Com a entrada em vigor ontem do tarifaço de Trump de 50% sobre os produtos brasileiros, os setores que ficaram de fora da lista de isenção de cerca de 700 itens seguem fazendo as contas do prejuízo, mantêm canais de negociação abertos com seus pares americanos, e relatam paralisação das encomendas e de pedidos.
Os representantes dessas empresas contam com os canais de Brasília para que as negociações avancem e também esperam medidas do governo brasileiro para mitigar o impacto.
No caso dos têxteis, o prejuízo calculado é de R$ 500 milhões ano para as empresas que exportam aos EUA e possibilidade de fechamento de até 6 mil vagas diretas e 15 mil indiretas, num setor que emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
— Não somos os maiores fornecedores dos EUA, mas temos nichos, como moda praia, que exporta cerca de 40% a 50% de sua produção para lá. Os pedidos começam a ser reprogramados, alguns para menos, e há negociações para colocar parte desses itens no mercado local. Com os clientes, as conversas ocorrem para que cada um dos lados absorva um pouco desse tarifaço, reduzindo margens — diz Fernando Pimentel, presidente de Abit.
- Tarifaço de Trump: Governo brasileiro mapeia países que podem receber exportações que iriam aos EUA
Ele lembra que a expectativa era fechar 2025 com alta de 14% nas vendas aos EUA de têxteis, considerando roupas além têxteis técnicos (tecidos usados na indústria automotiva, indústria, por exemplo). Mas Pimentel conta que o setor já vinha sofrendo com a invasão dos produtos chineses e de outros países asiáticos no Brasil, resultado de uma mudança nos fluxos globais de comércio.
- Apoio: China sai em defesa do Brasil após tarifaço de Trump e diz que país sofre ‘interferência externa abusiva’
Um levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), mostra que quase 80% das empresas exportadoras para os EUA consultadas relataram impactos com a tarifa adicional.
Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, já há atrasos ou paralisação em negociações com clientes, queda do faturamento em decorrência e cancelamento de pedidos, parte, inclusive, já produzidos ou em produção.
- Produto que chega hoje aos EUA já paga 50%? Entenda como funciona o tarifaço de Trump
— Há necessidade de medidas de caráter emergencial para a preservação dos empregos e das empresas calçadistas nacionais — diz Ferreira.
Para os próximos meses, caso não haja uma mudança do cenário, cerca de 8 mil postos diretos no setor podem ser perdidos, nas contas da entidade. Somando os postos indiretos, via cadeia produtiva, do fornecedor de materiais ao varejo, esse impacto pode chegar aos 20 mil empregos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/U/4/OarqoQTjCBb7YNUQvTiw/eco-07-08-tarifaco-trump-1-.png)
Isso porque historicamente o principal destino internacional do calçado brasileiro, os Estados Unidos, respondem por mais de 20% do valor total gerado pelas exportações do setor.
No primeiro semestre de 2025, o Brasil exportou 5,8 milhões de pares de calçados àquele país, 13,5% mais do que no mesmo intervalo de 2024.
- Após tarifas de Trump: Primeiro-ministro incentiva indianos a comprarem produtos locais
A Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) estima que o tarifaço tem potencial para provocar 10 mil demissões no setor, numa cadeia que emprega mais de 1,1 milhão de trabalhadores.
Os Estados Unidos absorvem cerca de 30% dos embarques internacionais de móveis e colchões prontos, e quase 40% das exportações de matérias-primas, insumos e tecnologias com produção no Brasil, sendo o principal destino do setor no exterior.
- Após tarifaço: Minerais críticos podem virar trunfo do Brasil em negociações com EUA
Irineu Munhoz, presidente da Abimóvel, lembra que a China é grande concorrente do Brasil no mercado moveleiro e que com uma tarifa de 25% imposta pelos EUA sobre os produtos asiáticos, a exportação de móveis brasileiros para os EUA praticamente se inviabiliza.
— Nossos custos logísticos, trabalhistas, já são mais elevados que os chineses. Com essa tarifa de 50%, fica impossível concorrer com a China — explica ele, que aguarda medidas emergenciais do governo, como linhas de crédito com juros subsidiados e liberação mais rápida de créditos para exportadores.
- O que dizem analistas: Sanções secundárias que Trump ameaça aplicar contra Rússia por guerra na Ucrânia devem afetar economia global
Empresas moveleiras com foco no mercado americano já enfrentam queda nos embarques, cancelamentos de pedidos e paralisações de produção.
Na Móveis Serraltense, de São Bento do Sul, em Santa Catarina, os embarques para os EUA chegaram a representar 80% da produção em 2024, mas fecharam o primeiro semestre de 2025 em apenas 30%. A média mensal de dez a 12 contêineres embarcados caiu para dois ou três.
No Paraná, entre os fabricantes de estofados de couro da região, já há cancelamentos de pedidos. Na Toro Bianco, uma dessas empresas, os embarques previstos para agosto foram cancelados. Importadores dos EUA também cancelaram as programações de compra para todo o segundo semestre.