Participe da nova seção do GLOBO ‘Conte sua história de amor’! É só mandar seu relato, com no mínimo 4 mil caracteres e no máximo 5 mil, para o e-mail historiadeamor@oglobo.com.br. É preciso se identificar e mandar um telefone para contato. No entanto, caso prefira, a publicação pode ser anônima. As histórias selecionadas pela nossa equipe serão publicadas a cada 15 dias na versão digital (às quintas-feiras) e impressa (aos sábados) do jornal. Não é preciso ser escritor, apenas ter um conteúdo verdadeiro, vivido por você e com emoção genuína. Qualquer tipo de amor vale a pena!
Confira a história desta semana, enviada por Ellen Watson von Windheim:
Eu falo alemão. Uai, e daí? Eu conto.
Quando eu nasci, meus pais moravam num apErtamento térreo, em Copacabana, de frente para o mar. Ali permanecemos até meus 4 anos de idade, quando nos mudamos para a Ilha do Governador (pouco depois de haver a ponte de ligação). De um apartamento de quarto e sala, fomos para uma casa de seis (!) quartos, linda, rodeada de jardins. Minha mãe, professora, foi lecionar na outra extremidade da Ilha. Meu pai trabalhava no centro da cidade. O transporte público ligando os bairros da Ilha era a lotação, algo bem menor que um ônibus e que passava de meia em meia hora. Minha mãe, coitada, nem sei como conseguia. Ela dava aula no turno da tarde. A nítida recordação que tenho desse período era o de estar sentada na ‘banquinha’, enquanto ela me dava de comer. E eu era enjoada para comer, tinha que fazer aviãozinho, sabe? Sobrevivemos a essa primeira etapa de adaptação. Meu pai (alemão), todavia, percebeu a dificuldade pela qual minha mãe passava e resolveu colocar anúncio num jornal alemão de circulação no Rio, procurando senhora que pudesse cuidar de mim e da casa. Não tardou a se apresentar uma, recém chegada ao país – era a D. Käthe, beirando os 50 anos de idade. E aqui começa essa história.
D. Käthe era modista em sua cidade natal, Bremerhaven, na Alemanha. Era casada com um oficial da Marinha Mercante alemã. Não tinham filhos. Devido à 2ª Guerra Mundial, o casal ficou separado por 11 anos. O navio do sr. Hermann foi retido no Rio de Janeiro; ele perdeu o emprego. Em condições precárias, foi morar na casa de um casal, igualmente alemão, e passou a trabalhar como mecânico. Deu para beber. Esse foi o quadro com que a esperançosa D. Käthe se deparou ao ir ao encontro do Oficial de Marinha a quem, dos áureos tempos, não restava mais nada. O anúncio do jornal parecia então vir a calhar. Assim D. Käthe entrou em nossas vidas, em minha vida.
Meus pais saíam para trabalhar e ficávamos nós duas – uma só falando alemão; eu, só o português. Comecei apontando para os objetos, com a seguinte frase: “Was ist das?” = O que é isso? Em quatro meses nesse ‘intensivão’, eu já falava fluentemente. Criança aprende rápido. Meu pai ficou todo orgulhoso. Minha mãe bem que se empenhou, porém naquela época o método de ensino de uma língua estrangeira era penoso, sem recursos visuais e com muita gramática. – Para quem não sabe, a gramática alemã é bem enjoadinha, com declinações, formação de frases diferente… – E o tempo foi passando. D. Käthe – eu passei a chamá-la de Tante Käthe (tia) – ficava lá em casa de segunda a sábado, quando ia passar o final de semana com o marido, bêbado, em casa de estranhos. Não é difícil imaginar que me tornei para ela a filha que nunca teve e ela, minha segunda mãe. Nos divertíamos muito, nos finais de tarde, quando nos reuníamos no jardim, com minha amiguinha Neuza, sr. Armando, o velho português jardineiro da vizinhança, e a Cenira, mais tarde contratada para ajudar no serviço da casa. Ah, às vezes também o Otto, vizinho e mecânico de todos os carros da redondeza. Era uma harmonia só, esperando pela chegada de meus pais, no Jeep Land Rover.
