Como você procura informação na internet? Durante duas décadas, a resposta parecia óbvia: digitar na barra de pesquisa e navegar pela lista de links oferecida. Mas, desde que a inteligência artificial (IA) generativa se popularizou, perguntar e receber um texto como resposta se tornou tão ou mais comum quanto examinar sites sugeridos pelo Google.
- Jornal sem jornalismo: plataformas usam IA para burlar direitos autorais de veículos de imprensa
- Ferramentas de viagem com IA estão em toda parte. Mas será que elas realmente funcionam?
Há um ano ativo no Brasil, o resumo de IA do Google que aparece no topo dos resultados de uma busca, antes dos links, impulsionou o debate sobre como será o futuro da internet, principalmente como essa nova tecnologia vai afetar a lógica de buscas, links e cliques, base da economia on-line que se desenvolveu nas últimas décadas.
Pesquisas apontam que o chamado AI Overviews está mudando o comportamento dos internautas. Muitos se satisfazem com a “visão geral” do tema pesquisado gerada pela IA do Google em vez de clicar em um dos links abaixo. Para especialistas, trata-se de um novo paradigma: a navegação está deixando de ser guiada por cliques e passando a ser moldada por conversas.
Algo parecido acontece com o crescente contingente de usuários de robôs virtuais (chatbots) de IA, como ChatGPT e DeepSeek, uma ameaça à qual o Google parece responder. Muitos usuários trocaram o buscador pela IA na procura de informações e não vão além dos resumos gerados pelos sistemas inteligentes no formato de conversa, ainda que os links das fontes estejam disponíveis.
Não à toa, as empresas por trás desses chatbots têm investido em navegadores próprios com IA embutida, que concentram a jornada do usuário dentro de um só sistema. A Perplexity foi a primeira a lançar o seu e fez uma proposta bilionária para comprar o Chrome, do Google. A OpenAI, do ChatGPT, também prepara um.
- Entrevista: ‘A inteligência artificial vai gerar milhões de empregos’, prevê diretor da OpenAI no Brasil
No caso do Google, especialistas avaliam que o AI Overviews desvia o caminho do usuário até o link com respostas baseadas nas informações de sites que têm a visita desestimulada. O Google nega, e alega que o volume de cliques orgânicos continua o mesmo.
A big tech americana lançou o recurso no Brasil em agosto do ano passado, prometendo que facilitaria a vida do usuário e aumentaria os cliques nos links citados. Um ano depois, criadores de conteúdo, veículos jornalísticos, consultorias especializadas e o mercado publicitário relatam o contrário.
Uma análise global da plataforma Similarweb, feita a pedido da revista britânica The Economist, estima que o tráfego de buscas no mundo caiu 15% entre junho deste ano e o mesmo mês de 2024. Já a proporção de buscas relacionadas a notícias que não resultam em cliques nas fontes originais subiu de 56% para 69%.
A pedido do GLOBO, a Similarweb fez uma análise focada no Brasil. Houve queda de 8,2% nos acessos via busca orgânica a páginas jornalísticas brasileiras no 1º trimestre deste ano contra o mesmo período de 2024, antes do AI Overviews. A análise, baseada em 100 domínios, indica queda de 591,1 milhões para 542,5 milhões de cliques no período.
- O caso Intel: Empresas americanas têm novo investidor ativista: Donald Trump
Em junho de 2025, o tráfego orgânico foi o menor em quatro anos, com retração de 18,6% em relação a janeiro, segundo Similarweb, que combina diferentes fontes, incluindo extração de dados da internet e mensuração direta.
O Google também criou recentemente o AI Mode (ou Modo IA), uma interface do buscador similar ao ChatGPT. A busca em formato de conversa dá respostas prontas, dispensando clicar e ler as fontes. Por enquanto, só está ativo nos EUA, mas o Google disse na semana passada que chegará ao Brasil nas próximas semanas.
A principal mudança na interação por conversas é a perda da curadoria humana no processo, avalia João Victor Archegas, coordenador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio). O usuário passa de uma posição ativa para passiva. Num buscador tradicional, ainda que se tenha o filtro do algoritmo responsável por ranquear links, o internauta decide em quais clicar, faz sua avaliação do que é adequado ao que procura.
