Depois de assumir a Casa Branca para um segundo mandato, o presidente Donald Trump tem promovido um aumento drástico nas prisões de imigrantes nos Estados Unidos, buscando atingir um recorde de 1 milhão de detenções até o fim do ano. Segundo uma análise do jornal britânico The Guardian, foram mais de 55 mil detidos nos primeiros seis meses. A alta mostra a tendência nas estratégias anti-imigratórias agressivas do governo Trump, com operações em massa em locais de trabalho e espaços públicos, visando qualquer imigrante em situação irregular no país, mesmo aqueles sem antecedentes criminais.
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Segundo o Guardian, como Agência de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) não divulga dados diários sobre prisões e deportações, foi utilizada a Lei de Liberdade de Informação para obter registros detalhados até o momento.
A investigação revelou que o número de detenções aumentou consideravelmente após metas agressivas impostas pelo governo, sobretudo após o mês de maio, quando houve uma reunião na Casa Branca entre o vice-chefe de Gabinete Stephen Miller e a secretária do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem, que terminou com a exigência de 3 mil prisões por dia, ou um milhão por ano.
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A maior operação registrada até o momento, ocorrida no início de junho, prendeu quase 2 mil pessoas em um único dia, incluindo muitos sem qualquer acusação criminal. O número, apesar de ainda estar abaixo da exigência de Miller e Noem, foi 42% acima da média de prisões diárias em maio e 268% acima de junho do ano passado.
Embora o governo tenha afirmado repetidamente que a meta é prender e deportar “criminosos perigosos” do país, o levantamento do Guardian mostrou que a maioria das pessoas que o ICE está prendendo nunca foi sequer condenada por um crime.
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Grupos de defesa pelos direitos dos imigrantes denunciam ações discriminatórias, especialmente após grandes operações em Los Angeles naquele mesmo mês. Segundo a reportagem, os agentes do ICE detiveram trabalhadores imigrantes em lava-rápidos, fábricas de roupas e do lado de fora de lojas de departamento. Outros, muitos deles mascarados, prenderam vendedores ambulantes, funcionários de restaurantes e outros trabalhadores, utilizando veículos blindados e equipamentos militares.
Além disso, a apuração do Guardian também revelou que as prisões por infrações de trânsito mais que dobraram em 38 estados, sendo Texas, Flórida e Califórnia os mais afetados — e todos com grandes populações de imigrantes.
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O aumento das prisões tem levado a uma superlotação nos centros de detenção federais, que, até junho, já abrigavam em torno de 55 mil pessoas no total — 13.500 acima da capacidade prevista pelo Congresso.
Documentos judiciais revelam que imigrantes presos relataram ter sido mantidos em prisões com condições precárias, sem acesso a água, comida e medicamentos. Além disso, familiares e advogados frequentemente relatam dificuldades para localizar seus parentes e manter contato com eles enquanto estão sob custódia do governo.
O centro de detenção de Adelanto, no deserto da Califórnia, por exemplo, foi descrito como “imundo e desumano” pela deputada democratda do estado, Judy Chu. Condições precárias também foram relatadas no novo centro de detenção na Flórida, na chamada “Alcatraz dos jacarés”.
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A detenção de crianças também preocupa especialistas em direitos humanos, especialmente nos centros familiares no Texas. Crianças sofreram perda de peso significativa e problemas de saúde, com alimentação inadequada e condições insalubres, cita a reportagem. Grupos de ajuda já denunciaram casos graves, como o de um bebê de nove meses que perdeu mais de 3,6 kg em um desses centros recém-inaugurados no Texas.
Com o novo orçamento aprovado pelo Congresso, que destina US$ 45 bilhões para expandir ainda mais a capacidade do ICE, o governo poderá dobrar o número de leitos disponíveis nesses centros de detenção, permitindo a prisão de ainda mais pessoas por períodos mais longos. As políticas da agência também mudaram: pessoas que contestam deportações na Justiça não terão mais direito a audiências de fiança, o que pode resultar em longos períodos de detenção.
Desde que assumiu o poder, Trump deportou mais de 127 mil pessoas. Uma das estratégias mais controversas foi prender imigrantes diretamente em tribunais de imigração, utilizando manobras legais que dispensam audiências e permitem deportações imediatas. Em uma ação coletiva, uma coalizão de grupos de defesa argumentou que o esquema viola as leis federais e a Constituição dos EUA.
O México foi o país que mais recebeu deportados nos últimos seis meses, com mais de 63 mil casos. Países da América Central e do Sul, como Honduras, El Salvador e Venezuela, também entram na lista, com cerca de 22 mil pessoas enviadas a cada um. Além disso, o governo encerrou programas de proteção humanitária para cidadãos desses países, agravando ainda mais a crise migratória.