Falecido, este domingo, o cartunista Jaguar foi fundador, em 1969, ao lado dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, do Pasquim. Irreverente e combativo, o jornal marcou a imprensa alternativa que floresceu à sombra ditadura militar e congregou alguns dos maiores expoentes do jornalismo e das artes brasileiras, como Millôr Fernandes e Ziraldo, Henfil, Paulo Francis e Sérgio Augusto.
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Aos 83, Sérgio se recorda de ter conhecido Jaguar ao ser levado pela primeira vez à redação do jornal Tribuna da Imprensa, no Rio, onde começaria sua vida jornalística, em 1960, com apenas 18 anos de idade.
— Ele estava apresentando um cartum pornográfico, absolutamente obsceno, que tinha feito para o Dia das Mães. Esse foi o primeiro impacto que eu tive com o Jaguar. Ficamos amigos pelo resto da vida. Ele foi um dos grandes cartunistas que eu conheci ao vivo e em cores. O Paulo Francis dizia que o Jaguar era o único gênio burro. Ele escrevia muito bem, e de forma simples, tinha muito humor — conta o jornalista, que acabou sendo demitido do Pasquim… por Jaguar! — Foi porque eu falei mal do jornal no próprio jornal. Depois, ele disse que me demitiu porque estava de porre, mas que não voltaria atrás na decisão. E nem por isso deixamos de ser amigos!
Sérgio Augusto se diverte ao lembrar dos comentários feitos entre os amigos sobre o fígado de Jaguar que, por resistir a sucessivas bebedeiras, bem que deveria ser doado ao Smithsonian (célebre instituição educacional e de pesquisa associada a um complexo de museus, fundada e administrada pelo governo dos Estados Unidos).
— Eu nunca vi o Jaguar de porre! — jura. — É um milagre ele ter chegado aos 93 anos.
Para o cartunista Miguel Paiva Jaguar foi, junto com o Tarso de Castro, Ziraldo e Sérgio Cabral, “o coração do Pasquim”.
— Depois, muita gente se juntou ao jornal, inclusive eu. Jaguar sempre foi super gentil com todos. Eu era o mais jovem mas assim mesmo trabalhamos muito bem juntos. Ele era um desenhista extraordinário. Desenhava de um jeito muito particular: começava pelos pés e chegava até a cabeça, sempre de um jeito único — observa. — Jaguar era do Rio de Janeiro e deixava transparecer isso o tempo todo. Era brilhantes, sagaz, inteligentíssimo e nos passava um espírito de independência muito grande. Produziu até o fim. Continuava desenhando e, sempre que nos encontrávamos, ele estava ali com seu humor particular, cheio de energia.
Outro de seus companheiros de Pasquim, o cartunista Claudius conta ter conhecido Jaguar em 1957, na revista Manchete, em 1957, “onde nos revezávamos na publicação da última página de humor, criada por Borjalo, que acabava de ter seu passe comprado pela revista O Cruzeiro:
— Antes da internet, o jeito era levar presencialmente a página para a redação. Numa dessas vezes, Jaguar me mostrou a dele, onde havia cinco ou seis quadros, desenhados com estilos diferentes. “Desenhei imitando os cobras franceses, Bosc, Chaval, André François… De qual você gosta mais?” perguntou-me ele. Olhei a página e apontei, sem hesitar, um dos quadros. “Mas esse é o meu desenho!” disse ele. Era o melhor.
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Claudius lembra bem dequando Jaguar o chamou, em 1969, para trabalhar com ele num nova publicação.
— Era mais uma tentativa de fazer um jornal humorístico. A hora não podia ser menos propícia, a hora era completamente errada. Como fazer gozação dos militares em plena ditadura? Mas dessa reunião surgiu um jornal de poucas páginas, impresso em papel da pior qualidade, em preto e branco. Jaguar disse: “Essa turma vai nos criticar, achar que é um jornal de bairro, um pasquim. Então vamos logo chamar ele de O Pasquim!” — conta. — A história do Brasil, pelos olhos de Jaguar, é mais real e mais divertida do que qualquer outra que tenha sido publicada.
Para Claudius, o Brasil perde “um crítico mordaz e independente da política brasileira e do jeito de ser dos brasileiros”.
— Perde alguém capaz de encontrar humor em situações consideradas “sérias” para religiosos, para pessoas que se julgam importantes, para militantes de qualquer tendência partidária, para fanáticos de todos os tipos — acrescenta. — Perdemos todos também pelo jeito de Jaguar desenhar (ele, que dizia nunca ter aprendido), com um traço que, às vezes, parece quase um rabisco, uma anotação para não perder uma ideia que acontece num momento e que, se não for aprisionada na hora, desaparece para sempre.