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“Como criar meninos que entendam o que é machismo, misoginia, assédio e consentimento?”
Desde que começamos a fazer esta newsletter, sempre respondemos perguntas enviadas por leitores. Mas, diante do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro, um crime cometido por cinco rapazes de idades próximas, sentimos que era impossível não nos fazermos uma pergunta urgente: como criar meninos que entendam o que é machismo, misoginia, assédio e consentimento?
Os especialistas ouvidos trazem reflexões que passam pelo papel das redes sociais, pela influência da pornografia e, sobretudo, pelo desafio de família e escola atuarem juntas nesse processo.
Também reunimos referências que podem ajudar pais, mães e cuidadores a se aprofundarem no tema. São dicas de livros, guia, documentário e sites que contribuem para algo essencial: o nosso próprio letramento como adultos em questões de gênero e também de como se configura o ambiente online.
Se você tem perguntas sobre a educação dos seus filhos, mande para a gente ao final desta newsletter. Muitas vezes, a sua inquietação é também a de outros pais e mães que estão tentando acertar todos os dias.
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Palavra dos especialistas 👩🏫👨🏫
Antônia Burke – Educadora e psicanalista
❓Essa é uma pergunta que muitos pais e mães têm se feito nos últimos dias. Com tantos casos recentes de violência contra mulheres, é inevitável que muitos de nós fiquemos indignados e com uma sensação de desorientação. Afinal, como abordar esses temas com crianças e adolescentes? Qual é o limite desse diálogo? Quais são as palavras exatas ou o momento certo?
🧠 A primeira coisa importante é entender que os meninos (e meninas!) já estão aprendendo sobre gênero o tempo inteiro. Eles aprendem nas redes sociais, nas conversas entre amigos, nos conteúdos que consomem e nas piadas que circulam nos grupos de WhatsApp da turma.
⏱️ Na grande maioria das vezes, formam opiniões antes mesmo de terem tido a oportunidade de parar para pensar sobre elas. Com tanta informação disponível em vídeos de 1 minuto, não há tempo hábil para processar tudo o que entra na cabeça.
💬 Por isso, o diálogo dentro de casa é tão importante. Não precisa começar com grandes discursos ou aulas formais. Muitas vezes começa com perguntas simples, um papo mesmo: “O que você achou disso?”, “Você percebeu o que aconteceu nessa situação?”, “Como você se sentiria se fosse com você?”. E deixe que eles se expressem sem julgamentos, interrupções ou lições de moral.
🧩 Essas conversas ajudam os adolescentes a desenvolver algo que está cada vez mais raro: tempo para refletir antes de simplesmente reproduzir comportamentos ou opiniões. E existe um mercado milionário que está lucrando justamente com essa falta de reflexão.
👀 Outro ponto importante é que respeito não se ensina apenas com palavras. Os meninos observam muito as relações ao seu redor. Aprendem com a forma como os adultos se tratam, com a maneira como os conflitos são resolvidos e com a divisão das responsabilidades dentro de casa. Não adianta falar que é errado bater em mulher, mas viver diminuindo e ofendendo a sua esposa, ainda que “de brincadeira”.
🤝 Por outro lado, é preciso reconhecer que a família não pode carregar esse trabalho sozinha. A escola também tem um papel fundamental nesse processo.
🏫 O enfrentamento da misoginia precisa ser tratado como um pilar institucional da educação. Isso significa que o tema deve aparecer na mediação de conflitos, nas conversas que surgem em sala de aula e nos protocolos que orientam o que fazer quando acontece uma situação de violência ou desrespeito. Professores, inspetores, recepcionistas, porteiros, famílias… É preciso que toda a comunidade escolar esteja envolvida, isso precisa estar no projeto político-pedagógico da escola.
📚 E não é necessário criar uma nova disciplina. As aulas de educação socioemocional são um espaço especialmente potente para esse tipo de reflexão. Elas permitem trazer para a sala de aula temas que já estão circulando no cotidiano dos estudantes e criar um ambiente em que esses assuntos possam ser pensados com mediação adulta e desenvolvimento de pensamento crítico.
