Educar para libertar. Este é o lema do Solar Meninos de Luz, em Copacabana, um colégio sem fins lucrativos que recebe cerca de 400 alunos de duas comunidades da Zona Sul: Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, que ficam entre Copacabana, Ipanema e Lagoa. A formação, que mira no desenvolvimento interdisciplinar dos alunos, começa desde o ventre, com um processo de orientação às grávidas em situação de vulnerabilidade, e vai até o final do ensino médio.
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Segundo Isabella Maltaroli, cofundadora e diretora do colégio, os alunos entram no turno da manhã e saem somente no fim da tarde. Ao longo do dia, eles usufruem de refeições balanceadas por uma equipe nutricional e contam com mais de 30 oficinas de livre escolha, além da grade formal de aulas. As opções são variadas: idiomas, instrumentos, esportes, teatro — a lista é longa. O foco está na educação integral 360°, explica:
— A nossa proposta é investir em todas as dimensões da vida do aluno para formar cidadãos críticos. Trabalhamos saúde, acompanhamos as famílias e mantemos encontros mensais com os pais. Um diferencial é que o serviço social atua dentro do projeto, em parceria com o posto de saúde, Cras e outros órgãos públicos. Recebemos campanhas de vacinação e orientações sobre CadÚnico e Bolsa Família, além de oferecermos apoio psicológico, odontológico e acesso a exames e óculos gratuitos ou com desconto.
A instituição, conta Isabella, também ampliou iniciativas de educação inclusiva: investiu em sala de recursos para alunos neurodivergentes, mantém parceria com a clínica Crearte — com encaminhamento feito pela psicóloga da casa — e recebeu, durante dois anos, a supervisão da ONG Para Todos visando a capacitar toda a equipe. Hoje, pelo menos 10% do quadro é formado por pessoas com deficiência, e agentes de apoio à educação inclusiva e mediadores foram contratados para contemplá-las e atender às novas exigências legais. O resultado disso é refletido, também, no vestibular.
— Os nossos alunos costumam tirar notas acima de 900 na redação do Enem, número bem superior à média nacional. E o Solar faz parte de 15% das escolas que estão com as maiores médias de classificação no Inep — reitera.
Jeferson Amaral, ex-aluno do Solar e hoje doutorando em Ecologia da Evolução no exterior, destaca o impacto decisivo da instituição em sua trajetória.
— Tudo que o Solar ofereceu durante os quase dez anos que estive por lá foi e ainda é muito importante e fez a diferença na minha vida. O ensino formal, o apoio médico dos voluntários, as oficinas de musicalização (coral, violoncelo, teatro e percussão) e as vivências com voluntários de vários lugares do mundo influenciaram muito do ser humano que sou. Devo tudo que sou a eles, sem dúvida — afirma.
Ele conta que já retornou para a escola como voluntário, dando aulas de percussão, e vê isso como uma forma de retribuição:
— Todos os professores e voluntários tiveram grande influência nesse caminho enquanto eu era mais novo. Semanas atrás, me peguei revendo vídeos de quando fui voluntário e pensei: “Onde devem estar essas criaturinhas agora?”. Tenho certeza de que o pouco que contribuí para a formação deles teve algum impacto — completa.
Isabella conta que a origem do Solar aconteceu após uma tragédia no Natal de 1983, quando o deslizamento de uma caixa d’água no alto do Pavão-Pavãozinho destruiu casas e deixou 14 mortos. Desde então, sua mãe, que era vizinha da comunidade, passou a subir o morro diariamente para oferecer apoio espiritual e social, mantendo, ao longo de oito anos, um trabalho voluntário que ganhou a confiança dos moradores. Em 1991, ela fundou uma creche que se transformou progressivamente em uma instituição de ensino integral. Hoje, o Solar tem o apoio do Criança Esperança, do Google Scholar, da prefeitura do Rio e de empresas.
*Esta matéria foi publicada em 30 de novembro, no especial Educação do GLOBO-Zona Sul

