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Como Netanyahu prolongou a guerra em Gaza para se manter no poder

BRCOM by BRCOM
julho 12, 2025
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Manifestantes em Jerusalém, Israel, protestam contra as mudanças propostas no sistema judicial — Foto: Avishag Shaar-Yashuv/The New York Times

Seis meses após o início da guerra na Faixa de Gaza, em outubro de 2023, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, preparava-se para encerrá-la, mas decidiu mudar o curso de suas decisões após realizar cálculos políticos que visavam manter sua relevância no governo do país. É o que concluiu uma investigação conduzida pela New York Times Magazine, que conversou com mais de 110 autoridades em Israel, nos Estados Unidos e no mundo árabe e analisou dezenas de documentos, incluindo registros de reuniões do governo, negociações, planos de guerra, relatórios de Inteligência e até protocolos secretos do grupo terrorista Hamas.

Em abril de 2024, segundo a revista, Netanyahu planejava apresentar uma proposta que suspenderia a guerra em Gaza por pelo menos seis meses, abrindo uma janela para negociações com o Hamas por um cessar-fogo permanente. Mais de 30 reféns capturados no início da guerra seriam libertados em poucas semanas, e outros seriam soltos se a trégua fosse estendida. A destruição do enclave palestino, onde cerca de 2,3 milhões de pessoas lutavam para sobreviver sob bombardeios diários, seria interrompida.

Encerrar a guerra aumentaria as chances de um acordo histórico de paz com a Arábia Saudita, o país mais poderoso do mundo árabe — feito que nenhum líder israelense havia conquistado desde a fundação do Estado, em 1948. No entanto, também havia riscos para Netanyahu, líder de uma coalizão frágil e fortemente dependente de ministros de extrema direita que queriam ocupar Gaza. Se o cessar-fogo ocorresse cedo demais, eles poderiam romper com o governo, provocando eleições antecipadas que pesquisas da época indicavam que Netanyahu perderia.

Fora do cargo, ele estaria vulnerável: desde 2020, respondia a um processo por corrupção — acusações que ele nega, relacionadas a supostos favores a empresários em troca de presentes e cobertura favorável da imprensa. Sem o poder do cargo, perderia a capacidade de demitir a procuradora-geral que conduzia sua acusação.

  • Em fevereiro: Premier de Israel comparece a tribunal em Tel Aviv para depor em julgamento sobre casos de corrupção

Agora, quase dois anos após o início da guerra, muitos israelenses acreditam que o conflito ainda não terminou por culpa principalmente do Hamas, que se recusa a se render, mesmo diante de perdas humanas incalculáveis no enclave, que já chegam a 57 mil, segundo cálculos das autoridades de Saúde locais. A maioria também vê a expansão da guerra para o Líbano e o Irã como um ato necessário de autodefesa contra aliados do grupo palestino que também querem destruir Israel. Ao mesmo tempo, porém, cresce o número de pessoas que acreditam que Israel poderia ter fechado um acordo antes — e acusam Netanyahu, que tem autoridade final sobre a estratégia militar do país, de impedir que isso ocorresse.

Todas as pessoas ouvidas pela NYT Magazine — apoiadores e opositores à guerra — concordaram com um ponto: o de que a extensão e a expansão da guerra foram politicamente benéficas para Netanyahu. A apuração da revista chegou a três conclusões inevitáveis: 1) a estratégia de Netanyahu em relação ao Hamas nos anos anteriores à guerra fortaleceu o grupo; 2) seu esforço para enfraquecer o Judiciário israelense meses antes do ataque fez Israel parecer vulnerável e encorajou o Hamas a preparar a ofensiva; 3) uma vez iniciada a guerra, muitas das decisões do premier foram moldadas principalmente por necessidades políticas e pessoais.

