O Canadá deixou escapar a liderança de seu grupo e não jogará mais em Vancouver nesta Copa do Mundo; o jogo de hoje, contra a África do Sul, que abre o mata-mata às 16h (de Brasília), será em Los Angeles. Mas seu técnico, Jesse Marsch, pode se considerar voltando para casa, embora isso não signifique que a recepção será das melhores.
Por ser americano, Marsch foi comparado à série “Ted Lasso” quando se aventurou a treinar um clube inglês — sem o final feliz da ficção. Ele também acumulou atritos com o presidente Donald Trump e com ex-companheiros da seleção dos EUA, que jogará poucos dias depois, também na Califórnia. A expectativa do próprio Marsch é de torcida desfavorável contra os sul-africanos, mesmo o Canadá sendo país-sede.
– Nós sabemos como é sair do país e jogar nos EUA. Teremos que estar prontos para isso – afirmou o treinador após a derrota para a Suíça, que deixou o Canadá em segundo no grupo e antecipou a experiência de jogar fora de casa nesta Copa.
Um ex-meio-campista que passou boa parte da carreira no Chicago Fire (EUA), Marsch é conhecido desde os tempos de jogador pelo jeito explosivo e algo falastrão, que agora chama atenção na área técnica nesta Copa do Mundo.
Na goleada canadense sobre o Catar, pela segunda rodada, ele comemorou o 6 a 0 com dancinhas e gestos de “seis” para a arquibancada, o que provocou uma discussão com Julen Lopetegui, o técnico rival. Ao fim da fase de grupos, ele admitiu ter feito uma “cortina de fumaça” ao sugerir a escalação do lateral-esquerdo Alphonso Davies, do Bayern (ALE), diante da Suíça. Davies, que se recupera de lesão, acabou não saindo do banco contra os suíços, mas “estará pronto” para jogar contra a África do Sul, segundo Marsch.
Como quem fala o que quer, ouve o que não quer, Marsch teve que se acostumar a ouvir bastante. Dias antes da estreia neste Mundial, ao elogiar o “orgulho dos jogadores canadenses em defender seu país”, Marsch os comparou à seleção dos EUA e disse que “às vezes precisava implorar aos jogadores para cantarem o hino” na Copa de 2010, quando foi auxiliar do técnico americano Bob Bradley.
A fala irritou o ex-jogador Clint Dempsey, um dos astros daquela seleção dos EUA – fez um gol na final da Copa das Confederações do ano anterior, contra o Brasil.
— Eu não consigo levar esse sujeito tão a sério. Não vou receber conselhos de alguém que mudou de lado e está cantando o hino de outro país agora – reagiu Dempsey, em uma mesa-redonda do canal Fox.
Outro ex-jogador americano, o icônico Alexi Lalas, disse no ano passado que a seleção dos EUA “alugou um triplex na cabeça” (em inglês, “live rent-free in the head”) de Marsch. Foi uma ironia de Lalas com o fato, admitido pelo próprio Marsch, de que o treinador do Canadá sonhou com assumir a equipe dos EUA no fim de 2023, quando o ex-técnico Gregg Berhalter foi demitido.
Lalas também declarou, na mesma época, que desejava ver o Canadá de Marsch e os EUA de Mauricio Pochettino frente a frente em um jogo de mata-mata. Coincidência ou não, o desafio de Lalas – um assumido eleitor trumpista – foi feito pouco depois de Marsch ter chamado de “ridículos” os comentários de Trump ameaçando anexar o território canadense aos EUA.
— Como cidadão americano, estou envergonhado por essa demonstração de arrogância e desrespeito em relação a um dos nosso mais antigos e leais aliados. Mas eu sei que isso vai servir de combustível para o nosso time – afirmou Marsch à época.
Antes de motivar o Canadá, o trabalho anterior de Marsch havia sido recuperar a autoestima do Leeds United, em 2022, depois da demissão do treinador argentino Marcelo Bielsa sob sério risco de rebaixamento no Campeonato Inglês. Marsch salvou o Leeds da queda na primeira temporada, o que invocou comparações bem-humoradas com Ted Lasso – um treinador americano fictício, vivido pelo ator Jason Sudeikis, que conduz um clube inglês desacreditado a títulos.
Sudeikis chegou a pedir desculpas pela “pressão” que esse paralelo involuntário poderia colocar em Marsch. Em resposta ao ator, no antigo Twitter, o treinador se disse “um grande fã” da série. As comparações, porém, pararam por aí. Na segunda temporada, com o Leeds novamente em baixa, Marsch foi demitido e o time, rebaixado.
Diferentemente de Ted Lasso, que vira técnico na Inglaterra sem entender de “soccer”, Marsch já tinha uma carreira sólida como treinador, em clubes da franquia Red Bull, antes de assumir o Leeds. A principal referência de Marsch sempre foi Bob Bradley, que o chamou para a comissão técnica dos EUA na Copa de 2010 e foi o primeiro americano a treinar um time da primeira divisão inglesa, em 2016, no Swansea. Bradley também foi o primeiro técnico de Marsch, no time de futebol da Universidade de Princeton.
Já a relação de Marsch com outros treinadores da seleção dos EUA é mais acidentada. No início de 2024, pouco antes de assumir o Canadá, Marsch atuava como comentarista de um canal de TV dos EUA e criticou uma série de decisões do então treinador Gregg Berhalter – pai do volante Sebastian Berhalter, hoje reserva na seleção dos EUA.
Melhores momentos de Suíça x Canadá
Marsch disse que, em seu lugar, não convocaria o atacante Giovanni Reyna para a Liga das Nações da Concacaf, e sugeriu que isso só aconteceu devido à relação de Berhalter com o pai do jogador, o ex-atacante da seleção Claudio Reyna. Quando Giovanni fez o gol do título do torneio para os EUA, Berhalter não perdeu a chance de cutucar Marsch: disse que tinha “ouvido alguém perguntar por que” Reyna foi convocado, e que o atacante “mostrou o porquê” naquele dia.
Na ocasião, Marsch ainda se ressentia por não ter ficado com o emprego de Berhalter, no fim de 2023, quando o então treinador foi brevemente demitido da seleção dos EUA – acabou recontratado meses depois. Tempos depois, Marsch admitiu ter ficado “devastado e irritado” porque a federação de futebol norte-americana chegou a negociar sua contratação, mas recuou na última hora.
Quando Mauricio Pochettino foi contratado para o lugar de Berhalter, tendo no currículo um período vistoso como técnico do Tottenham, o treinador do Canadá minimizou os predicados do comandante dos EUA: disse que Pochettino “não tinha um estilo de fato” e que era um “pragmático”. Dois dias depois, o Canadá de Marsch derrotou os EUA – ainda sem Pochettino — em um amistoso pela primeira vez em 70 anos.
Falando muito e procurando fazer ainda mais pelo Canadá, Marsch parece cumprir o desafio de dirigir um dos países-sede desta Copa “como quem anda a cavalo”, como dizia o personagem Ted Lasso: “se você faz isso de forma confortável, provavelmente está fazendo errado”.
A exemplo do Canadá, a África do Sul também avançou pela primeira vez da fase de grupos neste ano, e quer desbravar território desconhecido nesta Copa. Quem avançar hoje aguarda seu adversário nas oitavas de final do jogo entre Holanda e Marrocos, amanhã.

