“Queria saber a hora certa de falar sobre sexualidade com uma menina. Meu receio é, ao invés de orientar, estimular a conhecer mais”.
“Como faço para conversar sobre sexualidade com meu filho de 12 anos? Ele sempre foge e fala que não quer saber”.
Lembro da primeira vez que conversei com meu pai sobre sexualidade: eu tinha 19 anos e achava que estava grávida. Um pouco tarde, né?
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Uma das perguntas mais recorrentes que recebemos nesta semana foi sobre como e quando abordar o tema sexualidade com crianças e adolescentes. Um dos grandes tabus de toda uma geração que cresceu com pouca ou nenhuma educação sexual em casa ou na escola.
Por aqui, as perguntas ainda não começaram a ser um problema — minha filha ainda tem 7 anos —, e os livros infantis e a escola têm feito um papel fantástico em iniciar esse caminho de maneira lúdica.
Ainda assim, bate um medinho de não saber o que responder quando as dúvidas vierem ou, no meu caso, o pavor de que ela se feche como eu fiz e nunca converse comigo sobre o tema de maneira espontânea.
Para responder sobre sexualidade, conversei com três especialistas nesse tema.
Leia abaixo e veja ainda dicas de livros e um quadro sobre o desenvolvimento de cada faixa etária.
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A educação sexual começa quando ensinamos sobre privacidade desde sempre. Por exemplo, quando nomeamos corretamente as partes íntimas para um bebê ou avisamos que vamos trocar sua fralda e deixamos claro quem são as pessoas que podem tocar essas regiões e em quais situações, sempre em contextos de cuidado como o banho ou uma consulta médica.
Por volta dos 10 anos, o diálogo se aprofunda. Nessa fase, o corpo passa por mudanças importantes, meninos começam a produzir espermatozoides e meninas a menstruar, e é essencial que compreendam o que está acontecendo. A conversa passa a incluir gravidez, infecções sexualmente transmissíveis e o uso de preservativos, sempre com uma linguagem simples, verdadeira e adequada à maturidade da criança.
️A ausência de perguntas não significa desinteresse. Muitas vezes, a criança ou o adolescente apenas não se sente seguro para abordar o tema. Cabe ao adulto demonstrar disponibilidade genuína para conversar, sem transformar o assunto em algo constrangedor.
É importante criar um ambiente de confiança. Essa disponibilidade precisa permear a relação, ou seja, ser construída no cotidiano para falar sobre todos os assuntos. Não precisa de um momento marcado e ideal, em um tom “palestral”. Vale um bate-papo no carro, uma conversa enquanto almoçam juntos… A ideia não é ditar regras, mas entender a importância do tema.
️Quando os filhos percebem que podem falar sem medo ou julgamento, entendem que os pais são fontes legítimas de informação. Em tempos de acesso precoce à informação, o silêncio dos adultos não protege, expõe.
Quando surgem dúvidas, é importante contextualizar a pergunta: em que situação você ouviu sobre isso? O que você já sabe sobre isso? Antes de responder, é preciso compreender o sentido do que está sendo perguntado, para que a explicação se ajuste à idade e à maturidade da criança ou do adolescente.
️Os assuntos devem ser abordados com linguagem simples, objetiva e respeitosa, sem detalhamentos desnecessários, mas também sem evasivas. E tudo bem dizer: “Não sei, mas podemos pesquisar juntos.” Essa postura reforça o vínculo, ensina ética na busca por conhecimento e mostra que aprender é um processo compartilhado.
O essencial é que o adolescente cresça sabendo que não há temas proibidos e que pode contar com o adulto como uma fonte segura de orientação.
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Marina Martins – Psicanalista e psicóloga perinatal e parental
É importante esclarecer que sexualidade é uma coisa, e sexo é outra. A sexualidade faz parte do desenvolvimento humano desde o nascimento. Ela não se restringe ao ato sexual, mas está presente nas formas de sentir, de se expressar, de habitar o corpo e de se relacionar com o outro. Por isso, não existe uma idade certa para começar a conversa, e sim uma construção contínua.
Essa construção começa quando o adulto respeita o corpo do bebê que está sendo tocado e cuidado, quando nomeia o corpo da criança com naturalidade. Pé chama pé, mão chama mão, vagina chama vagina, pênis chama pênis. Ou, pelo menos, quando o adulto conta a essa criança os nomes corretos e reage às curiosidades sem constrangimento. Cada resposta e cada gesto transmitem uma mensagem sobre o que é permitido sentir e sobre o valor do próprio corpo.
️Falar sobre sexualidade é um tema que, muitas vezes, gera incômodo. É um tabu. A maioria de nós, adultos, não teve uma educação sexual dentro de casa e ainda se sente pouco preparado para tratar do assunto. O perigo é que, se pai, mãe ou cuidadores não conversam sobre sexualidade, a curiosidade vai seguir existindo e a criança vai buscar respostas em outras fontes.
Diante da imensa disponibilidade de conteúdos, muitos inadequados ou perigosos, é fundamental que a educação sexual aconteça em casa, na escola e em ambientes seguros.
