Em 2011, ainda se falava em “musa da Flip”. Antes mesmo do início da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty, já havia sido acertado que a “musa” daquela edição seria a argentina Pola Oloixarac. Mas quem acabou seduzindo o público foi um português de fala mansa. Na mesa com a argentina, Valter Hugo Mãe leu um texto emocionado sobre sua relação com o país, que começou quando ele ainda era menino e uma família brasileira chegou na vizinhança — a dona da casa e suas filhas pareciam vindas do futuro, pois sabiam o fim da novela. “Sonhei sempre vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro”, disse o autor de “O filho de mil homens” (Biblioteca Azul) na época.
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“Escritor português leva público às lágrimas”, noticiou o GLOBO no dia seguinte. Valter Hugo Mãe foi autor mais vendido daquela edição e até hoje é queridinho dos brasileiros. Este ano, ostentando uma barba de respeito, está de volta à festa nesta sua 23ª edição, que vai desta quarta-feira (30) a domingo.
— A Flip de 2011 foi tão linda para mim que nunca mais tive coragem de voltar. Mas sempre quis a coragem, e volto agora mais grato do que nunca — derrete-se o autor. — Eventos assim podem criar oportunidades perfeitas, trazer ideias, inspiração, grandes lições e até pequenos e grandes amores.
Os leitores que o digam. A trajetória de Valter Hugo Mãe atesta o poder da Flip de transformar escritores pouco conhecidos em celebridades paparicadas pelas ruas de Paraty. Sobram exemplos. No ano passado, o francês Édouard Louis arrastava uma multidão de fãs ardorosos por onde ia. Em 2017, o público que apareceu para ver a ruandesa Scholastique Mukasonga na Casa Paratodos, da programação paralela, era tão numeroso que a palestra precisou ser transferida para o meio da rua — e até hoje ela é a maior best-seller da editora Nós.
A lisboeta Matilde Campilho (que avisou que não queria ser chamada de “musa”) encantou o público com seu sotaque acariocado, que voltava a ser intensamente lusitano quando ela recitava seus versos. “Foi Matilde sendo poesia em suas respostas”, escreveu o colunista do GLOBO Fred Coelho, na tentativa de explicar o sucesso da portuguesa. Na segunda edição da Flip, em 2004, não faltavam estrelas: Margaret Atwood, Ian McEwan, Isabel Allende e Paul Auster… Mas quem roubou a cena foram dois escritores ainda pouco conhecidos: a espanhola Rosa Montero (também de volta à Flip este ano) e o angolano José Eduardo Agualusa.
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“Confirmo o sucesso de outra grande estrela do evento, o angolano José Eduardo Agualusa, que conseguiu brilhar ao lado de Caetano Veloso”, escreveu no GLOBO Luis Fernando Verissimo, que também brilhou naquela Flip. Aliás, Agualusa foi a sensação de duas Flips: em 2007, ele voltou a Paraty e saiu de lá como o autor mais vendido.
— Se não fossem Caetano Veloso e a Flip, eu certamente não seria tão conhecido no Brasil — afirma o colunista do GLOBO. — Vou a muitos festivais, mas nenhum se compara à Flip. É realmente uma festa! A Flip tem o que nenhum festival internacional consegue reproduzir: o público brasileiro. As pessoas te abraçam na rua, você vira um popstar durante aqueles dias.
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Este ano, os retornados Valter Hugo Mãe e Rosa Montero devem repetir a façanha de Agualusa e conquistar o bicampeonato como estrelas do evento. Mas haverá concorrência. Entre os 36 autores desta edição, não faltam candidatos a fenômeno da Flip, caso do italiano Sandro Veronesi, cujo romance “O colibri” (Autêntica) já vendeu mais de 20 mil cópias por aqui, à mexicana Cristina Rivera Garza, que venceu o Prêmio Pulitzer com um livro sobre o feminicídio da irmã; da sueca Liv Strömquist, autora de HQs feministas, ao escritor e cineasta marfinense GauZ’; da amazonense Veranilde Pereira, pioneira da literatura afro-indígena, ao curitibano Caetano Galindo, que fez a linguística ficar pop.
Para se dar bem na Flip não basta escrever bem ou colecionar prêmios, é preciso ser “bom de palco”, na expressão do ex-curador Flávio Moura.
— Autores que têm a capacidade de performar ao vivo crescem muito durante a Flip. O carisma seduz a plateia, é como um rastilho de pólvora que se espalha. A performance do autor fala tão alto quando o próprio livro — afirma Moura, que hoje é diretor-geral da Todavia. — Valter Hugo Mãe conquistou o público porque se emocionou no palco. Autores como Édouard Louis e Rosa Montero são eloquentes e falam muito bem.
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Curadora da Flip pelo segundo ano, Ana Lima Cecilio admite que o carisma de um autor pesa na hora de convidá-lo para a festa, assim como a qualidade da obra e a relevância dos temas tratados.
— Não adianta chamar um Nobel que seja supertímido e mal-humorado — diz ela, reforçando que há sempre um elemento surpresa em todos os fenômenos do evento. — O objetivo da Flip é abrir espaço para o imprevisível acontecer, para um autor desconhecido arrasar numa mesa.
Quando foi à Flip, em 2023, a cearense Socorro Acioli já era uma autora reconhecida e dona de um Prêmio Jabuti, mas cresceu ainda mais durante o evento em Paraty. Participou de uma mesa ao meio-dia de uma quinta-feira e, por causa do calor (naquele ano a festa foi em novembro), brincou que a Flip proporcionava ao público “uma experiência imersiva do Ceará”. Foi a mais vendida daquela edição.
— Passei quatro horas autografando. Depois de duas horas e meia, uma moça me trouxe um pedaço de bolo e um suco porque viu que eu não ia almoçar — diz ela. — Que “Oração para desaparecer”, que eu estava lançando lá, tenha vendido bem, é compreensível. Mas “Cabeça de santo”, que já tinha uma década, também começou a vender muito! A Flip faz isso porque fura a bolha, passa no Jornal Nacional.
O impacto da Flip na carreira de um autor pode se estender por anos. O franco-ruandês Gaël Faye participou da festa de 2019 e retorna este ano. A editora Graziella Betting, da Carambaia, conta que, em 2023, quando lançou uma nova tradução de “Pequeno país”, percebeu que Faye tinha um público cativo no Brasil, tanto que as livrarias pediram o livro com antecedência. Graziella dá outro exemplo: no ano passado, “Sempre repórter”, da jornalista americana Lillian Ross (1918-2017), esgotou em um mês — ela viera à Flip em 2012.
Escritores tímidos, é verdade, penam mais para se destacar em Paraty. Há grandes escritores “cujo perfil não suporta o palco”, diz Valter Hugo Mãe. Ele próprio morria de medo no começo.
— Tudo se aprende. Hoje, quase morro de medo durante uns minutos, depois quero que me deixem ficar mais tempo do que o necessário. Acabo tendo mil experiências de pura alegria e gratidão por me perguntarem e por escutarem minha resposta.
Rosa Montero, que se admirou com a repercussão de sua obra durante o evento, em 2004, diz que nos festivais literários cabe todo tipo de autor, inclusive os que tremem no palco.
— Escritores mais simpáticos se saem melhor nesses festivais, os tímidos também encontram seu lugar, porque muitos leitores se identificam com eles. O que importa é ser autêntico, isso basta — assegura a autora de “A louca da casa”. — Eventos como a Flip fundem a literatura com a vida, mostram que ler é uma festa, faz o corpo dançar de emoção, e não é só uma coisa da cabeça, entende?