— Já nos chatbots, você recebe a informação do modelo de IA e aceita a organização dela como a melhor resposta para a pergunta que fez — diz Archegas. — É como se o usuário ficasse mais no banco do passageiro desse processo de busca.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/X/s/JvdzGnT5GxfZAk4IK4Rg/openai-chatgpt-bloomberg.jpg)
A reflexão e o tempo até encontrar a informação são encurtadas, diz Marcos Barreto, professor da Escola Politécnica da USP e da Fundação Vanzolini. No buscador, é preciso “ler e pensar um pouco mais”, observa. Por outro lado, ele considera que os modelos de IA podem ser úteis em algumas situações, inclusive facilitar estudos, tirar dúvidas simples. Em outros, é um risco:
— Se a sua pergunta for objetiva, a resposta (do chatbot) tende a ser ótima — diz ele, ao exemplificar que pesquisou como fazer um ajuste no celular e recebeu o passo a passo em segundos, com retorno mais objetivo do que se recebesse links. — O risco é aceitarmos uma resposta errada.
- Saiba como: Como desativar o Meta AI do WhatsApp e por que é importante fazer isso
Confiar cegamente nas respostas dos modelos de IA pode ser perigoso. Barreto, que há anos pesquisa robôs sociáveis, cita o episódio recente de uma influenciadora digital espanhola impedida de embarcar para Porto Rico por ter sido informada incorretamente pelo ChatGPT que não precisava de visto. O especialista lembra que, há pouco tempo, o aplicativo chinês de IA DeepSeek se negava a reconhecer o massacre na Praça da Paz Celestial:
— Caímos num problema em que fica mais fácil reescrever a História. Antes, com os links sugeridos pelos buscadores, você era obrigado a ler e tirar sua própria conclusão. Hoje, aceita-se como verdade o primeiro resultado. Mas talvez não seja tão verdadeiro assim.
- iPhone: descubra sete recursos ocultos no aplicativo Notas, como escaneamento, gravação de áudio e IA
Cora Rónai, jornalista especializada em tecnologia e colunista do GLOBO, conta que vem pesquisando mais nos chatbots, mas checa as fontes:
— Já me vejo usando mais IA que o buscador, mas confiro os links de onde ele retirou a informação, até para aprender. Quanto mais sério o assunto, mais importante é desconfiar.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/3/f/AysPygQYyThxfwpmHYYg/grook-elon-musk-bloomberg.jpg)
Para Barreto, há também uma mudança na forma como interagimos com o computador. Ele vê a tecnologia caminhar para interfaces conversacionais e proativas, que, no futuro, poderão substituir comandos tradicionais como “menu”, “arquivo”, “salvar”:
— Vamos construir outras interfaces em que fazemos tudo sem usar um aplicativo, com camadas de compreensão de sentimento e até de tom de voz. É um novo paradigma, que vai além do botão.
Cora concorda que a tendência da voz é forte, mas nota diferenças geracionais:
— Meus netos já interagem com o computador por voz. Eu não estou acostumada. Mas cada vez mais vamos usar a fala, até porque estamos saindo do computador para o celular. Faz sentido que a navegação acompanhe esse movimento.
- Televisão, smartphones e assistentes de voz: conheça a história do cientista britânico que ‘previu’ em 1925 como seria a vida moderna
Essas mudanças, no entanto, estão desacompanhadas de ferramentas que protejam a propriedade intelectual e a audiência dos produtores de conteúdo. Há um quarto de século o Google é o principal organizador da informação on-line, virou até verbo.
Com ele, a internet consolidou uma engrenagem movida a cliques, que conecta pesquisas de usuários com resultados de sites e um modelo de monetização por meio da publicidade que depende das métricas de audiência e do acesso direto a seus sites para ter assinaturas.
Reportagem do GLOBO já mostrou que, além do Google, plataformas de IA como ChatGPT, Perplexity e Grok, entre outros, dão respostas prontas com base nos conteúdos dos sites cujos links perdem cliques.
