O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reforçou sua segurança pessoal, incluindo a troca de camas, e se apoiou em Cuba, um aliado crucial, em meio à crescente ameaça de uma intervenção militar americana no país, de acordo com pessoas próximas ao governo local. Elas descreveram ao New York Times uma atmosfera de tensão e preocupação que tomou conta do círculo íntimo do líder chavista, acrescentando que Maduro acredita ainda estar no controle e poder superar o risco mais recente e grave de deposição do regime que lidera há 12 anos.
- Tensão militar: Trump diz que qualquer país que venda drogas para os EUA, ‘não apenas a Venezuela’, poderá ser atacado
- Ultimato expirou em 28 de novembro: Trump rejeitou pedidos de Maduro por anistia, fim de sanções e governo interino
Para se proteger de um possível ataque cirúrgico ou de uma incursão das forças especiais americanas, o venezuelano estaria mudando frequentemente de local para dormir e de celular. Segundo as fontes, essas precauções se intensificaram desde setembro, quando os EUA começaram a reunir navios de guerra no Caribe e a bombardear barcos que, segundo a Casa Branca, estariam contrabandeando drogas.
Para reduzir o risco de traição, por exemplo, Maduro também ampliou o papel dos guarda-costas cubanos em sua equipe de segurança pessoal e designou mais oficiais de contra-espionagem cubanos para as Forças Armadas da Venezuela, disse uma das fontes.
Em público, no entanto, o ditador venezuelano tem procurado minimizar as ameaças de Washington, transmitindo uma aparência despreocupada e relaxada, aparecendo em eventos públicos sem aviso prévio, dançando e postando vídeos de propaganda no TikTok.
As sete pessoas que foram entrevistadas falaram sob condição de anonimato por medo de retaliação ou porque não estavam autorizadas a tratarem do tema publicamente. Procurado pelo NYT, o Ministério da Comunicação da Venezuela não respondeu a um pedido de comentário.
O governo Trump acusou Maduro de comandar um suposto cartel narcoterrorista que inunda os Estados Unidos com drogas, uma narrativa que muitos funcionários atuais e ex-funcionários em Washington dizem ter como objetivo final uma mudança de regime. Trump, no entanto, combinou ameaças contra a Venezuela com sugestões de uma solução diplomática. Ele e Maduro conversaram por telefone no mês passado para discutir uma possível reunião.
Os enviados de Maduro e Trump discutiram as circunstâncias em que o líder venezuelano, que perdeu a eleição presidencial no ano passado, mas ignorou os resultados, poderia deixar o cargo. Essas conversas não resultaram em um acordo, levando o governo Trump a aumentar sua pressão militar.
À medida que a crise se aprofundava, Maduro se dirigia ao público venezuelano quase diariamente, mantendo uma campanha de relações públicas que caracterizou seu governo nos últimos anos. No entanto, reduziu sua participação em eventos programados e transmissões ao vivo, substituindo-os por aparições públicas espontâneas e mensagens pré-gravadas.
— Segunda-feira – festa; terça-feira – festa; quarta, quinta e sexta-feira – festa dupla; sábado – festa tripla; domingo – festa relaxada. Festa enquanto o corpo aguentar! — sentenciou Maduro no início desta semana durante uma aparição surpresa em um comício do governo em Caracas, que mudou sua rota programada pouco antes de chegar.
Logo depois, ele dançou ao som de uma música eletrônica acelerada. “Sem guerra; paz”, sua voz ecoava em loop sobre a batida do baixo. Um atirador de elite montava guarda no palco.
Para Maduro, de 63 anos, o impasse contra a armada naval americana no Caribe representa apenas o mais recente desafio ao seu governo. Ex-sindicalista, motorista de ônibus e ministro das Relações Exteriores, ele tem passado de crise em crise — a maioria criada por ele mesmo — desde que assumiu o cargo em 2013, após a morte de seu mentor e antecessor imediato, Hugo Chávez.
Líderes da oposição e comentaristas políticos acreditavam que o rude e pesado Maduro estaria fora do Palácio Presidencial em poucas semanas. O estilo de comunicação rígido e a formação civil de Maduro, segundo eles, faziam dele um sucessor inadequado para Chávez, um populista carismático e ex-comandante que inspirava devoção em seus apoiadores, incluindo soldados e oficiais que há muito tempo são os mediadores definitivos do poder na Venezuela.
Os críticos de Maduro o chamavam de “Maburro”. Seus erros virais incluíram pegar secretamente uma empanada de sua mesa e mordê-la ao vivo na televisão no auge de uma crise alimentar nacional, levar uma pancada na cabeça com uma manga jogada por uma mulher em um evento público (imortalizado no folclore venezuelano como “Mangocídio”) e ler em voz alta ao vivo na televisão um comentário de um telespectador que dizia “Nicolás Maduro, vá se danar”.