🌱 Quando família e escola caminham juntas, aumenta muito a chance de formar jovens capazes de reconhecer comportamentos violentos, respeitar limites e construir relações mais responsáveis.
⚠️ Não importa o quanto a escola se comprometa, todas estão suscetíveis a situações de intolerâncias, preconceitos e até violências entre os estudantes. O importante é saber como se lida com elas. Por isso a importância de entender os protocolos. Meninos que compreendam o que é machismo, misoginia, assédio e consentimento não são resultado de uma única conversa. É um processo contínuo de formação que envolve diálogo, exemplo e espaço de reflexão.
🌍 E, no fundo, essa talvez seja uma das tarefas mais importantes da educação hoje: ajudar crianças e adolescentes a pensar sobre o tipo de relação que querem construir com o outro. Eles já estão aprendendo sobre gênero o tempo todo. Resta saber se eles vão aprender sozinhos ou se os adultos responsáveis por eles também vão contribuir.
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🗣️ Não espere apenas situações extremas para conversar
Notícias, vídeos ou comentários que aparecem nas redes sociais podem ser bons pontos de partida para iniciar a reflexão. Não precisa ser todo dia e nem ter um momento instituído. Quando você vir algo que possa gerar diálogo, puxe assunto.
👂 Escute antes de corrigir
Muitos adolescentes repetem opiniões que ouviram em vídeos de influenciadores ou entre amigos. Eu sei que dá raiva (ou tristeza, desespero) escutar seu filho repetindo um absurdo, mas é preciso ter cautela nesses diálogos. Antes de confrontar, vale tentar entender de onde vem aquela ideia e, com paciência, ajudar a desconstruir.
🧠 Estimule o pensamento crítico sobre os conteúdos que eles consomem
Pergunte quem produziu determinado vídeo, que visão de mundo está sendo transmitida e que tipo de comportamento está sendo incentivado. Peça a opinião do seu filho com honestidade.
🚫 Não normalize piadas ou comentários desrespeitosos
Brincadeiras sobre o corpo das meninas ou situações de humilhação muitas vezes passam despercebidas, mas também educam. Sabe aquele tio “engraçado” que faz piada machista no almoço de domingo? Talvez ele também precise de uns toques.
🏫 Procure saber como a escola trabalha o tema
Família e escola precisam caminhar juntas para que essas conversas não apareçam apenas em momentos de crise. Você já procurou saber como são as aulas de educação socioemocional? Já deu uma olhada no material? Como a escola se propõe a contribuir para a igualdade de gênero?
Moisés Machado – Professor da Prefeitura do Rio, palestrante, escritor, influencer e pai do Isac
🧑🏫 Como professor, realizo múltiplas atividades com meus alunos para discutir masculinidade, machismo e respeito. A partir dessas experiências em sala de aula, trago algumas reflexões e sugestões que podem ser adaptadas por pais e mães em casa.
💬O primeiro passo é acolher as opiniões dos meninos sobre o que acham ser o papel do homem em sociedade, inicialmente sem criticar, seja em palavras ou em expressões faciais. A partir daí, temos um marco situacional para compreendermos de onde partiremos rumo à desconstrução do machismo, dos conceitos nocivos de masculinidades.
⚖️ Precisamos trabalhar justamente na lógica, deixando indubitável que as mulheres e homens são seres humanos que merecem respeito e valor e deixar no ar uma questão: será que ambos têm, em nossa sociedade, como seres, o mesmo valor, o mesmo respeito, os mesmos direitos? E quando falo direitos, falo sobre aqueles que, sim, já estão no papel, mas que não são cumpridos à risca, como, por exemplo, o “simples” direito à vida.
📊 Podemos começar em tópicos, mostrando as desigualdades salariais no mundo do trabalho; perguntar aos meninos e adolescentes, por exemplo, se eles sentem medo quando saem na rua e comparar suas respostas com as da maioria das mulheres, que incluem medo do assédio e do estupro.
