Entre as décadas de 1920 e 1930, secas assolaram o território cabo-verdiano. Em razão disso, milhares de cidadãos deixaram o país em busca de melhores condições de vida — e a Argentina foi um dos principais destinos escolhidos. De lá para cá, formou-se uma comunidade cabo-verdiana muito forte em solo argentino. Hoje, filhos e netos desses imigrantes preservam a cultura do arquipélago lusófono no país sul-americano e, para o confronto desta sexta-feira entre Argentina e Cabo Verde, pelos 16 avos de final da Copa, a expectativa se mistura com o “coração dividido”.
Javier Andrigo é presidente da “Unión Caboverdeana de Dock Sud”, sociedade de socorro mútuo de cabo-verdianos em Avellaneda, na Argentina. A região foi escolhida pela proximidade com o porto de Buenos Aires, onde muitos deles encontraram emprego como marinheiros, estivadores e trabalhadores portuários ao longo do século XX. Em entrevista ao O GLOBO, Andrigo disse que, durante o Mundial, centenas de descendentes do país africano se reúnem na associação.
— Nós estamos reunindo entre 140 e 160 pessoas. Em todos os três jogos, nossa associação lotou. E tenho certeza de que vai acontecer o mesmo nesta partida contra a Argentina, mais um duelo histórico para Cabo Verde.

Comunidade cabo-verdiana em solo argentino vive expectativa antes de jogo
Os sentimentos, no entanto, são definidos por Javier como “misturados”.
— Há sentimentos misturados dentro da comunidade. Porque, como você pode imaginar, todos nós, querendo ou não, também somos argentinos. Há três posturas: alguns descendentes e também alguns cabo-verdianos vão torcer pela Argentina sem pensar duas vezes. Outros vão dividir o coração em dois e comemorar os gols dos dois lados. E outros — esse é o meu caso —, mesmo sabendo que será difícil, vão torcer por Cabo Verde.
A decisão de torcer por Cabo Verde está ligada às dificuldades enfrentadas pelo povo cabo-verdiano em seu país natal.
— Cabo Verde é um arquipélago que não tem muitos recursos naturais, já que suas ilhas são de origem vulcânica. Vive, em grande parte, das remessas enviadas pelos cabo-verdianos que vivem no exterior e do turismo. Antes mesmo do Mundial, eu dizia que Cabo Verde já tinha ganhado, porque só de se classificar para a Copa já conseguiu essa visibilidade para impulsionar o turismo e fazer o país crescer economicamente. E eu vou seguir torcendo para que continuem escrevendo essa linda história na Copa do Mundo — diz Javier.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/w/s/XysxYlRZumIKPtBcOw4Q/115381029-cape-verdes-forward-26-helio-varela-celebrates-with-teammates-after-scoring-his-team.jpg)
A 25 quilômetros da associação de Dock Sud está a “Asociación Caboverdeana de Ensenada”, também localizada em uma região portuária da província de Buenos Aires. Fundada há 97 anos, é a mais antiga do país dedicada à comunidade. Neto de um imigrante do arquipélago, Santiago Monteiro a define como uma forma de preservar e celebrar a cultura de origem.
— Nós aqui somos muito unidos. Fazemos eventos culturais que mantêm viva a cultura de Cabo Verde, sempre com muita cachupa (comida típica) e muita alegria. Acho que essa é justamente a função da nossa instituição: preservar a cultura cabo-verdiana na Argentina.
Assim como em Dock Sud, os descendentes de cabo-verdianos também estão se reunindo em Ensenada para assistir aos jogos do Mundial. Até o momento, a seleção de Cabo Verde empatou os três jogos que disputou na competição e conquistou uma classificação histórica para o mata-mata.
— Estamos todos vivendo o Mundial com muita energia, muito orgulho e muita expectativa. A comunidade toda, até quem não é muito fã de futebol, se uniu com o propósito de torcer por Cabo Verde. Vibramos todos juntos.
A partida contra a Argentina é muito aguardada por Santiago, que diz sentir orgulho ao ver seus “dois amores” disputando uma vaga nas oitavas de final. Sobre a torcida, ele afirma que pretende apenas admirar o duelo.

