As causas e os efeitos da operação policial que deixou mais de 120 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, na terça-feira (28), ainda são debatidos. Mas há pouca controvérsia em um valor que está no centro da discussão: a violência é intrinsicamente indesejável. Esse ponto de vista, no entanto, nem sempre foi uma verdade evidente. Os atos violentos, e aqueles que os cometeram, já foram celebrados pela comunidade que deles, teoricamente, se beneficiou. Mas as mesmas artes, como a pintura e escultura que celebraram generais, batalhas, semideuses invencíveis, também ajudaram a mudar esse ponto de vista, à medida que ficavam mais claro os prejuízos com a violência e o conceito dos direitos humanos para todos.
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— Existe uma série de tipos de representação de conflitos, desde os mitológicos, bíblicos, que remontam à Antiguidade — lembra Sérgio Martins, professor do departamento de história da PUC-Rio, autor do livro “Arte negativa para um país negativo”, apontando uma diferença para a produção contemporânea ao abordar o tema. — Quando passamos pra um momento mais próximo nosso, uma coisa relevante são os próprios sujeitos que estão vendo arte pelo mundo. A arte dialoga com sujeitos informados por mídias de massa, como TV, jornais e, hoje, redes sociais. Ela começa a lidar com violência muito frequentemente articulando com essa questão.
Veja abaixo como a arte abordou a violência física através da História.
A morte de Heitor por Aquiles, com a nada discreta torcida da deusa Atenas, foi narrada por Homero na “Ilíada”. E retratada em peças de cerâmica que nos permitem ver ainda hoje como a disposição para matar e conquistar era celebrada pelos gregos — mesmo com alertas como “As troianas”, peça de Eurípides que denunciou a crueldade com os vencidos, e em que o filho criança de Heitor também é assassinado. Mas derrotar, pilhar e escravizar eram feitos pelos quais os imperadores romanos, considerados figuras divinas, também foram lembrados, em monumentos como a coluna de Trajano ou o arco de Tito.
A crueldade impessoal dos modernos
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O espanhol Francisco Goya é visto hoje como um dos primeiros artistas modernos, e muito pela sua visão desprovida de enfeites da realidade. Uma das obras em que ela foi expressa com mais horror é a série de gravuras “Os desastres da guerra”, uma sequência de desenhos que expõe os crimes cometidos pelos exércitos franceses quando Napoleão invade a Espanha (e depois Portugal, o que fez a D. João VI fugir para o Brasil). Mas o mais famoso registro de Goya talvez seja o “Três de maio de 1808”, pintura de 1814 dos fuzilamentos de participantes de um levante em Madri contra o invasor. A impessoalidade dos executores, de costas, sem os rostos à mostra, contrasta com a expressão de desespero, enfrentamento e resignação dos executados prestes a morrer.
— Goya mostra o outro lado de uma guerra, o mais sombrio, nada honroso —avalia a historiadora de arte e professora da Uerj Vera Siqueira.
A crônica do conquistador
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Odo, meio-irmão do rei Guilherme, encomendou a Tapeçaria de Bayeux para marcar a conquista da Inglaterra pelo monarca normando. A peça de 69 metros de comprimento dá uma dimensão de como os conflitos militares eram valorizados na Idade Média. A ponto de tolerar o envolvimento de religiosos: Odo era bispo mas participou da batalha de Hastings, onde o meio-irmão derrotou e matou o rei Haroldo da Inglaterra, em 1066. Uma contradição que continuou a ser aceita no renascimento: o papa Julio II, mecenas de Michelangelo, comandava guerras na Itália e armado de espada.
Alegorias para encarar uma dura realidade
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No século XVII, os efeitos do belicismo são questionados por artistas que serviam aos governantes. “Retomada da Bahia” (1634-1635), de Juan Bautista Maino, celebra a conquista de Salvador pela Espanha em uma batalha contra os holandeses. Mas com um soldado ferido em primeiro plano, quando a norma era destacar apenas os vencedores. “As consequências da guerra” (1637-1638) de Peter Paul Rubens, foi um alerta do artista holandês, também diplomata, da devastação sofrida pela Europa — representada pela mulher de luto e roupas rasgasdas à esquerda — pela Guerra dos Trinta Anos, encarnada em Marte, o deus da guerra, que não conseque ser contido por Vênus, a representação do amor.
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Em “O julgamento dos Horácios”, o patriotismo importa mais que a vida: para defender Roma, os três jovens juram combater até a morte os irmãos curiáceos, seus cunhados. A pintura de Jacques Louis David de 1784 fomentou o amor à pátria que impulsionou a Revolução Francesa, quando surge a pintura histórica da guerra, segundo a historiadora da Uerj Vera Siqueira.
— Os artistas acompanhavam o sucesso de Napoleão e registravam esse sucesso — afirma a professora.
“A batalha de Abukir”, de Antoine Jean-Gros, feita em 1805, mostra como o fato histórico podia se curvar ao poder. Propagandeia uma vitória napoleônica no Egito — onde, no fim, os franceses acabaram derrotados.
Refletir para não repetir
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O questionamento da violência se aprofundou com o genocídio judeu na Segunda Guerra Mundial. Sobrevivente do campo de concentração de Dachau, o eslovênio Zoran Music retratou o que viu nas pinturas e desenhos de “Nós não somos os últimos”, a partir da década de 1970. O alemão Anselm Kiefer usou o passado mais distante para manter viva a memória da responsabilidade de seu país, em obras como “Varus”, de 1976. O título se refere ao general romano derrotado por guerreiros germânicos no reinado de Otávio Augusto, e a pintura de tons cinzas e negros da floresta onde houve o fato histórico aponta como mitos e a valorização do passado puderam fomentar o nazismo.
A vitória perde espaço para o horror
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O desenvolvimento da tecnologia militar nos séculos XIX e XX aumentou o número de mortos e feridos nas guerras, no front ou fora dele, em conflitos que ao final deixavam países e populações arruinadas e benefícios duvidosos para os vencedores. A falta de sentido destes morticínios passou a ser denunciada com mais força depois da Primeira Guerra Mundial, especialmente pelo expressionismo alemão — movimento que influenciou o lituano Lasar Segall, autor de “Guerra”, pintado em 1942, já na Segunda Guerra. A denúncia mais emblemática, no entanto, foi feita entre os dois conflitos mundiais: “Guernica”, de Pablo Picasso, denunciou em 1937 o massacre de uma aldeia basca pela aviação alemã, até então a mais avançada máquina de guerra europeia, durante a Guerra Civil espanhola. Como o rosto dos fuziladores franceses de Goya, os aviões nazistas não aparecem na tela: apenas o desespero de pessoas e animais que fogem do seu bombardeio. A linguagem inovadora da pintura não agradou inicialmente ao governo republicano espanhol, presenteado com a obra, que hoje é um símbolo da civilização a favor do pacifismo.