Em julho de 2023, um relatório da Inteligência militar israelense concluía que o país corria perigo. Israel vivenciava uma crise interna provocada pelo polêmico plano — impulsionado pelo governo Netanyahu — de aumentar o controle sobre o Judiciário, e centenas de milhares de cidadãos, incluindo reservistas militares, participavam de protestos semanais contra a medida. Segundo o documento, os principais inimigos do Estado judeu (o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano, e o Irã) discutiam se o país estaria vulnerável o suficiente para ser atacado.

Em 23 de julho daquele ano, os protestos atingiram seu ápice: 10 mil reservistas ameaçaram suspender seus serviços se Netanyahu seguisse com a votação da reforma no Parlamento, marcada para o dia seguinte. Pressentindo o desastre, o comandante das Forças Armadas de Israel, Herzi Halevi, tentou convencer Netanyahu a ler o relatório. Era a quarta tentativa de alertar o premier — que havia ignorado todos os apelos — e havia outro problema: daquela vez, Netanyahu tinha sido internado em um centro médico fora de Tel Aviv.

Manifestantes em Jerusalém, Israel, protestam contra as mudanças propostas no sistema judicial — Foto: Avishag Shaar-Yashuv/The New York Times

Halevi não tinha como ter acesso a ele, mas convenceu o principal assessor militar do premier, Avi Gil, a levar pessoalmente o relatório ao quarto do líder israelense. Faltavam apenas 16 horas para a votação no Parlamento começar quando Gil apresentou a carta do general, mas Netanyahu permaneceu indiferente. Sua coalizão de apoiadores de extrema direita e de judeus ultraortodoxos criticava o tribunal, e o primeiro-ministro não queria contrariar esses aliados porque, sem o apoio deles, ele viria a ser apenas um deputado da oposição, réu por corrupção.

— Estou lhe dando um alerta estratégico de guerra — disse Ronen Bar, chefe do serviço de inteligência interna de Israel (Shin Bet), em ligação com Netanyahu, que mais uma vez se manteve impassível, segundo relatos à revista. — Não sei quando, não sei onde, mas estou lhe dando um alerta.

  • Entenda: Como o massacre de jovens soldados no ataque do Hamas virou símbolo dos fracassos de 7 de outubro para Israel

Quando a votação foi aprovada no dia seguinte, o impacto sobre a população israelense foi imediato: novos confrontos irromperam naquela noite entre apoiadores e críticos do premier, e reservistas começaram a cumprir sua promessa de renunciar. Dois dias depois, o Hamas fez sua própria avaliação da situação, considerando, segundo registrado na ata de uma reunião secreta em Gaza, que era hora de pôr o plano de ataque em larga escala contra Israel em prática.

Netanyahu soube do ataque de 7 de outubro às 6h29, quando foi despertado por Gil com uma ligação via WhatsApp. A conversa foi breve: o assessor pedia que o primeiro-ministro despertasse de verdade e prometia ligar novamente em poucos minutos, dessa vez no telefone criptografado do premier, que grava automaticamente as conversas para registro oficial. Às 6h40, Gil ligou para essa linha com mais detalhes, e Netanyahu questionou se era possível eliminar as lideranças do grupo.

— O Exército já está começando [a fazer] isso — respondeu Gil. — Estamos em guerra.

  • Relembre: Sem precedentes nas últimas décadas, ataque terrorista do Hamas deixa centenas de mortos em Israel

Foi então que o premier deu o primeiro indício de que tentaria prolongar sua vida política. Naquela ligação gravada, Netanyahu fez questão de destacar que não havia recebido alertas específicos sobre uma invasão frontal vinda de Gaza. Mais tarde, ele também se queixou publicamente de que fora acordado tarde demais, afirmando que, se tivesse sido alertado antes, a catástrofe poderia ter sido evitada.