️Claro que cada etapa do desenvolvimento traz um nível diferente de interesse e discernimento (veja mais sobre isso no quadro abaixo). É importante conhecer o que é esperado para cada idade, para não naturalizar atitudes sexualizadas que pedem atenção, nem patologizar o que é saudável e necessário
️Quando a criança faz uma pergunta sobre sexualidade, o primeiro passo é devolver a pergunta: além de ganhar tempo, ajuda a compreender o que ela realmente quer saber. É essencial responder com verdade, na linguagem adequada à idade, sem se esquivar nem silenciar.
Se a criança já tem mais de 6 anos e o tema ainda não apareceu, o adulto pode introduzi-lo a partir de situações cotidianas: ao ver uma gravidez, uma cena de carinho ou um filme. A curiosidade existe, e talvez ela apenas não sinta abertura para trazer as dúvidas.
Em resumo, o que dizem as especialistas:
- Educação sexual não erotiza. Conversar abertamente com as crianças sobre o corpo e sobre sexo não estimula comportamentos precoces. Ao contrário: reduz a curiosidade mal informada e o risco de exposição a conteúdos inadequados. O silêncio, por sua vez, deixa espaço para interpretações erradas e para o acesso à pornografia.
- Informação é proteção. Educar sobre sexualidade desde cedo ajuda na consciência corporal e na prevenção de abusos. Quando o assunto é abordado com naturalidade, a criança aprende também sobre limites, consentimento e respeito, entendendo que o contato íntimo é algo de adultos e que ninguém pode ultrapassar esses limites com ela.
- O diálogo deve ser contínuo e adequado à idade. A educação sexual começa cedo, nas conversas sobre privacidade e cuidado com o corpo, e se amplia conforme a criança amadurece. Na pré-adolescência, entram em cena temas como mudanças corporais, menstruação, ejaculação, gravidez e prevenção. As respostas devem ser verdadeiras e na medida certa, nem evasivas e nem excessivamente detalhadas, respeitando o ritmo e a curiosidade de cada fase (saiba mais sobre as fases abaixo).
- Pais e cuidadores precisam oferecer abertura e confiança. O fato de uma criança não fazer perguntas não quer dizer que não tenha dúvidas — muitas vezes, falta apenas abertura para falar. Cabe ao adulto mostrar disponibilidade genuína, acolher as perguntas e transformar o tema em algo natural. Quando pais e cuidadores se colocam como fontes seguras de informação, o diálogo se fortalece, o vínculo cresce e a criança aprende que não existem assuntos proibidos.
O desenvolvimento por faixa etária, por Marina Martins
4 a 6 anos: As crianças já percebem as diferenças entre os corpos e passam a criar suas fantasias sobre eles: “Será que a menina perdeu o pênis?; “De onde vêm os bebês?”. Exploram o próprio corpo com curiosidade, se interessam por brincadeiras sexuais infantis (como médico, por exemplo). Perto dos 6 anos, começa a surgir um senso de pudor e vergonha
7 a 10 anos: As crianças se aproximam de pares do mesmo gênero e buscam novas figuras de referência fora da família. Cresce a curiosidade sobre os relacionamentos (casamento e namoro, hetero ou homoafetivo) e também sobre o ato sexual. O senso moral se torna mais apurado e as brincadeiras sexualizadas já não são esperadas.
️11 a 12 anos: O corpo muda radicalmente e o grupo ganha ainda mais importância. Entre amigos, surgem conversas sobre sexualidade, como namoro, prazer, masturbação, gravidez, métodos contraceptivos. Surgem os interesses em relacionamentos entre os pares.
️ A partir dos 13 anos: As mudanças corporais são muito valorizadas, o desejo e a curiosidade sexual se intensificam, bem como o interesse pelas experimentações afetivas e sexuais. Os adolescentes buscam mais privacidade e autonomia, voltando-se aos pares em busca de informações e referências.
“Tenho uma filha de 9 anos e, se aprendi algo ao longo desse tempo, é que o diálogo não nasce de momentos isolados. Ele se constrói pouco a pouco, nas pequenas aberturas que a rotina oferece. E envolve todos os temas, não só sexualidade. Percebo que uma das formas mais poderosas de abrir esse canal é me conectar com a minha própria história. Quando minha filha fala sobre algo que a deixou triste ou animada, tento lembrar de uma situação parecida que vivi na mesma idade. Ou pelo menos de como me sentia naquela época. Ela ama ouvir essas lembranças. Outro dia, tirei do armário uma agenda minha dos anos 1980, cheia de recortes, para mostrar a ela. Para falar sobre sexualidade, é possível seguir por esse mesmo caminho. Não se trata de dividir experiências íntimas, mas de compartilhar sensações: o que você pensava, em quem confiava para conversar, como seus amigos lidavam com certos assuntos.”
Josy, mãe da Nina (9 anos)
Tem alguma questão sobre criação de filhos, sejam eles crianças ou adolescentes? Ela pode ser a próxima “Dúvida da semana”!

