Em meio a um momento de tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos, os presidentes dos dois países foram os primeiros líderes a discursar na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira, em Nova York. Ao longo das duas falas, tanto Lula quanto Donald Trump abordaram temas como os conflitos na Ucrânia e em Gaza, o tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil e as mudanças climáticas, além da própria ONU.
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Trump x Lula: Presidentes divergem sobre assuntos de importância global
Compare abaixo as declarações de Trump e Lula sobre diferentes assuntos:
— Qual é o propósito das Nações Unidas? — questionou o presidente americano, afirmando que tudo que a ONU faz é escrever “cartas com palavras fortes” e falar em “palavras vazias” — É triste que eu tenha tido que fazer essas coisas em vez das Nações Unidas.
— Este deveria ser um momento de celebração das Nações Unidas. Criada no fim da guerra, a ONU simboliza a expressão mais elevada da aspiração pela paz e pela prosperidade. Hoje, contudo, os ideais que inspiraram seus fundadores em São Francisco, estão ameaçados como nunca estiveram em toda sua História.
— O Brasil agora enfrenta tarifas pesadas em resposta aos seus esforços sem precedentes para interferir nos direitos e liberdades de nossos cidadãos americanos e de outros, com censura, repressão, armamento, corrupção judicial e perseguição de críticos políticos nos Estados Unidos — afirmou o americano — Lamento muito dizer isso, o Brasil está indo mal e continuará indo mal. Eles só conseguirão se sair bem quando trabalharem conosco. Sem nós, fracassarão, assim como outros fracassaram.
— Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder. Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra. Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia, reconquistada há quarenta anos pelo seu povo, depois de duas décadas de governos ditatoriais. Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia.
— Como todos sabem, também tenho me envolvido profundamente na busca por um cessar-fogo em Gaza.Temos que fazer isso acontecer. Infelizmente, o Hamas rejeitou repetidamente ofertas razoáveis para fazer a paz. Não podemos esquecer o dia 7 de outubro, podemos? Agora, como se para incentivar o conflito contínuo, alguns membros deste corpo estão tentando reconhecer unilateralmente um Estado Palestino. As recompensas seriam grandes demais para os terroristas do Hamas, pelas suas atrocidades.
— Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo, mas nada, absolutamente nada justifica o genocídio em curso em Gaza. Ali, sob toneladas de escombros, estão enterradas dezenas de milhares de mulheres e crianças inocentes, ali também estão sepultados o direito internacional humanitário e o mito da superioridade ética do Ocidente. Esse massacre não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo.
— Em Gaza a fome é usada como arma de guerra e o deslocamento forçado de populações é praticado impunemente. Expresso minha admiração aos judeus que, dentro e fora de Israel, se opõem a essa punição coletiva. O povo palestino corre o risco de desaparecer. Só sobreviverá com um Estado independente e integrado à comunidade internacional. Esta é a solução defendida por mais de 150 membros da ONU, reafirmada ontem, aqui neste mesmo plenário, mas obstruída por um único veto.
— É o maior golpe já perpetrado no mundo, na minha opinião, a mudança climática. Todas essas previsões feitas pelas Nações Unidas e muitas outros, muitas vezes por razões ruins, estavam erradas.
— Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática. O ano de 2024 foi o mais quente já registrado. A COP30, em Belém, será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta (…) Nações em desenvolvimento enfrentam a mudança do clima ao mesmo tempo em que lutam contra outros desafios. Enquanto isso, países ricos usufruem de padrão de vida obtido às custas de duzentos anos de emissões.
— É chegado o momento de passar da fase de negociação para a etapa de implementação. O mundo deve muito ao regime criado pela Convenção do Clima. Mas é necessário trazer o combate à mudança do clima para o coração da ONU, para que ela tenha a atenção que merece. Um Conselho vinculado à Assembleia Geral com força e legitimidade para monitorar compromissos dará coerência à ação climática.
— Pessoas não gostam de levar grandes carregamentos de drogas em barcos mais. Não há muitos barcos viajando pelos mares da Venezuela (…) Nós paramos a entrada de drogas em nosso país por mar. Nós as chamamos de ‘drogas das águas’. Elas matam centenas de milhares de pessoas — disse Trump.
— Eu também designei multiplos e selvagens cartéis de drogas como organizações terroristas estrangeiras, junto com duas sanguinárias gangues internacionais: MS13 e Tren de Aragua. O Tren de Aragua é da Venezuela, aliás. Organizações como essas torturam, mutilam e matam com impunidade. Eles são os inimigos da humanidade. Por essa razão, começamos a usar o poder supremo dos militares dos Estados Unidos para destruir terroristas venezuelanos e redes de tráfico comandadas por Nicolás Maduro.
— É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento. Outras partes do planeta já testemunharam intervenções que causaram danos maiores do que se pretendia evitar, com graves consequências humanitárias. A via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela. O Haiti tem direito a um futuro livre de violência. E é inadmissível que Cuba seja listada como país que patrocina o terrorismo.
— Eu também tenho trabalhado incansavelmente para parar a matança na Ucrânia. Achei que esse seria, dos sete conflitos que eu parei, o mais fácil, por causa do meu relacionamento com o presidente Putin, que sempre foi bom (…) Não importa o que aconteça a partir de agora, isso era algo que deveria ter durado apenas alguns dias, certamente menos de uma semana. E eles estão lutando há três anos e meio e matando de 5 mil a 7 mil jovens soldados toda semana.
— Essa guerra nunca teria começado se eu fosse presidente. Essa era uma guerra que nunca deveria ter acontecido. Isso mostra o que é liderança, o que a má liderança pode fazer com um país. Veja o que aconteceu com os Estados Unidos e veja onde estamos agora, em um curto período de tempo. A única pergunta agora é quantas mais vidas serão perdidas inutilmente de ambos os lados. China e Índia são os principais financiadores da guerra em andamento ao continuar comprando petróleo russo.”
— No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar. O recente encontro no Alasca despertou a esperança de uma saída negociada. É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista. Isso implica levar em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes. A Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos da Paz, criado por China e Brasil, podem contribuir para promover o diálogo.