Nos primeiros meses do conflito, Netanyahu buscava um equilíbrio quase impossível: tentava satisfazer o então presidente dos EUA, Joe Biden, sem alienar a extrema direita israelense. O desafio ficou evidente em 17 de outubro, quando o premier ficou paralisado entre as exigências americanas, que visavam à entrada de ajuda em Gaza, e as dos ministros de seu Gabinete, que insistiam que o bloqueio fosse mantido. Naquela altura, a sociedade israelense, ainda profundamente traumatizada pelo ataque, que deixou mais de 1.100 mortos e 251 reféns, opunha-se a qualquer gesto humanitário. Ao calcular o impacto da ajuda fornecida pela Casa Branca, porém, Netanyahu cedeu aos apelos de Washington.

Dias depois, porém, Israel lançou uma invasão terrestre em Gaza, e tanto o governo Biden quanto os principais comandantes israelenses passaram a pressionar Netanyahu para planejar como o enclave poderia ser governado após uma eventual derrota do Hamas. Como resposta, o primeiro-ministro evitava discutir em detalhes o que pretendia, e diplomatas e oficiais de Defesa dos Estados Unidos descobriram que seus equivalentes israelenses estavam proibidos pelo governo de discutir o futuro do enclave.

A frustração americana aumentou após o breve cessar-fogo de novembro de 2023, quando mais de 100 reféns foram libertados em um acordo que incluía a soltura de 240 prisioneiros e detentos palestinos. Netanyahu disse precisar de mais tempo para capturar Khan Younis, e Biden chegou a perder a paciência. Autoridades de alto escalão em Washington passaram a revirar os olhos sempre que o israelense dizia precisar de “mais duas semanas” para concluir um último objetivo militar. Para eles, estava claro que o premier queria prolongar a guerra.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visita o norte da Faixa de Gaza em meio à ofensiva militar no território, em 15 de abril de 2025 — Foto: GPO / AFP
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visita o norte da Faixa de Gaza em meio à ofensiva militar no território, em 15 de abril de 2025 — Foto: GPO / AFP

Naquela altura, se Netanyahu quisesse, um novo cessar-fogo estava ao alcance. O Exército estava prestes a concluir seu plano inicial e se preparava para retirar os últimos reservistas de Gaza. E Gadi Eisenkot, ex-general centrista que se juntou ao Gabinete em outubro de 2023, disse que os reféns só seriam libertados com vida por meio de negociações. Sem ver muito benefício imediato na captura de Rafah, Halevi também recomendou que Israel fechasse um segundo acordo de reféns e voltasse sua atenção para o Hezbollah no Líbano.

No entanto, pressionado pelos ministros Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, chefes de dois partidos de extrema direita que lhe davam sustentação no Parlamento, Netanyahu levava Israel por outro caminho. Ele começou a falar em alcançar uma “vitória total” sobre o Hamas — objetivo que parecia descartar a ideia de uma trégua rápida — apresentou a captura de Rafah como uma prioridade estratégica e fez novas exigências para um cessar-fogo. Autoridades americanas chegaram a citar pesquisas que mostravam que mais de 50% dos israelenses agora apoiavam um acordo de reféns, mas o premier se limitou a responder: “Não são 50% dos meus eleitores”.

Somado a isso, Netanyahu travou uma batalha pública e nos bastidores para desviar a culpa pelo ataque de 7 de outubro de 2023 para o aparato de segurança. Enquanto ainda havia combates no sul de Israel, a equipe do premier começou a informar influenciadores e comentaristas aliados de que os generais deveriam ser responsabilizados pelo ocorrido. O próprio Netanyahu passou a defender esse argumento, embora tenha voltado atrás após ser acusado de semear divisão num momento crítico.

Ele e seus assessores mais próximos, porém, continuaram atuando. Primeiro, o chefe de Gabinete do primeiro-ministro, Tzachi Braverman, requisitou as transcrições das reuniões de segurança confidenciais sobre Gaza desde 2021, violando o protocolo do governo. Depois, assessores do premier tentaram impedir o vazamento de conversas que poderiam prejudicá-lo, ordenando que o Exército desligasse uma máquina que fazia gravações oficiais das reuniões entre Netanyahu e os generais. Mais para o fim de outubro, essas reuniões foram transferidas para outra sala sem aparatos de gravação permanentes, permitindo que os assessores de Netanyahu usassem seus próprios aparelhos para fazer os registros, ao mesmo tempo em que impediam os militares de fazerem os seus. Eles ordenaram aos guarda-costas de Netanyahu que revistassem os generais, incluindo Halevi, o chefe do Exército, em busca de microfones escondidos.

