Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, e o homem mais rico do mundo, Elon Musk, trocavam farpas nas redes sociais e ameaçavam um ao outro com cortes de investimentos e revelações de um passado questionável, o meio político em Washington acompanhava tudo com apreensão. No Congresso, a preocupação era com o salvamento de um projeto crucial para a agenda de Trump, um plano de gastos federais crucial e que mesmo antes do embate corria sérios riscos.
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O plano, chamado por Trump de “grande e lindo”, prevê uma série de incentivos fiscais, o corte de outros benefícios — inclusive ao setor de veículos elétricos, o que afeta Musk diretamente — e programas sociais, além do aumento de gastos com o combate à imigração irregular e com segurança interna. A proposta foi aprovada na Câmara no mês passado, por apenas um voto, e agora enfrenta grande resistência no Senado.
Musk, quando ainda estava no governo, não economizou nas críticas à proposta, chamada por ele de “nojenta” — o então chefe de um departamento criado por Trump para cortar gastos na administração federal apontava que o plano eleva o patamar de despesas, algo corroborado por uma agência orçamentária legislativa: segundo estimativas, a proposta deve elevar o déficit público em até US$ 2,4 trilhões na última década.
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No embate de quinta-feira, Musk voltou a atacar o plano, que agora está no Senado, onde a margem de ação do governo Trump é mínima.
— Isso é imoral, o que nós, velhos, estamos fazendo com nossos jovens — disse o senador republicano Ron Johnson, em entrevista na CNBC, no mês passado, acrescentando que votará contra o projeto, e que outros colegas de bancada fariam o mesmo.
Neste contexto, a briga foi catastrófica, dando força aos congressistas contrários à elevação de gastos e aumentando o risco de uma derrota vexatória. Por isso, a Casa Branca tentou colocar panos quentes, e os republicanos chamaram sua brigada de bombeiros para apagar, ou tentar apagar, as chamas.
— Acredito que há uma Coca-Cola Diet no futuro deles, que eles podem resolver a situação e que a calma prevalecerá — afirmou ao portal Politico o deputado Aaron Bean, que se disse “chocado e triste” com a briga, mas que segue “otimista” com um final feliz. — Precisamos deles juntos. Precisamos estar unidos e somos mais fortes juntos. Portanto, estou muito otimista de que haverá um final feliz muito em breve.
Michael Cloud, republicano do Texas, também defendeu o apaziguamento.
— Ambos pagaram um preço enorme pessoalmente por este país e acho que, no final das contas, ambos vão colocar o país em primeiro lugar — disse ao Politico. — E a colaboração deles certamente é muito melhor para o país.
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Na CNBC, em meio a algumas farpas a Musk, o presidente da Câmara, Mike Johnson, afirmou esperar “que se resolva rapidamente, pelo bem do país”. Mas para alguns, o estrago parece estar feito.
— Não acredito que os insultos públicos vão mudar a trajetória deste projeto de lei, mas acho que Elon provavelmente mudou a trajetória deste projeto há dois ou três dias, quando se manifestou contra ele, porque as pessoas confiam mais no cara que consegue lançar foguetes para trás com a matemática do que nos políticos — disse o deputado Thomas Massie, que votou contra a aprovação.
Já outros republicanos pareciam mais interessados em salvar a própria pele.
— Tenho uma regra: nunca me meto entre um cachorro e um hidrante — disse o senador John Kennedy.
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Ao longo da sexta-feira, a capital americana foi inundada por rumores de que Musk e Trump falariam por telefone, mas a Casa Branca reiterou que Trump “não tinha interesse” em uma conversa. O republicano, em entrevista à CNN, elevou o grau de desdém.
— Nem estou pensando no Elon. Ele tem um problema, o coitado tem um problema.
Nos bastidores, membros da Casa Branca dizem que a ordem era passar ao menos uma imagem de que tudo está bem, que a discussão ficou no passado e que o importante agora é aprovar o projeto de gastos no Senado.
De acordo com a CNN, enquanto os dois ainda trocavam farpas diante de bilhões de pessoas, intermediários tentavam achar caminhos para uma trégua. Mas o comentário de Musk sobre a ligação entre Trump e o financista e condenado por abuso sexual de menores e tráfico humano Jeffrey Epstein enterrou qualquer chance de apaziguamento.
Ali, argumentaram fontes ligadas aos dois, a disputa política tornou-se pessoal: Trump era próximo de Epstein, que morreu enforcado na prisão em 2019, e Musk sugeriu que o republicano estaria “nos arquivos” do caso. Trump nega qualquer irregularidade, e um livro publicado em 2020 afirma que Epstein foi banido da residência de Mar-a-Lago após assediar uma menor de idade no local.
— Está ficando fora de controle — disse ao Politico o deputado Troy Nehls, ao mesmo tempo em que pedia calma, especialmente ao bilionário. — Eles precisam parar. Acho que não é saudável. E alguns dos comentários mais recentes, eu acho, Elon, você perdeu o juízo.
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A tensão entre os republicanos contrastou com o ar de satisfação entre alguns democratas. E alguns até começaram a acenar para o dono da Tesla e da SpaceX: Ro Khanna, deputado que representa a área do Vale do Silício, disse que o partido deveria tentar convencê-lo de que “tem mais dos valores com os quais ele concorda”, citando os empreendimentos científicos e o incentivo à produção de conhecimento.
— Pessoalmente, não me associo a alguém que faz saudações nazistas em público — disse a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, citando um gesto similar a uma saudação nazista feito por Musk após a posse de Trump, em janeiro.

