Em uma rara cena no esvaziado aeroporto de Pyongyang, na segunda-feira, um Boeing 777 da companhia russa Nordwind foi recebido com pompa, jatos d’água e discursos de autoridades locais: aquele era o primeiro voo ligando as capitais da Coreia do Norte e da Rússia, Moscou, em mais de duas décadas, e que servia como mais um símbolo da proximidade de dois países unidos por sanções e, hoje, pela guerra.
- Discurso bélico: Líder norte-coreano convoca soldados a se prepararem ‘para uma guerra real’
- Terreno minado: Operação militar de 20 horas intercepta civil norte-coreano que cruzou fronteira com a Coreia do Sul
A autorização para as viagens, previstas para acontecerem uma vez por mês, foi concedida pelos dois países há algumas semanas, e o primeiro voo deixou Moscou na noite de domingo — ao contrário das demais aeronaves da empresa, o avião que levou os cerca de 400 passageiros à Coreia do Norte (em sua maioria norte-coreanos) não trazia qualquer tipo de identificação visual.
No site da empresa, cada trecho era vendido por cerca de 45 mil rublos, ou R$ 3.100. Segundo o serviço de monitoramento de voos Flightradar24, a jornada levou cerca de oito horas. Nesta terça-feira, a aeronave retornou a Moscou.
— Os voos diretos, sem dúvida, terão alta demanda não apenas entre os turistas russos, mas também entre os norte-coreanos — afirmou à agência Tass o diplomata russo Matvey Krivoshiv, baseado em Pyongyang e que estava no voo que pousou em Moscou nesta terça-feira. — São quase 30 anos sem um voo direto conectando Moscou e Pyongyang.
Anteriormente, a rota foi operada pela companhia russa Aeroflot (até 1994) e norte-coreana Air Koryo (até 2001). Além dela, a Air Koryo opera três voos semanais entre Pyongyang e Vladivostok, na costa do Pacífico.
Atingidas por sanções e em busca de caminhos para quebrar seus isolamentos, Rússia e Coreia do Norte encontraram no aquecimento dos laços as respostas para alguns de seus muitos problemas.
Para os russos, o amplo arsenal norte-coreano e a disponibilidade de soldados que jamais foram treinados em ambientes de combate deram um impulso crucial na guerra de Vladimir Putin na Ucrânia. Para Pyongyang, o dinheiro russo ajuda a reverter as agruras econômicas, criadas em boa parte por erros internos, e os suprimentos de insumos como petróleo e alimentos ajudam a manter o regime em pé — relatos de agências de inteligência apontam que engenheiros russos podem estar prestando ajuda no programa de desenvolvimento de mísseis balísticos local.
- Laços próximos: Chanceler russo é recebido por Kim Jong-un na Coreia do Norte, agradece apoio militar e alerta aliança liderada pelos EUA contra o país
No ano passado, ambos assinaram um abrangente acordo de defesa, que previa apoio militar em caso de ataque a um dos dois países e que facilitava a troca mútua de estudantes e profissionais — segundo o site 38North, especializado em Coreia do Norte, muitos dos norte-coreanos enviados à Rússia nos últimos meses sob pretextos acadêmicos serão empregados na construção civil, em condições “similares à escravidão”.
Mas como apontou Andrei Lankov, professor da Universidade Kookmin, em Seul, em artigo na revista Foreign Affairs, essa parceria pode ter data de validade.
“De forma mais imediata, é improvável que o atual nível de comércio da Coreia do Norte com a Rússia perdure após o fim das hostilidades na Ucrânia”, escreveu Andrei Lankov, um dos mais respeitados analistas das relações russo-coreanas. “De fato, os fluxos financeiros de Moscou para Pyongyang podem diminuir quase da noite para o dia. Além de munições, não há muitas oportunidades comerciais entre os dois países; as duas economias são fundamentalmente incompatíveis.”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/z/n/6bLQYBQdeBmcIYaiN80w/111778709-files-domestic-tourists-watch-as-a-man-uses-a-slide-into-a-swimming-pool-at-the-myongsasim.jpg)
Recentemente, a Coreia do Norte deu sinais de que pretende reabrir o país (à sua forma) para os turistas, mirando especificamente o mercado russo. Visitantes vindos da Rússia são vistos há alguns meses em cidades como Pyongyang e no balneário de Wonsan-Kalma, onde foi construído um suntuoso resort com cassinos, piscinas, teatros e cinemas. Planos do governo, obtidos pela rede britânica BBC, mostram que o objetivo é levar um milhão de turistas estrangeiros ao local anualmente — especialmente chineses e russos.
- Em março: Satélite flagra a construção da primeira ponte rodoviária entre a Coreia do Norte e a Rússia
Mas não será fácil transformar a Coreia do Norte em um destino favorito para os russos em busca de praias e sol. O valor da passagem entre as duas capitais é equivalente a metade do salário médio na Rússia em 2024. Um pacote para o resort de Wonsan Kalma, com acomodação e refeições, custa quase duas vezes mais do que o salário mensal. Há cerca de dez dias, a entrada de estrangeiros no resort, inclusive russos, foi temporariamente suspensa, sem explicações.
— Turistas russos podem facilmente visitar lugares como Turquia, Egito, Tailândia e Vietnã, que são muito superiores a tudo o que a Coreia do Norte pode desenvolver — disse Lankov à BBC. — Os padrões de serviço são mais elevados e você não precisa ficar sob supervisão constante. É altamente improvável que Wonsan Kalma se torne realmente popular entre os visitantes russos.