🧠 Nesse diálogo com os meninos precisamos mostrar que os homens também são prejudicados pela lógica machista de que precisam ser sempre os dominadores, os únicos provedores, os controladores, os que não podem receber uma resposta negativa de uma mulher, ou que não são sensíveis ou não podem chorar. Mostrar que isso os torna vulneráveis à depressão e ao suicídio, por exemplo.
👤 Não é culpar o menino por ser menino ou o homem por ser homem, mas fazê-lo entender que ser homem vai além de estereótipos e que certos elementos construídos socialmente sobre o que é ser homem não precisam necessariamente fazer parte da masculinidade. Ou seja, mostrar que ele não será “menos homem” ao ser sensível com ele mesmo e com o próximo, não será “menos macho” se dividir com alguém suas dores e preocupações, assim como não será menos digno se assumir que não tem o controle de tudo.
🌱 Claro que não é em uma única conversa que iremos desconstruir uma opressão que é estrutural e estruturante. Mas com constantes diálogos podemos construir presentes e futuros com igualdade de oportunidades para todos.
Luciana Temer – Advogada e presidente do Instituto Liberta, que atua no enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes
🧠 Quando falamos em educar meninos ou meninas, na verdade estamos falando daquilo que os adultos são capazes de transmitir. Por isso, antes de tudo, é preciso pensar no letramento dos próprios adultos. As crianças aprendem muito mais a partir dos exemplos do que dos discursos. Observam como lidamos com conflitos e como tratamos mulheres e homens, por exemplo. Esse cotidiano funciona como um roteiro silencioso para aquilo que elas vão reproduzir.
📱 Hoje essa equação não envolve apenas família e escola. Existe um terceiro elemento extremamente poderoso: a internet e as redes sociais. Para as novas gerações, o mundo digital não é separado da vida real. Ele faz parte da experiência cotidiana. É importante que os adultos procurem compreender melhor que conteúdos circulam e quais valores estão sendo transmitidos nesses espaços.
⚖️ Existe ainda uma tensão difícil de lidar. Ao mesmo tempo em que buscamos educar meninos e meninas para a igualdade, sabemos que o mundo ainda é mais perigoso para as meninas. É um equilíbrio delicado: educar para relações mais justas e, ao mesmo tempo, reconhecer que a sociedade ainda é marcada por violência de gênero.
🎬 Outro ponto importante: vivemos em um ambiente cultural marcado por forte hipersexualização. A indústria pornográfica, por exemplo, acabou disseminando determinados roteiros de comportamento e sexualidade que circulam amplamente entre adolescentes.
📊 Pesquisas mostram que muitos jovens têm contato com pornografia ainda muito cedo, frequentemente por volta dos 12 anos. Para muitos meninos, esse material acaba se tornando uma das primeiras referências sobre sexualidade. O problema é que ele costuma apresentar mensagens distorcidas: a ideia de que a insistência masculina faz parte do jogo, de que a resistência feminina é esperada ou de que a violência pode integrar o erotismo.
🗣️ Assim, o silêncio dos adultos não protege os jovens. Quando esse tema não é discutido em casa ou na escola, outros conteúdos acabam ocupando esse espaço. Conversas sobre respeito, limites e relações precisam acontecer ao longo do desenvolvimento, de forma adequada à idade. O acesso à pornografia de modo desenfreado também precisa ser debatido.
🤝 A ideia de consentimento precisa ser compreendida em profundidade. Não se trata apenas de um “sim” ou “não” literal. Existem situações em que a pessoa não consegue recusar, seja por pressão, medo ou desequilíbrios de poder. É fundamental educar meninos para reconhecer limites e educar meninas para se sentirem autorizadas a expressar desejos e recusas.
🏫 Também é impossível discutir educação de meninos sem falar do papel da escola e da sociedade. Muitas famílias esperam que a escola trate desses temas, mas ao mesmo tempo existe resistência quando se tenta discutir gênero, sexualidade ou violência. Esse é um dos paradoxos do nosso tempo.
