Quem se dispõe a imaginar como é viver e trabalhar em um navio de cruzeiro meses a fio pode até pensar em festas libertinas, colegas de trabalho cheios de amor para dar e viagens glamorosas, mas duvido que imagine concursos para ver quem come banana mais rápido, a limpeza trimestral obrigatória dos chuveiros e a reação ao aparecimento das cobiçadas batatas Pringles na loja da tripulação abaixo do convés. No mundo das redes sociais dos cruzeiros, porém, esses detalhes triviais atraem milhões de seguidores para as contas dos tripulantes que documentam a rotina de vida a bordo.
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Bryan Henderson, cantor e guitarrista de 38 anos que viveu e se apresentou nos navios da Royal Caribbean por quase sete anos, capturou vários desses rituais em vídeo, compartilhando-os com os quase milhão e meio de seguidores no YouTube, TikTok e Instagram.
— Acho que o conteúdo se cria sozinho. Todo dia vejo alguma coisa que me inspira a fazer um vídeo.
Essa mentalidade o levou a criar segmentos sobre passagens secretas, cantinhos tranquilos e práticas curiosas, como o fato de os navios emitirem sons de pássaros por alto-falantes para manter as gaivotas afastadas.
Henderson faz parte de um grupo cada vez maior de criadores que destaca principalmente a rotina a bordo dos navios de cruzeiro, mas que desenvolveu uma carreira secundária compartilhando a vida profissional on-line. Segundo Jenna Jacobson, professora assistente da Universidade Metropolitana de Toronto especializada em redes sociais, o gênero se encaixa na tendência mais ampla de “funcionários influenciadores”:
— Eles simplesmente postam aquilo que conhecem melhor. Nos navios, grande parte da experiência do hóspede é planejada, encenada; esses vídeos oferecem um vislumbre dos bastidores, da vida da tripulação, ou seja, são um enfoque diferente, mais autêntico.
Para Brianna Delmaestro, de 29 anos, que se apresenta nos shows de patinação no gelo a bordo das embarcações da Royal Caribbean, essa perspectiva inclui atividades como explorar os toboáguas na ilha “CocoCay” e mergulhar com snorkel em Grand Cayman, mas também mostra a realidade mais dura, como os períodos de inatividade a que chama de “baixas no mar” e as lesões que sofreu durante os shows. Seus vídeos registraram o processo do protocolo de concussão, passando pelos exames médicos enquanto atracavam nas Bahamas e a viagem para casa, no Canadá, para a recuperação, até finalmente retornar às apresentações.
— Foi no ano passado, um tempinho depois de ter me machucado, que percebi que queria documentar aquele momento. Sem contar que também é uma maneira de compartilhar com meus avós a realidade da minha vida, o que faço no dia a dia — explicou ela, que é de Vancouver, na Colúmbia Britânica, e tem dez mil inscritos no YouTube.
Delmaestro admitiu nunca ter solicitado permissão formal à Royal Caribbean para publicar conteúdo nas redes sociais, mas garantiu não ter sofrido retaliações nem percebido reações negativas. A empresa não atendeu ao nosso pedido de comentário.
De acordo com Amy Martin Ziegenfuss, diretora de marketing da Carnival Cruise Line, as redes sociais permitem que o hóspede permaneça conectado ao navio — e a seus tripulantes — muito tempo depois do desembarque:
— É natural que se aproxime dos funcionários, pela convivência durante a estada, e as plataformas permitem que esse vínculo continue depois de voltar a terra firme.
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O recurso também é usado como ferramenta de recrutamento. Koketso Holly Phetla, de 26 anos, publica programas diários para a MSC Cruises e vídeos sobre sua experiência pessoal no YouTube e no Instagram. Ela contou ter uma resposta muito boa dos seguidores, pois garantem que seu conteúdo os ajudou na preparação para entrevistas, com dicas sobre como se candidatar às vagas nos navios. (Ela era estagiária de marketing em Joanesburgo quando resolveu disputar a vaga.).
— No começo, postava só detalhes da minha vida a bordo, mas logo comecei a receber uma enxurrada de perguntas sobre como trabalhar no mar. Aí resolvi criar segmentos esclarecendo as dúvidas mais específicas.
De acordo com Colleen McDaniel, editora-chefe do Cruise Critic, maior site de avaliações de cruzeiros, o fenômeno começou durante a pandemia, quando os funcionários começaram a documentar a volta à vida no mar, incluindo quarentenas de vários dias e outros novos processos.
Esse foi o caso de Henderson, que se mudou para San Carlos, na Califórnia, quando a pandemia interrompeu as viagens, e passou a trabalhar em uma igreja, disponibilizando seus serviços on-line. Quando seu agente ligou, quase dois anos depois, falando da oportunidade de trabalhar em um navio, ele hesitou, mas ao buscar informações sobre a vida nos cruzeiros após os lockdowns, não encontrou nada. Essa lacuna, aliada ao próprio interesse nos vídeos sobre a rotina dos comissários de bordo e outras pessoas com empregos interessantes, fez com que tivesse um estalo.
— Pensei, bom, se for para voltar a trabalhar em navio, então que seja do meu jeito. Fiquei impressionado com a rapidez com que tudo aconteceu. Foi da noite para o dia, literalmente. Explodiu depois do primeiro vídeo.
A questão é se o público continuará seguindo esses influenciadores quando eles retomarem a vida “normal” em terra firme. Depois de seis contratos em navios de cruzeiro — desde 2017 —, a cantora e dançarina de Denver Krista Jocelyn, de 30 anos, que começou a criar vídeos no YouTube há três e tem quase 50 mil inscritos, agora está na fase de entressafra, tentando decidir o que fazer.
— Vida de artista é cheia de altos e baixos, seja em cruzeiro ou não. Só torço para meu canal aguentar a transição.

