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Concessionária promove a maior retirada de esgoto da história da Guanabara

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junho 5, 2026
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Operários trabalham na construção do tronco coletor de esgoto — Foto: Divulgação/Águas do Rio

Os milhares de moradores do Complexo da Maré, localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, nunca conheceram outra realidade. O esgoto sempre correu por vielas, valões e galerias que deveriam receber apenas água da chuva antes de seguir para a Baía de Guanabara. Não era descuido de nenhum deles. Era a ausência de algo que em outras regiões da cidade sempre existiu: esgotamento sanitário. A Baía carrega essa conta há décadas. Cada ligação irregular, cada lançamento sem destino adequado acaba, de um jeito ou de outro, chegando até ela.

No Dia do Meio Ambiente, celebrado neste 5 de junho, obras da Águas do Rio, de implantação de um sistema de coleta e tratamento de esgoto naquele conjunto de favelas carioca, apontam para uma mudança histórica. Com a conclusão da intervenção, prevista para o fim de 2027, o esgoto que hoje circula a céu aberto, contribuindo para a disseminação de doenças como hepatite e gastroenterite, além do mau cheiro e da proliferação de insetos, deixará de impactar a rotina dos 200 mil moradores.

As intervenções se dividem entre a construção de um extenso tronco coletor de esgoto de quase cinco quilômetros e equipes espalhadas por becos e vielas conectando casa a casa a tubulações menores. Os moradores percebem o principal sinal da transformação: o esgoto, que pela primeira vez ganha um caminho para longe das ruas. Olhos curiosos acompanham os canteiros espalhados pelo conjunto de 16 favelas.

Operários trabalham na construção do tronco coletor de esgoto — Foto: Divulgação/Águas do Rio

Maria do Socorro da Silva, de 64 anos, é uma dessas moradoras. Ela viu de perto as equipes da Águas do Rio conectarem os canos da viela onde mora à nova rede implantada na região. Nascida no Complexo da Maré ainda nos tempos das palafitas, acompanhou o crescimento do lugar e percebeu como ele ganhou densidade e se verticalizou sem que a infraestrutura acompanhasse esse desenvolvimento. No ano passado, Maria do Socorro teve a casa alagada com água de esgoto.

— A população cresceu muito, e isso fez com que começassem os problemas: entupimentos, água poluída entrando nas residências — contou, frisando que, com as obras, o esgoto de casas vizinhas deixou de escorrer pela rua. — O que estamos vendo aqui é uma melhoria muito grande.

Para Maria do Socorro, foi uma grande melhoria no Complexo — Foto: Divulgação/Águas do Rio
Para Maria do Socorro, foi uma grande melhoria no Complexo — Foto: Divulgação/Águas do Rio

MAIS DO QUE OBRA, POLÍTICA PÚBLICA

Na avaliação de Anselmo Leal, presidente da Águas do Rio, concessionária do grupo Aegea, poucos setores de infraestrutura têm impacto tão amplo quanto o saneamento básico. Mais do que uma obra, ele o define como uma política pública de saúde capaz de desencadear um círculo virtuoso de desenvolvimento.

— Quando uma criança deixa de adoecer por conviver com esgoto na porta de casa, ela volta para a escola. Os pais, especialmente as mães, deixam de perder dias de trabalho. O sistema de saúde reduz gastos com doenças evitáveis. E a cidade inteira ganha: as praias se recuperam, os bairros se valorizam e a autoestima das pessoas volta junto. Essa rede encadeada de transformação é o que buscamos construir no Rio de Janeiro — afirmou Anselmo Leal.

Com investimento de R$ 120 milhões, a concessionária está implantando um tronco coletor de 4,6 quilômetros, instalado em alguns trechos a até 11 metros de profundidade, conectado a 18 quilômetros de redes secundárias que chegam, viela por viela, às casas e aos comércios do Complexo da Maré. Parte das obras utiliza os chamados “tatuzinhos”, máquinas que avançam pelo subsolo instalando tubulações sem abrir grandes valas, solução essencial em um território de ruas estreitas e densamente povoado.

Ao final da intervenção, 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês passarão a ser destinados à Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, no Caju, a poucos quilômetros dali. É o equivalente a 520 piscinas olímpicas. Como consequência, esse volume deixará de ser despejado na Baía de Guanabara, representando a mais ampla redução de carga poluidora já promovida no ecossistema.

O ‘tatuzinho’ é utilizado na abertura de túneis subterrâneos — Foto: Divulgação/Águas do Rio
O ‘tatuzinho’ é utilizado na abertura de túneis subterrâneos — Foto: Divulgação/Águas do Rio

Somado a intervenções recentes da concessionária na capital e em cidades como São Gonçalo e Mesquita, na Região Metropolitana, o volume de esgoto que deixa de chegar à Baía de Guanabara já alcança 133 milhões de litros por dia. O resultado são praias historicamente poluídas tornando-se próprias para banho, como as do Flamengo, da Glória e da Ilha de Paquetá. À medida que as obras de saneamento avançam, novas áreas de lazer voltam a ser aproveitadas pela população, por pescadores e por quem vive da chamada Economia Azul.

BIÓLOGO DESTACA CONCEITO DE ‘SAÚDE ÚNICA AZUL’

Ricardo Gomes é biólogo, presidente do Instituto Mar Urbano e referência quando o assunto é Baía de Guanabara. Segundo ele, para que uma população tenha saúde, o oceano precisa estar saudável.

— Não adianta pensar que “moro no Leblon, tenho saneamento e o resto do mundo não me importa”. Quando você entra no mar, está todo mundo conectado. Promover o saneamento em comunidades onde ele ainda não existe, como no caso da Maré, é caminhar na direção correta, na direção de uma saúde única azul. Não serão apenas os 200 mil moradores que sentirão essa transformação. Estamos falando dos dez milhões de habitantes dos municípios que compõem a Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara e que também serão impactados positivamente — afirmou.

Praias historicamente poluídas, como a do Flamengo, da Glória e a Ilha de Paquetá, agora são próprias para banho — Foto: Getty Images
Praias historicamente poluídas, como a do Flamengo, da Glória e a Ilha de Paquetá, agora são próprias para banho — Foto: Getty Images

Ricardo também é categórico ao afirmar que a biodiversidade marinha já sente os efeitos da recuperação ambiental desse ecossistema:

— Mergulho na Baía desde a década de 1980 e são visíveis as melhorias na qualidade da água. Nunca imaginei que faria imagens do fundo do mar na Praia do Flamengo, nem que faria um mergulho com minha câmera na Praia de Botafogo. Esse processo de recuperação pode transformar a dinâmica de municípios inteiros. O comércio se movimenta, a economia ligada ao uso das praias ganha força e a construção civil também é diretamente beneficiada — afirmou Ricardo.

A experiência do Complexo da Maré sintetiza um desafio presente em grande parte do Brasil: levar infraestrutura a regiões que cresceram sem acesso adequado ao saneamento. Foi justamente para enfrentar essa realidade que o Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu metas de universalização dos serviços até 2033 e ampliou a capacidade de investimento no setor.

Desde o início das operações, em 2021, a Águas do Rio já investiu mais de R$ 6,3 bilhões. Ao longo da concessão, esse volume deverá alcançar R$ 19 bilhões.

— A Maré reúne, em um único território, desafios que existem em centenas de comunidades brasileiras. Entregar essa transformação aqui significa mostrar que é possível avançar, mesmo nos cenários mais complexos — afirmou Anselmo Leal.

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