Em seguida, Braverman instruiu arquivistas a alterarem os registros das ligações telefônicas de Netanyahu no dia 7 de outubro. E, em 2024, Eli Feldstein, porta-voz contratado pelo Gabinete do premier no início da guerra, tentou vazar para a imprensa um conteúdo confidencial para fortalecer a narrativa do governo. O texto era um memorando estratégico do Hamas que havia sido interceptado pelas forças israelenses. O documento era mantido sob sigilo pelo Exército porque sua publicação poderia revelar como Israel monitora as comunicações do grupo.

  • Assessor de Netanyahu é preso: Suspeita é de vazar documentos sigilosos e dificultar acordo de cessar-fogo em Gaza

Parte do material indicava que o Hamas estava disposto a fazer concessões nas negociações. Outra parte, contudo, sugeria que o grupo deveria usar guerra psicológica para desestabilizar as famílias dos reféns israelenses — aumentando assim a pressão sobre o governo de Israel para fazer concessões. Para a equipe de comunicação de Netanyahu, essa segunda parte era a mais útil. Se publicada, poderia ser usada pelo premier para alegar que os manifestantes em Israel que pediam um cessar-fogo estavam, na verdade, fazendo o jogo do Hamas.

O problema para Feldstein era que não era possível vazar esse documento para a imprensa israelense, já que jornalistas locais precisam submeter suas matérias à censura militar antes da publicação. Depois que a censura negou autorização para divulgar o conteúdo em Israel, Feldstein decidiu enviar o material para o jornal Bild, tabloide alemão de direita com ampla circulação. Em 6 de setembro, o veículo publicou trechos do documento, ignorando as partes que mostravam a disposição do Hamas para negociar um cessar-fogo.

Em 8 de setembro, Netanyahu citou o artigo para argumentar que seus críticos estavam, sem saber, servindo aos interesses do Hamas. A retórica prevaleceu, e os protestos perderam força no país.

O ataque brutal do Hamas contra Israel foi o que desencadeou a guerra. Ao se recusar a se render e ao se entrincheirar sob instalações civis, o Hamas também tem responsabilidade pelos horrores que se seguiram. No entanto, à medida que o conflito deixou de ser uma batalha existencial e se transformou em uma guerra de desgaste — com outros líderes israelenses questionando a lógica por trás de sua continuidade —, foi Netanyahu quem a prolongou, publicou a NYT Magazine:

“Foi Netanyahu quem se recusou a planejar uma transição de poder no pós-guerra, e foi Netanyahu quem repetidamente adiou um cessar-fogo. Temendo por sua própria sobrevivência política, Netanyahu vinculou seu destino aos sonhos dos extremistas israelenses e prolongou a guerra para manter o apoio deles”, acrescentou a revista americana.

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Mais de 20 meses depois do início da guerra, Israel está, sob algumas interpretações, mais seguro com o resultado. A derrota do Hezbollah, o enfraquecimento do Irã e o colapso do governo sírio talvez não tivessem ocorrido se a guerra tivesse terminado no início de 2024.

Ao mesmo tempo, a reputação internacional do Estado judeu atinge o ponto mais baixo de sua História, e a Corte Internacional de Justiça avalia se o país, fundado após um genocídio, é culpado de cometer outro. O Tribunal Penal Internacional já emitiu um mandado de prisão contra Netanyahu, que terá como legado uma das maiores catástrofes do século, capaz de manchar a imagem de Israel por anos. Ainda assim, para o premier, conclui a revista, houve um ganho notório: ele sobreviveu.

Como Netanyahu prolongou a guerra em Gaza para se manter no poder

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