detalha o deputado estadual Jorge Felippe Neto (PL).
No fim de semana, o senador do PL fez uma motocarreata em São Gonçalo. A cidade, além de ser o terceiro maior colégio eleitoral do Rio, é reduto de Ruas e concentrou o 11º maior índice de abstenção no estado, com 153 mil ausentes (23,46%). Outras grandes cidades fluminenses que tiveram prefeitos apoiando Paes no primeiro turno também estão entre os alvos do PL para ampliar a votação de Flávio, como Belford Roxo, a 16ª cidade no ranking de ausentes.

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