🌱 No fundo, educar meninos para relações mais justas passa por um movimento mais amplo: educar os adultos. Enquanto a sociedade continuar reproduzindo desigualdades, violência e misoginia em diferentes espaços, será difícil esperar que as novas gerações ajam de forma completamente diferente.
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🔎 Observe o que você transmite no cotidiano
Antes de pensar apenas no que dizer aos filhos, vale observar o que eles veem. Como você fala das mulheres? Como resolve conflitos? Como trata parceiros, colegas e familiares?
📱 Acompanhe o ambiente digital dos filhos
Não basta perguntar se está tudo bem na escola. É importante saber também que conteúdos seus filhos consomem online, que tipo de conversa circula nos grupos e quais valores aparecem nesses espaços.
🍽️ Preste atenção às pequenas diferenças no dia a dia
Vale observar se meninos e meninas estão recebendo expectativas diferentes dentro de casa. Pequenas diferenças cotidianas ajudam a reforçar ou a questionar desigualdades de gênero.
🗣️ Não deixe que a internet seja a única fonte sobre sexualidade
Se os adultos não ocuparem esse espaço, outros conteúdos ocuparão. Conversas sobre relações, respeito e limites precisam existir ao longo do desenvolvimento, de forma adequada à idade.
🤝 Ensine meninos a reconhecer limites
Parte importante da educação para o respeito é ajudar os meninos a perceber sinais de desconforto, hesitação ou pressão nas relações. Consentimento não é apenas ouvir um “não” explícito.
💬 Ajude adolescentes a conversar sobre relações
Muitos conflitos entre jovens surgem de interpretações diferentes sobre uma mesma situação. Criar espaços de conversa sobre expectativas, limites e comunicação pode ajudar a evitar mal-entendidos e relações marcadas por pressão.
🏫 Converse com a escola sobre esses temas
Família e escola não podem atuar isoladamente. Vale perguntar como a escola trabalha temas como respeito, convivência, relações e violência de gênero e apoiar iniciativas que promovam essas discussões.
🌱 Aceite que os adultos também estão aprendendo
Muitos pais e mães não foram educados para lidar com esses temas. Reconhecer essa lacuna não é um problema. Pelo contrário, pode ser o primeiro passo para buscar informação e construir conversas mais abertas com os filhos.
Referências para pais, mães e cuidadores
📖 “Precisamos falar de consentimento: Uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não” (Bazar do Tempo)
O livro, escrito por Arielle Sagrillo Scarpati, psicóloga, Beatriz Accioly Lins, antropóloga, e Silvia Chakian, promotora de justiça, reúne diferentes olhares para propor uma reflexão sobre o que caracteriza consentimento na relação sexual.
📖 “Pornland: como a pornografia sequestrou nossa sexualidade” (Editora Caqui)
Neste livro, a socióloga e crítica de mídia Gail Dines investiga como a indústria pornográfica moldou de forma perturbadora as percepções e experiências da sexualidade na sociedade contemporânea.
O PapodeHomem é um espaço de pesquisa, conteúdo, projetos e treinamentos focados em temas como masculinidades, saúde mental e construção de pontes entre pessoas que pensam de maneiras diferentes. Os conteúdos produzidos pelo instituto podem ser acessados gratuitamente. A seguir, indicamos alguns deles:
Perfil oficial no Instagram
Filme “O silêncio dos homens”, disponível gratuitamente no YouTube e que é parte de um projeto que ouviu mais de 40 mil pessoas em questões a respeito das masculinidades.
Como os pais podem explicar consentimento aos filhos e filhas: dicas práticas. Um passo a passo que reúne vídeo e sugestões de como lidar com essa questão em cada faixa etária.
O Liberta é uma organização social que trabalha pelo fim de todas as violências sexuais contra crianças e adolescentes.
O Guia para familiares e educadores, trabalho publicado pelo grupo, traz diálogos simples, divididos por faixa etária, que ajudam crianças e adolescentes a compreenderem o próprio corpo e a desenvolverem um senso de autoproteção.
O que o GLOBO já publicou sobre o tema 🗞️
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