Houve uma tarde, no entanto, que fugi e me escondi na casa de vizinhos. É que eu havia quebrado o vaso sanitário, num movimento infeliz quando tomava banho. Nunca levei uma surra, apenas palmadas esporádicas. Achei que naquele dia seria a minha ‘estreia’. Ufa, não foi. Fui compreendida. Curioso é que eu pintava o sete com D.Käthe, desamarrava a faixa do avental que usava, só para ela correr atrás de mim, qual crianças arteiras. Quando eu caía e ralava os joelhos, abria o berreiro. Ela vinha avaliar a gravidade do machucado. Constatando que era um tombo de nada, desandava a rir. Era para eu ficar furiosa, esquecer os joelhos sangrando um bocadinho e me levantar do chão. Estratégia de cura. Mas D. Käthe nunca me deu um beijo. Os alemães são mesmo meio secos para essas coisas. Recordo, com nitidez, de um vestidinho que ela fez para mim. Era branco, com bolas coloridas e que recebeu botões igualmente coloridos. Seguimos assim nossas vidas.
Nunca fui criança mimada, apesar de filha única. Minha mãe tinha pavor de que isso pudesse acontecer. Já D.Käthe me fazia uma vontade ou outra. Ai, que minha mãe visse! Fato curioso é que mamãe não conseguiu aprender alemão e D. Käthe, de português, só falava três ou quatro palavras. Mas elas se entendiam. Um dia, com visitas em casa, D. Käthe veio cumprimentá-las (já as conhecia) e, sorridente, exclamou “Cala a boca”, crente de que se tratava de uma saudação amigável. Passado o instante da surpresa, todos caímos na gargalhada; menos D.Käthe, naturalmente, que não entendeu nada.
Até que meu pai adoeceu, teve de ser aposentado e o orçamento doméstico encolheu. Tivemos que sair daquela casa para uma bem menor, em outro bairro. Desfez-se o quadro harmonioso. Minha mãe, já aposentada, precisou voltar a trabalhar. E eu comecei, aos 16 anos. D. Käthe não nos deixou. O marido faleceu. Meu pai, pouco depois. D. Käthe estava com glaucoma e quis voltar para a Alemanha, receando ficar cega e nos dar trabalho. Ainda que assim fosse, desejávamos tê-la conosco. Foram 15 anos de convivência! Mas ela insistiu e, mais que isso, quis que conhecêssemos sua terra e a de meu pai.
Na ocasião ainda se viajava… de navio! Em lá chegando, um choque. Os familiares não demonstraram o carinho que ela esperava (e que tinha em nosso convívio). Sequer lhe ofereceram um quarto. Ela teve que alugar e montar um pequeno apartamento. Despedimo-nos com dor no coração e pela primeira vez houve troca de beijos. O contato então era por cartas.
Passaram-se os anos. Ela quis voltar para nós, decepcionada com a indiferença dos parentes, sozinha. Os médicos não autorizaram a viagem, estava enfraquecida. Então fui eu lá. Tante Käthe, a essas alturas, tinha severas restrições alimentares. Isso não a impediu – fez questão – de me levar a diversos restaurantes para que eu conhecesse e experimentasse vários peixes de sua Bremerhaven. Eu comia com lágrimas saltando dos olhos. Também fomos uma noite ao teatro. Ela queria me proporcionar tudo o que de melhor houvesse em sua terra. Ah, o quanto aquilo me doía, soava uma despedida sem volta. E foi. Chorei a viagem inteira. D. Käthe estava com câncer e morreu sozinha, aos 68 anos, internada numa clínica. Dói até hoje. Contemplo seu retrato com amor e gratidão.
Foi assim que perdi minha segunda mãe, D.Käthe. Sou grata, pois foi como fiquei sabendo, de verdade, o que é amor incondicional.
Queria prestar esta homenagem, consciente de que o alemão aprendido com ela me abriu portas e me valorizou no mercado de trabalho.