A decretação da prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro por descumprir medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pode pôr em suspenso as tentativas do governo brasileiro de incluir mais produtos na lista de isenções ao tarifaço de 50% determinado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas não deve ter um efeito significativo nos mercados financeiros na manhã de hoje, avaliam analistas ouvidos elo GLOBO.
Para Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central, câmbio e Bolsa devem reagir negativamente à decisão hoje:
— Vai respingar nos ativos. Não que não fosse esperado em algum momento, mas acho que pode, sim.
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Fabricio Voigt, economista da Aware Investimentos, diz que a prisão pode aumentar incertezas e pressionar os índices do mercado:
— Amanhã (hoje) dificilmente será um dia normal. Bolsa deve declinar, juros futuros devem subir, câmbio subir. Todos vão aguardar qual será o posicionamento por conta da incerteza. É possível que Trump reveja algum item da lista de isenção, como forma de pressão.
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Para Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro pode “acender ainda mais” o cunho político da política comercial agressiva da administração de Donald Trump contra o Brasil. Na visão dele, o movimento tende a piorar as negociações comerciais entre Brasília e Washington.
— Se não cessar as negociações temporariamente, pode piorar o diálogo entre Brasil e Estados Unidos.
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Ele chama a atenção para a motivação política do tarifaço de Trump, já que o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos:
— A prisão do Bolsonaro com certeza pode acender ainda mais esse cunho político ou talvez soar como uma retaliação do próprio (ministro Alexandre de) Moraes sobre as sanções impostas (o ministro — declarou.
Para Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral, a prisão não deve influenciar:
— Não creio que fará uma diferença.
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Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos tem visão mais otimista. Ele aponta que as tensões entre o ministro e o ex-presidente já vinham crescendo desde a imposição do uso da tornozeleira eletrônica:
— Na margem, piorou um pouco, mas não é grande surpresa. Ele já estava super restrito, e (o quadro) se agravou por conta do descumprimento de orientações.
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Ele só prevê efeito nos mercados se houver alguma retaliação comercial por parte de Trump e se este movimento atrapalhar negociações entre Brasil e EUA.
Para a economista Zeina Latif, a decisão de Moraes poderia trazer retaliações dos americanos contra o ministro do STF e não contra a equipe do governo que lidera as negociações, chefiada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
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— Se os EUA reagirem, imagino que seria contra Moraes e o STF, restringindo operações do ministro em bancos brasileiros com operação nos EUA — ela diz.
A preocupação é que Trump condicionou a retirada das tarifas ao fim do processo de Bolsonaro no STF, com uso político das tarifas, que não foi adotado nas negociações com outros países.
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‘Momento de ficar quieto’
Na visão de José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil, a prisão cria um novo obstáculo para as conversas:
— Pode impactar a perspectiva de aumento da lista de isenções, colocando em suspenso essa negociação de lista. Aparentemente, havia um movimento de reaproximação (com a fala de Trump que aceitaria atender o presidente Lula), mas no curtíssimo prazo, nada deve acontecer.
Para ele, o momento é de as autoridades envolvidas nas tentativas de negociação não darem declarações sobre a prisão de Bolsonaro:
— É o momento de ficar quieto e aguardar um pouco para ver o que vai acontecer.
Analistas de mercado se dividem sobre os efeitos em Bolsa, câmbio e juros. Uns avaliam que a prisão já estava na conta de investidores, mas outros veem efeito, diante do uso político das tarifas por Trump.
Depois que Trump anunciou em 9 de julho que as tarifas de importação para os produtos brasileiros seriam de 50%, o governo americano preparou uma lista de isenções com 694 itens dos mais de 4 mil que o Brasil exporta para os EUA.
Nessa relação, ficaram de fora produtos como carnes e café. Havia a expectativa de o café ficar isento, pela dificuldade de os americanos conseguirem ter um substituto em tempo hábil para o produto brasileiro.
Posição do país não muda
Segundo interlocutores do governo Lula, é preciso saber se a Casa Branca está disposta a restringir o diálogo à pauta comercial. Pessoas que acompanham de perto o impasse afirmam que, caso haja um movimento de Washington para que os dois líderes conversem pela primeira vez, será necessário avaliar se Trump está disposto a manter o foco na relação comercial bilateral, sem utilizar a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro como instrumento de pressão.
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A partir disso, haveria uma preparação prévia, nos bastidores, sobre os temas a serem abordados, quem faria a ligação e quando ela ocorreria.
Integrantes do governo envolvidos no tema evitaram comentar a decisão de Moraes — que desde a semana passada é alvo de sanções econômicas pelos EUA —, mas asseguraram que a posição do Brasil em uma negociação com os EUA não vai mudar, mesmo se a pressão de Trump para incluir o Judiciário brasileiro nas conversas aumente.
A avaliação em Brasília é que, se algo der errado em uma chamada entre Lula e Trump, o prejuízo para os interesses do Brasil pode ser ainda maior. Por isso, o governo prefere evitar riscos e não se sente obrigado a dar uma resposta imediata à opinião pública. A principal preocupação neste momento é com os setores econômicos afetados pelo tarifaço.