Chegam a furar as barreiras de paywall de veículos de imprensa para entregar informações restritas a assinantes. Alteram o consumo de informação, que passa a ser mediado pela IA, sem que as empresas por trás estabeleçam algum tipo de compensação pelo uso de um conteúdo que não produziram.
— A natureza do mecanismo de respostas por IA é, ao responder, eliminar a necessidade de gerar tráfego para outros lugares. O usuário tende a não procurar mais — diz Márcio Borges, pesquisador Associado do NetLab UFRJ, para quem o risco é desestruturar o modelo de negócio da produção de informação.
- Nova mudança: Por que o ChatGPT ficou mais frio e indiferente?
O Google questiona as avaliações de queda no tráfego de buscas com a IA, que considera serem “frequentemente baseadas em informações especulativas ou incompletas”. Também afirma que, mais do que qualquer outra empresa, “prioriza o tráfego”.
“Essas novas experiências de IA na busca permitem que as pessoas façam ainda mais perguntas, o que cria novas oportunidades para que empresas e conteúdo sejam descobertos”, acrescenta, em nota ao GLOBO.
Veículos jornalísticos têm recorrido à Justiça e à negociação com big techs para a remuneração pelo uso de seus conteúdos. O New York Times, por exemplo, fez parceria com a Amazon e acionou judicialmente a OpenAI pelo uso de seu conteúdo para treinar sistemas do ChatGPT sem licença e pagamento.
No Brasil, a Folha de S. Paulo também entrou na Justiça contra a OpenAI pelo mesmo motivo. O GLOBO já identificou que reportagens suas são usadas por robôs de IA para treinamento sem autorização.
Na Europa, editores independentes apresentaram queixa antitruste contra o Google, alegando dano irreparável pelo AI Overviews. A big tech afirmou que as diferenças no tráfego podem acontecer por variações sazonais, interesses dos usuários e atualizações dos algoritmos de busca, não em razão da IA.
Outra saída está nos bloqueadores para impedir que robôs usem conteúdo protegido. Em julho, a empresa Cloudflare lançou um sistema que cria uma barreira para rastreadores de IA na internet e os impede de “acessar conteúdo sem permissão ou compensação”.
Há uma função chamada “Pay Per Crawl”, que permite aos editores definir preços para que robôs acessem seus conteúdos. Mas o impacto na audiência ainda é incerto, já que o Google segue a principal origem de tráfego para os sites.
— Os veículos alimentam esses modelos de IA, que precisam de conhecimento jornalístico de qualidade, verificável e crível, mas não recebem por isso. E o objetivo central ali (dos resumos) é antagônico à geração de fluxo para veículos — diz Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), para quem a saída passa por negociar remuneração, limitar uso indevido e formatos que priorizem relacionamento direto com o leitor.
- Penalizada: Google pagará multa de quase R$ 200 milhões por instalar apenas seu próprio mecanismo de busca em celulares na Austrália
Sites de todos os tipos perdem cliques. Agências que se especializaram na otimização de páginas para motores de busca tradicionais (o chamado SEO) têm buscado novas estratégias, como a chamada AEO, voltada para os mecanismos de IA.
Na publicidade digital, consultores dizem que o resumo de IA no Google afeta especialmente a chamada CTR (taxa de cliques), que mede quantas pessoas acessaram um conteúdo após expostas a ele. Análise da agência Ahrefs, com 300 mil buscas em abril, concluiu que o resumo da IA no topo dos resultados está associado a uma queda média de 34,5% nos cliques no primeiro link exibido depois dela.
Gustavo Franco, diretor de Crescimento da agência Graphite, diz que, em um dos projetos de marca que monitora, 25% das impressões de busca vêm do resumo de IA, mas o CTR é quatro vezes menor:
— Isso significa menos controle sobre a jornada do consumidor e maior dificuldade para converter interesse em ação. É como se tivesse alguém na frente de uma loja contando para quem está fora tudo o que tem lá dentro. A pessoa não precisa entrar.