- Contexto: Maduro afasta boatos de que teria deixado a Venezuela e reaparece em Caracas após dias de silêncio
Esses primeiros erros escondiam um instinto político implacável. Desde que assumiu o cargo, Maduro sobreviveu a uma queda de 70% no Produto Interno Bruto per capita da Venezuela, várias ondas de protestos nacionais em massa e conspirações, tentativas de golpe e derrotas eleitorais.
Também resistiu à tentativa anterior de Trump de destituí-lo. O primeiro governo Trump, em 2019, implementou uma campanha de “pressão máxima” contra o venezuelano, em um esforço para ganhar o apoio dos eleitores latinos na Flórida, um estado crucial na época. O republicano reconheceu Juan Guaidó, então líder da oposição, como presidente da Venezuela e implementou sanções abrangentes contra a economia do país.
Para se manter no poder, Maduro recorreu à repressão letal, à política clientelista, ao desrespeito pelas leis e a uma compreensão inata da essência bruta do poder, uma qualidade que até mesmo seus adversários acabaram reconhecendo com relutância.
Após a morte de Chávez em 2013, ele utilizou táticas stalinistas para consolidar seu controle sobre o conturbado movimento socialista de Chávez, conhecido como chavismo.
Maduro primeiro se aliou aos linha-dura chavistas para derrubar um grupo de autoridades mais moderadas que apoiavam a flexibilização dos controles de preços e moeda ao estilo cubano para estabilizar a economia. Vários anos depois, em meio a um colapso econômico que se previa, usou o pretexto das sanções de Trump para implementar mudanças, enquanto suprimia a velha guarda chavista leal à visão socialista de Chávez.
A sobrevivência política de Maduro veio à custa da democracia venezuelana.
À medida que sua popularidade diminuía, ele acelerou o desmantelamento das normas democráticas iniciado por Chávez, eliminando a mídia independente, criminalizando a sociedade civil e proibindo concorrentes de cargos públicos. Suas forças de segurança intensificaram a repressão, aterrorizando bairros pobres com esquadrões da morte e prendendo sistematicamente manifestantes.
No ano passado, ele ultrapassou a última linha democrática, ignorando os resultados de uma eleição presidencial que perdeu por quase 40 pontos percentuais.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/A/r/aVBFhWQtyYPdv28CDm8Q/28venezuela-election-new-zlqk-superjumbo.webp)
Os dias de Maduro como organizador do sindicato dos transportes públicos de Caracas o ajudaram a desenvolver um instinto para trocar favores e formar coligações com base em interesses e ameaças, segundo pessoas que o conhecem.
— Ele é um articulador político compulsivo — disse Andrés Izarra, ex-alto funcionário do governo Chávez e ministro do governo Maduro, que rompeu com o governo e se exilou. — Segue as regras rígidas da política de rua, da política sindical corrupta, regras que são semelhantes às da máfia.
- Cerco migratório: O drama de venezuelanos deportados dos EUA que deixaram seus filhos para trás
Maduro superou suas fracas conexões militares ao longo dos anos, entregando grande parte da economia do país a generais, que receberam permissão para administrar minas de ouro, empresas de serviços petrolíferos e de importação e exportação. Sua decisão de trocar enriquecimento por lealdade o levou a tolerar o tráfico de drogas entre alguns oficiais, dizem especialistas, embora não haja evidências de que se trate de uma organização criminosa unificada controlada pelo presidente venezuelano, como afirma o governo Trump.
- Entenda: Mesmo classificado pelos EUA como grupo terrorista chefiado por Maduro, Cartel de los Soles não existe como organização real, dizem especialistas
Nas últimas semanas, Trump combinou uma retórica beligerante contra a Venezuela com sugestões de que ele negocia um acordo com Maduro.
Durante as negociações no primeiro semestre, Maduro e funcionários americanos discutiram a possibilidade de ele entregar o poder a um de seus tenentes antes do fim do mandato de Trump em 2029, de acordo com quatro outras pessoas familiarizadas com as tratativas que pediram anonimato.
Uma opção incluía a realização de um referendo na Venezuela para destituir o presidente em 2027 ou depois, um processo permitido pela Constituição do país. No caso provável de uma derrota, Maduro entregaria o poder ao seu vice-presidente, que acabaria convocando novas eleições.
As negociações, que incluíam a reorientação da economia venezuelana para o investimento e o comércio americanos, não produziram um acordo final. Qualquer acerto do tipo também poderia facilmente ser desfeito. Maduro usou seu controle sobre os tribunais e o conselho eleitoral para reprimir a tentativa da oposição de destituí-lo por meio de um referendo revogatório em 2016.
Um tratado com Trump reduziria a pressão imediata sobre o chavista, afirmaram algumas pessoas próximas ao seu governo e ex-funcionários. Mas não resolveria sua fraqueza política, que decorre da fraude eleitoral do ano passado.
A magnitude dessa derrota destruiu o que lhe restava de apoio popular de Maduro, disseram as fontes.
— A maior crise deles é a crise de legitimidade — disse Izarra, ex-ministro. — Eles negam completamente que o país os odeia. Essa crise permanecerá, mesmo que os navios de guerra americanos partam.

