O telescópio do Observatório Vera Rubin, no Chile, com a maior câmera fotográfica do mundo, está a pleno funcionamento e marcou para o final deste mês, no dia 23, a divulgação de suas primeiras imagens. Dedicado ao projeto internacional Legacy Survey of Space and Time (LSST), com participação de cientistas brasileiros, seu objetivo é fazer o mais completo mapa do universo. A empreitada, que custou cerca de US$ 680 milhões (R$ 3,8 bilhões) e foi praticamente toda bancada pelos EUA, é o maior projeto da astronomia desde o lançamento do Telescópio Espacial James Webb, em 2020.
O novo telescópio, instalado a 2.682 metros de altitude em Cerro Pachón, nos Andes, visa fazer uma varredura de todo o céu do Hemisfério Sul a cada três dias e registrá-lo com maior ampliação e profundidade possíveis. A câmera que vai fazê-lo tem quase três toneladas e uma placa de captação com 3,2 gigapixels, a maior do mundo, acoplada a um telescópio com um espelho de 8,4 metros.
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Herdeiro de projetos similares mais modestos, como o Dark Energy Survey, o LSST encanta cientistas em diversas áreas da astronomia, da ciência planetária (que estuda objetos na escala do Sistema Solar) até a cosmologia (que investiga o universo como um todo).
— Ele significa basicamente você ter um céu digital à disposição — diz Luiz Nicolaci, astrônomo à frente da colaboração brasileira que participa do projeto.
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Por intermédio do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (Linea), que reúne vários centros de pesquisa do país, os cientistas nacionais deverão ajudar a fazer o tratamento de dados que o telescópio vai gerar.
O laboratório brasileiro recebeu um aporte de R$ 7 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para fortalecer seu centro de processamento, que será um dos muitos no mundo para armazenar e tratar as imagens geradas — há mais de 40 países no projeto.
A quantidade de dados que o LSST vai colher é também sem precedentes na astronomia. Serão 20 terabytes de dados (20 trilhões de bytes) por noite. Após os dez anos de operação previstos, deverão se acumular 60 petabytes (60 quintilhões de bytes) de dados brutos, representando 37 bilhões de objetos (galáxias, estrelas etc.)
— O LSST vai trazer, em primeiro lugar, imagens muito profundas, porque será possível sobrepor várias exposições feitas de um mesmo lugar no céu ao longo dos anos — explica Nicolaci. — Além disso, terá uma visão dinâmica, temporal, do que está acontecendo no universo, porque vai revisitar cada lugar a cada três dias. Será maravilhoso para se fazer um levantamento do Sistema Solar, detectar explosões distantes e até fenômenos que talvez a gente não conheça.
Os cosmólogos, particularmente, estão interessados nos dados do LSST pois precisam de informações mais precisas para resolver um problema teórico antigo: entender por que o universo se expande de modo acelerado.
O problema, que data ainda da década de 1990, está na raiz da compreensão sobre por que nós vivemos hoje em um espaço que acomoda tudo aquilo que conhecemos nas estruturas como sistemas estelares, galáxias e aglomerados de galáxias.
A teoria padrão da cosmologia hoje explica o universo com dois elementos principais: um é a constante cosmológica, o parâmetro usado por Albert Einstein para dar estabilidade às equações que descrevem o cosmo pela gravidade — ele basicamente diz por que a gravidade não faz colapsar o cosmo. O outro é a matéria escura, uma entidade mal compreendida, cuja existência explica as medidas sobre a quantidade de massa existente no universo.
Essa combinação teórica é a mais aceita atualmente entre cientistas da área para explicar o cosmo, mas à medida que ela busca fazer previsões mais precisas, mais discrepâncias exibe. Essas “tensões” discrepantes dependem do elemento que se usa para tirar medidas de coisas como, por exemplo, a taxa de expansão do cosmo.
Rogério Rosenfeld, cientista do Instituto de Física Teórica da Unesp e um dos brasileiros na colaboração do LSST, vê a possibilidade de uma era de ouro na cosmologia com o projeto.
— Quando Einstein criou a constante cosmológica meio que arbitrariamente, ele a concebeu como propriedade da geometria do próprio espaço-tempo — afirma. — Já a concepção mais moderna fala em uma energia contida no espaço em si, a energia escura.
Dados mais precisos, ele afirma, permitirão construir teorias que possam identificar melhor o que essa entidade realmente é.
Em outras escalas, a promessa de novidades também é grande. Telescópios de varredura são bons em descobrir, por exemplo, novos cometas, porque têm capacidade de monitorar objetos pequenos em movimento no Sistema Solar.
O maior cometa já descoberto até hoje foi encontrado a grande distância pelos astrônomos Gary Bernstein e Pedro Bernardinelli usando imagens do projeto DES. O avanço potencial com dados do LSST pode render mais descobertas dessa monta.
O lançamento das primeiras imagens do LSST virá, porém, num misto de entusiasmo e preocupação.
Senadores republicanos querem cortar metade da verba federal da Fundação Nacional de Ciência dos EUA, que banca o projeto. O funcionamento do LSST está garantido para os primeiros anos, mas há alguma incerteza para a segunda metade do tempo operacional.
Na modesta frente brasileira de colaboração, também há preocupação. A verba que se obteve até aqui foi quase toda usada para montar maquinário, e o Linea ainda busca R$ 3 milhões para bancar o custo operacional do projeto e sua equipe.
Rosenfeld negocia agora um aporte secundário para o país, o que permitiria a mais astrônomos brasileiros participarem da iniciativa mais concretamente, e não como espectadores. Não está claro, porém, quando e se alguma agência de fomento terá fôlego para o socorro.

