Imagine um estoque que consegue ‘prever’ suas compras futuras, um provador virtual que mostra com precisão o caimento de uma roupa no seu corpo e atendentes virtuais dotadas de inteligência artificial (IA) capazes de interpretar suas emoções durante uma compra on-line.
Pode até parecer cena de um futuro distante, mas essas ferramentas já fazem parte do negócio de empresas do varejo brasileiro, que investem cada vez mais no comércio eletrônico e apostam na inteligência artificial para transformar a experiência de compra em algo cada vez mais personalizado.
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Enquanto o Boticário viu crescer em 77% o número de cliques ao usar IA para definir o momento ideal de sugerir recompras aos consumidores on-line, o Carrefour desenvolveu uma ferramenta que monta listas de compras automáticas e personaliza mais de 95% de suas comunicações.
No setor de moda, a C&A analisa o comportamento de 27 milhões de clientes para ajustar lançamentos e planejar seus estoques com mais precisão. Na Aramis, o provador virtual com IA, presente na plataforma on-line da varejista e no Morumbi Shopping, aumentou em 40% o percentual de visitantes que finalizam a compra no período entre dezembro do ano passado e março deste ano.
Com a capacidade da IA de simular exatamente como uma peça vai ficar no corpo, o cliente ganha mais segurança na escolha, sem depender de provar fisicamente ou mesmo adivinhar se a peça vai vestir bem e “comprar no escuro” pelo site, como muita gente faz.
Desde 2021, a Aramis aumentou em 60% o giro dos estoques e em 12% as vendas, impulsionada por soluções de IA para otimização, desenvolvidas com a Onebeat, especializada em soluções de gestão de estoques.
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— Conseguimos, cada vez mais, ajustar sortimentos e estoques levando em conta cada loja e seus consumidores — diz Guilherme Farinelli, diretor executivo de Vendas e Canais da Aramis.
Com uma base de 14 milhões de clientes, a Aramis opera uma plataforma com 12 algoritmos voltados para previsão de demanda, planejamento de compras, recomendação de grades e direcionamento de produtos. A tecnologia trouxe ganhos de R$ 84 milhões em 12 meses, segundo o executivo.
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— Com base em 220 critérios distintos, conseguimos realizar segmentações no nível individual, o que leva a mais de 48 mil combinações e cruzamentos personalizados — diz Farinelli.
Essas análises levaram a um aumento de 29% na renovação dos estoques nas lojas e a uma redução de 25% na ruptura (quando um produto procurado pelo cliente está em falta). Outra parceria, com a empresa de software Linx, expandiu as funcionalidades da prateleira infinita.
Uma das máximas do varejo é que o consumidor deseja uma experiência individualizada, se sentir único, mesmo comprando em grandes rede com centenas de lojas.
O Boticário, por exemplo, usa IA para prever recompras com base no ciclo de consumo dos clientes de cada ponto de venda, cruzando dados de comportamento, sazonalidade e tendências regionais.
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É uma forma de o cliente receber recomendações úteis e na hora certa, bem quando aquele produto preferido está no finzinho da embalagem. Testes com IA generativa apontam aumento de 77% nos cliques.
— Conseguimos mapear o ciclo de consumo de cada produto, prevendo o momento ideal para sugerir uma recompra — diz Natalia Calixto, diretora de Gestão de Valor do Consumidor do Boticário.
Com o uso de modelos preditivos, a companhia de cosméticos conseguiu otimizar campanhas e antecipar comportamentos de compra, resultando em um aumento de até 90% na conversão em ações. No sistema integrado do Grupo Boticário, há informações de mais de 2 milhões de consumidores.
— Isso (os dados) nos permitiu reestruturar os espaços em lojas, alocando ou até criando áreas para determinados produtos. O varejo deixou de ser one to all (um para todos), one to many (um para muitos) e até mesmo one to few (um para poucos). O diferencial está em ser for you (para você), em experiências verdadeiramente personalizadas.
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Seguindo a tendência de individualizar o atendimento, a Natura aplicou IA e machine learning (aprendizado de máquina) para desenvolver um modelo de diagnóstico capilar, que analisa a textura e o nível de dano dos fios do consumidor. O resultado é um atendimento mais próximo de uma consultoria personalizada, mesmo em larga escala.
Com informações da clientela, o Carrefour Brasil personaliza suas comunicações, entregando um conteúdo individual a cada consumidor, diz Arthur Silveira, diretor de Dados e Insights da empresa.
— Mais de 95% das comunicações da empresa são personalizadas individualmente. Temos um modelo que demonstra o quanto você, consumidor, está próximo de outro grupo de consumo.
Com uma base de dados que ultrapassa 190 terabytes, o Carrefour também desenvolveu uma ferramenta que cria listas de compras automaticamente e permite adicionar os itens diretamente ao carrinho.
No setor de vestuário, o Grupo Azzas 2154, maior player de moda da América Latina e dono de marcas como Arezzo e Hering, encontrou na “arquitetura de incentivos” a chave para impulsionar sua prateleira infinita, recurso que permite ao vendedor oferecer produtos que não estão fisicamente disponíveis no ponto de venda, mas que podem ser acessados e vendidos a partir do estoque de outros canais ou unidades, como o e-commerce ou centros de distribuição..
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A empresa reformulou suas comissões para garantir o engajamento dos vendedores à modalidade. Isso se traduz para o cliente numa rede de atendimento de carne e osso mais empenhada em entregar o que ele procura, mesmo quando o produto não está na loja.
— Isso vai desde o pagamento de comissão aos vendedores que realizaram essas vendas no on-line até à criação de um programa de excelência que leva esses indicadores como gatilhos para premiações das franquias, no caso da Arezzo — diz Maurício Bastos, diretor de Tecnologia (CTO) do grupo Azzas 2154.
Duas das maiores redes de vestuário do país, Renner e C&A também investem na tecnologia. A primeira cruza dados de redes sociais e eventos para antecipar tendências e lançar novas peças com mais agilidade. A segunda analisa o comportamento de 27 milhões de clientes para entender preferências e padrões de consumo.
A C&A investiu mais de R$ 600 milhões em tecnologia nos últimos cinco anos, com crescimento de 16% nas vendas de vestuário apenas em 2024.
— Temos um ecossistema de IA que transforma dados em insights. Usamos a tecnologia para analisar o desempenho dos produtos de forma detalhada, ajudando no planejamento e na compra — afirma Bruno Ferreira, líder de dados da C&A.