Se, no início do ano, economistas previam uma desaceleração do mercado de trabalho ao longo de 2025, o desemprego baixo continua surpreendendo. Após três meses estável no menor patamar já registrado, a taxa de desocupação voltou a cair no Brasil, para 5,4% no trimestre encerrado em outubro, informou ontem o IBGE. A geração de vagas perdeu fôlego, condizente com a desaceleração da economia, mas a freada está mais suave — uma série de indicadores recordes mostram emprego e renda aquecidos.
A geração de vagas perdeu fôlego porque o total de ocupados ficou estável em 102,5 milhões de um trimestre para o outro, ainda que a leve alta tenha levado esse contingente a novo recorde. Em relação a um ano atrás, 926 mil pessoas conseguiram um emprego, considerando formais e informais. Ficou mais fácil conseguir uma vaga.
Jamile Vitória, de 23 anos, conseguiu um emprego de balconista numa lanchonete no Centro do Rio. Ela estava desempregada desde abril, procurando oportunidades até que, no mês passado, foi com a mãe procurar emprego. Após entregarem alguns currículos, as duas voltaram para casa. Dias depois, Jamile recebeu a ligação da lanchonete.
— Gosto de trabalhar aqui porque é um dinheiro fixo — contou ela, enquanto atendia clientes ontem. — Vim entregar os currículos numa quarta-feira, e a notícia boa veio logo na sexta-feira. Na segunda-feira, já começava a trabalhar.
Três meses atrás, foi a vez de Kauã Gomes, de 18 anos. Ele conseguiu seu primeiro emprego formal, como estoquista numa loja recém-inaugurada na Saara, polo de comércio popular do Rio. Antes, o jovem trabalhava como entregador de aplicativo, encarando jornadas exaustivas.
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— Tenho contato com o público e o ritmo é bem mais leve. Já cheguei a pedalar mais de dez horas por dia nas entregas — contou Gomes.
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Naene Almeida, de 21 anos, também conseguiu um emprego há um mês. Ela ficou desempregada por um ano e meio, desde que foi demitida de um restaurante. O trabalho novo, como vendedora numa loja de roupas na Saara, ela conseguiu após ser indicada por um amigo.
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— Antes da indicação, eu estava sem emprego e não conseguia arrumar, mas, felizmente, agora estou trabalhando. Acho que tenho uma boa relação com o público, então acabo me saindo bem aqui — contou Naene.
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Já Fernanda Carla, de 42 anos, aproveitou a oportunidade criada pelo novo emprego do marido para começar a vender marmitas. Ele conseguiu vaga em um restaurante em outubro e, no mês seguinte, fechou uma parceria para vender as marmitas do estabelecimento.
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Sua rotina começàs 8h30, quando vai à cozinha buscar as marmitas que passa a vender a partir das 10h30. A diária de R$ 60, porém, ainda desanima. Para ela, não está fácil conquistar uma vaga no mercado formal.
— Eu só consegui trabalho por causa do meu esposo. As pessoas falam que está fácil arrumar emprego, mas depende do emprego. Eu ganho só R$ 60. Estava desempregada porque fazia faxinas e perdi todas na pandemia. Entrar no mercado formal nunca foi fácil e não está agora — frisa Fernanda.
Segundo Rafael Perez, economista da consultoria de análise Suno Research, um dos motivos pelos quais o mercado de trabalho continua aquecido é o bom desempenho do setor de serviços:
— A gente não imaginava que chegaria nesse patamar de 5,4%, ainda mais que a economia continua ainda desacelerando. Mas o setor de serviços vem tendo um desempenho muito bom e é um segmento que contrata muito, o que favorece essa queda do desemprego. E está muito ligado a essa conjuntura, com renda crescendo, as famílias consumindo mais serviços. O varejo também, apesar de estar desacelerando, tem uma certa resiliência.
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Apesar da desaceleração na criação de vagas, não faltaram pontos positivos nos dados do IBGE. O número de desempregados também caiu para o menor contingente desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. São 5,910 milhões de trabalhadores nessa condição. Em um ano, 788 mil pessoas saíram da fila do desemprego, queda de 11,8%.
Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, a queda foi de 3,4% — o contingente de desempregados cai sem que o número de ocupados suba porque houve aumento no total de pessoas fora do mercado de trabalho, que não estão nem empregadas nem procurando trabalho.
A renda média do trabalho também bateu recorde, chegando a R$ 3.528 ante os R$ 3.507 registrados no trimestre encerrado em setembro. Na comparação com um ano antes, a alta foi de 3,9%, já descontada a inflação. Houve recorde também no número de ocupados com carteira assinada, 39,182 milhões.
Segundo especialistas, o mercado de trabalho segue aquecido por uma junção de fatores. Economistas citam o envelhecimento da população, a maior escolaridade, a “plataformização” (ou seja, o trabalho autônomo via aplicativos, sem vínculo empregatício), a digitalização da economia (que impulsiona diversos tipos de serviços) e a Reforma Trabalhista, que favoreceu alguns tipos de contratações, como os contratos temporários, entre outros fatores.
— Isso ajuda a explicar porque uma taxa de desemprego tão baixa não está gerando um surto inflacionário. O desemprego baixo põe pressão na inflação, mas não é, por exemplo, como em 2013 ou 2014. Vai ser muito difícil a gente voltar para um nível de taxa de desemprego de dois dígitos — disse Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
A relação entre desemprego baixo e inflação se dá por meio da demanda. Quando o mercado de trabalho está aquecido, com muita gente empregada, os salários sobem e os trabalhadores têm mais dinheiro para gastar. Se a oferta da economia não acompanha o ritmo da demanda, a inflação tende a subir.
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Para controlar os preços, o Banco Central (BC) sobe os juros, esfriando a demanda — num processo em cadeia que começa com o encarecimento das compras a prazo e dos investimentos financiados das empresas. Por isso, mercado de trabalho aquecido é sinal de inflação e, como reação, de elevação de juros.
Mesmo após os dados de outubro do IBGE, economistas não viram tanto impacto para as próximas decisões do BC sobre juros. Luis Otávio Leal, economista-chefe da gestora e assessoria financeira G5 Partners, continuou apostando que o BC começará a cortar a Selic (a taxa básica de juros, hoje em 15% ao ano) em janeiro. Já Perez, da Suno Research, só vê cortes a partir de março.
E, mesmo assim, a taxa de desemprego deverá seguir em níveis abaixo do que se esperava antes. É possível considerar que o país está abaixo do pleno emprego — situação em que a oferta de vagas é menor do que a quantidade de pessoas dispostas a trabalhar —, embora economistas acreditem que esse ponto de equilíbrio está mudando.
— Hoje em dia ninguém tem muita certeza de qual seria a taxa natural de desemprego. Antigamente o pessoal falava de taxa entre 7% e 8%. Acho que agora está mais próxima de 7% — disse Leal.
Manoel Melo, de 40 anos, experimenta na prática essa nova realidade. O trabalhador ficou desempregado por três meses, até conseguir um emprego como porteiro em um prédio no Leme, na Zona Sul da capital.
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Ele admite que teve dificuldade para encontrar vaga, mas, diferentemente de Fernanda Carla, enxerga um cenário mais positivo na busca por emprego.
— Eu estava fazendo bicos como pedreiro quando surgiu a oportunidade aqui, mas acredito que agora as pessoas têm mais facilidade para se recolocar. Em 2020, eu fiquei quatro anos sem trabalhar, sempre procurando. Desta vez, foram só três meses — contou o porteiro.
Para Fernanda Cristiane Galvão, de 28 anos, a saída foi recorrer ao mercado informal. Desempregada desde outubro, ela começou a preparar salgados e doces artesanais para vender na praia, mas logo percebeu que a melhor alternativa seria atuar no Centro, pela manhã e no horário do almoço, quando há grande circulação de trabalhadores.
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— Cheguei a tentar vender na praia, mas surgiu a ideia de vir para o Centro. Além de ser menos cansativo, meu pai e minha madrasta têm lojas aqui e deram a ideia. De manhã vendo salgados e café com leite e, no horário do almoço, vendo doces. Ainda não tem sido suficiente porque o lucro é pequeno, mas, com o tempo, as pessoas vão conhecendo e devem comprar mais — prevê Fernanda.
* Estagiário sob supervisão de Luciana Rodrigues

