Com previsão de inauguração para o primeiro semestre de 2026, a nova unidade do Sesc no centro histórico de São Paulo pretende ser mais um marco na melhoria da relação da cidade com a região. O prédio retomará a utilização pública de um espaço junto ao Parque Dom Pedro II, em frente ao Mercado Municipal de São Paulo e ao Museu Catavento. Batizada com o nome do próprio parque, a nova unidade, em obras desde 2020, terá um prédio de oito andares, com uma área construída de 30 mil m², entre espaços de convivência, teatro, oficinas, restaurante, piscinas e biblioteca.
O projeto, elaborado pelos arquitetos Fernanda Barbara e Fabio Valentim — sócios à frente do escritório UNA Barbara e Valentim —, será contemplado em novembro pelo Holcim Foundation Awards. O prestigiado prêmio de arquitetura da Fundação Holcim para a Construção Sustentável (sediada em Zurique, na Suíça) é direcionado para projetos e obras em andamento no mundo inteiro, reconhecendo aqueles que conciliam qualidade arquitetônica, inovação, sustentabilidade e impacto social.
O plano do Sesc Dom Pedro II foi escolhido como um dos quatro melhores da América Latina e, como os demais, receberá US$ 40 mil como prêmio (por volta de R$ 220 mil). A entrega ocorrerá em 20 de novembro, durante a tradicional Bienal de Arquitetura de Veneza, na Itália. O júri do ciclo deste ano do prêmio suíço incluiu arquitetos e críticos como Sou Fujimoto (Japão), Jeanne Gang (Estados Unidos) e Lina Ghotmeh (Líbano). Já a seção América Latina é presidida pela peruana Sandra Barclay e tem Gustavo Utrabo como representante brasileiro.
— É uma alegria enorme receber esse prêmio pelo Sesc. Uma premiação é um momento de agradecimento, mas também temos esperança de que esse reconhecimento ajude em algumas pautas e que uma unidade premiada do Sesc na região central de São Paulo reforce discussões que precisamos ter. Queremos que o projeto sensibilize as pessoas para a importância da arquitetura e do urbanismo, mas também para a importância do espaço público e de sua transformação na experiência da cidade — afirma Fernanda.
Apesar de ainda estar em obras, a lista de prêmios do projeto do Sesc Dom Pedro II também inclui destaques na Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, na Argentina, em 2024; na Bienal de Arquitetura de Santa Cruz, na Bolívia, em 2022; no departamento de São Paulo do Instituto de Arquitetos do Brasil (IABsp), em 2021; além do Prêmio Saint-Gobain AsBEA de Arquitetura, também de 2021.
Para Luiz Galina, diretor regional do Sesc em São Paulo, o destaque do projeto em tais eventos está relacionado ao rigor estabelecido pela instituição em suas unidades, desde o plano arquitetônico ao material utilizado.
— Estes reconhecimentos mostram que o novo prédio tem uma arquitetura rigorosa. Para nós, é importante que o projeto seja premiado, porque o Sesc funciona, de certo modo, como um centro de referência, sempre com muita qualidade — diz o diretor.
Em relação a sustentabilidade — ponto fundamental para a premiação da Fundação Holcim —, a concepção do prédio de oito andares se destaca por pontos como o uso de painéis solares e de aquecimento de água, um sistema de irrigação por capilaridade que aproveitará águas pluviais, um espelho d’água junto a área de convivência, terraços com vegetação e uma praça interna arborizada, com cerca de 140 árvores.
— Tentamos atender a questões que nos parecem relevantes em relação à sustentabilidade, com painéis que funcionam como uma gestão econômica de recursos. Mas a estrutura do edifício, por exemplo, também terá baixa manutenção, já que tem fachadas muito protegidas, sem o uso de caixilhos (estruturas que sustentam esquadrias de janelas, portas e vitrais), já que a circulação é feita pelos terraços — explica Fabio.
Como as demais unidades, o novo Sesc Dom Pedro II terá também teatro, oficinas, restaurante, cafeteria, piscinas, biblioteca, pista, quadra esportiva e espaço infantil.
Na concepção da dupla de arquitetos, os terraços mencionados serão o grande diferencial da nova unidade. Os andares, dispostos como blocos, permitem que o escalonamento horizontal crie terraços cobertos e com vegetação. Ainda, funcionarão como mirantes, com vista para a Serra Cantareira e para o restante da capital paulista.
— Queríamos que o prédio fosse um elogio à cidade, que pertencesse à ela. A ideia é que haja uma gentileza e um respeito com o entorno e que o projeto possa ser o mais delicado possível, deixando a cidade como protagonista. Então, os volumes escalonados (nos andares) nos permitem criar esses terraços, já que há menos volumetria, criando vistas em alturas distintas — explica Fernanda.
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Localizado em um terreno de 9.200 m², em frente ao Mercado Municipal de São Paulo e ao Museu Catavento, o prédio pretende ajudar na revitalização do centro histórico da cidade. Parte do Plano Urbanístico do Parque Dom Pedro II, desenvolvido em 2011 para a gestão municipal da época, com o objetivo de requalificar a região, passou para as mãos do escritório de arquitetos em 2017. A ideia de transformar o espaço em uma unidade do Sesc, como conta Luiz Galina, veio apenas depois.
— Chegamos a montar uma “unidade transitória”, com tendas, contêineres, quadra e palco, onde desenvolvemos atividades. Foi um sucesso, o que mostrou o potencial da área. O Sesc começou no centro da cidade, com o Sesc Carmo, então sempre tivemos uma atenção para a região, é onde está a população de todos os bairros. Mas nova unidade tem uma vocação especial, já que está situada em um local com pouca oferta de serviços culturais e sociais. Quando uma nova unidade é instalada, acaba por funcionar como uma âncora de desenvolvimento urbano, gerando estímulos em seu entorno — explica, na torcida de que o mesmo ocorra com o Sesc Dom Pedro II.
Alvo de políticas rodoviárias que levaram à construção de cinco viadutos entre 1968 e 1974, a região passou, assim, por impactos urbanos negativos, sendo consequentemente desvalorizada. A ideia da obra é “humanizar” o espaço, tendo o prédio como uma espécie de “praça pública”.
O prédio terá três grandes portas e funcionará até mesmo como uma passagem, ligando diferentes vias de seu entorno, como a Avenida do Estado e a Rua da Cantareira. A previsão é que a unidade tenha capacidade de receber 5 mil pessoas por dia.
— A presença de um edifício público é importante para que esses fluxos sejam garantidos com segurança. O Sesc abre durante o dia, à noite, durante a semana ou aos sábados e domingos. Há diversos públicos a cada horário — diz Fabio.
— Se esse lugar é difícil e é importante pra cidade, é lá mesmo que a gente gostaria de estar — completa Fernanda.

