- Caso Epstein: Polônia abre investigação sobre possível rede de tráfico humano ligados a documentos
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De acordo com a apuração da BBC News Brasil, agências associadas a Brunel teriam sido utilizadas para recrutar jovens, providenciar vistos e facilitar viagens aos Estados Unidos.
A reportagem apresenta o relato de uma brasileira identificada como Ana, nome fictício usado para preservar sua identidade. Segundo ela, foi recrutada no início dos anos 2000 em São Paulo por uma mulher que prometia oportunidades na carreira de modelo. Ao chegar ao destino, porém, a situação mudou.
Ana afirma que seus documentos foram confiscados e que foi informada de que teria uma dívida pelos custos da viagem e das fotos.
— Logo percebi que não havia trabalho como modelo. Ela era uma cafetina — explica.
Pouco depois de completar 18 anos, ela foi levada a um hotel de luxo em São Paulo para encontrar Epstein, que escolheria uma entre três mulheres presentes.
Segundo seu relato, Epstein pediu que ela tirasse a roupa enquanto se masturbava. Documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos indicam que o financista esteve no Brasil nesse período.
Alguns dias depois, Epstein a convidou para uma festa, onde ela conheceu Brunel. O agente ajudou a providenciar um visto americano para a jovem.
No passaporte apresentado à BBC aparece como patrocinadora a agência Karin Models of America, criada por Brunel. Ana afirma que nunca trabalhou como modelo para essa empresa e diz que o visto foi usado apenas para facilitar suas viagens aos Estados Unidos.
Registros judiciais indicam que Brunel utilizava duas agências — Karin Models of America e MC2 — para atrair jovens de vários países, inclusive menores de idade.
Ana afirma que passou cerca de quatro meses viajando com Epstein entre os Estados Unidos e a França. Segundo ela, o financista pagava aulas de inglês e pequenas despesas.
O visto americano da jovem acabou cancelado em Miami após autoridades questionarem quem financiava suas viagens. Ela afirma ter visitado os Estados Unidos pelo menos seis vezes e diz que também esteve na ilha privada de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas.
Durante parte desse período, Ana acreditou manter um relacionamento com o financista.
— Só depois percebi que ele fazia isso com muitas garotas.
Outra brasileira citada na reportagem é Gláucia Fekete, que relembra um episódio ocorrido quando tinha 16 anos. Em 2004, ela vivia no interior do Brasil e iniciava a carreira no mundo da moda quando Brunel visitou a casa de sua família para tentar convencer sua mãe a permitir que participasse de um concurso de modelos no Equador.
Inicialmente desconfiada, a mãe acabou permitindo que a adolescente viajasse com a equipe de Brunel para Guayaquil, onde ocorreria o concurso Models New Generation, que reunia participantes entre 15 e 19 anos.
Gláucia afirma que o evento ocorreu sem grandes problemas, mas lembra que durante a viagem não conseguiu entrar em contato com a família, o que lhe causou estranhamento.
Após o concurso, Brunel ofereceu pagar uma passagem para que ela fosse a Nova York participar de desfiles de moda. A família precisaria autorizar novamente a viagem.
A mãe recusou imediatamente. “Não. Nem pensar”.
Segundo ela, Brunel estava procurando meninas muito jovens.
— Eles só procuravam crianças, menores de idade — afirma a mãe: — Infelizmente encontraram minha filha.
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Depois disso, ela proibiu a filha de continuar na carreira de modelo e interrompeu qualquer contato com Brunel.
Hoje, Gláucia acredita que escapou de algo perigoso.
— Foi realmente por pouco — conta.
Documentos do governo dos Estados Unidos indicam que Epstein esteve em Guayaquil nos dias 24 e 25 de agosto de 2004 — datas que coincidem com a final do concurso. Registros também mostram que uma modelo menor de 16 anos que participou do evento voou duas vezes no avião de Epstein naquele mesmo ano.
Ao refletir sobre o episódio, Gláucia afirma que percebe hoje o quanto esteve próxima daquele ambiente.
— Sem saber, eu estava no meio daquela tempestade — diz Gláucia: — Minha mãe me salvou.
O caso passou a ser investigado também no Brasil. Em fevereiro, o Ministério Público Federal abriu uma investigação para verificar se existiu uma rede de recrutamento de mulheres no país ligada a Epstein.
A apuração é conduzida pela procuradora Cinthia Gabriela Borges, da unidade nacional de combate ao tráfico de pessoas, que pretende ouvir mulheres que tiveram contato com o financista para entender como o sistema funcionava.

