Dentre os detalhes sobre o homem acusado de balear dois soldados da Guarda Nacional — uma delas morreu nesta quinta-feira —, a dois quarteirões da Casa Branca, na quarta-feira, chamou atenção sua ligação com uma milícia patrocinada pela inteligência americana no Afeganistão. As “Unidades Zero” eram um dos segredos da CIA para atacar os talibãs, o Estado Islâmico e outros rivais, com treinamento de elite e alegações persistentes de abusos contra civis.
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Oficialmente parte dos serviços de inteligência afegãos, as Unidades Zero eram formadas por paramilitares — muitos com conhecimento adquirido ao longo dos 20 anos de invasão americana —, treinados por membros de forças especiais dos EUA, equipados com armas americanas e atuando sob ordens da CIA. De acordo com ex-integrantes das forças, ouvidos pelo New York Times, seus salários também eram pagos pela inteligência dos EUA.
O roteiro não é exatamente novo: nas últimas décadas, especialmente durante a Guerra Fria, o uso de grupos paramilitares que operam sem a devida supervisão externa — uma forma amena de dizer que tinham sinal verde para cometer abusos — foi parte importante do modus operandi da CIA. Durante a Guerra do Vietnã (1955-1975), o Programa Phoenix usava elementos locais para tentar suprimir a insurgência vietcongue no Vietnã do Sul. Forças rebeldes sob ordens inteligência americana ajudaram a derrubar o presidente Jacobo Árbenz na Guatemala, nos anos 1950, fracassaram contra o recém-criado regime comunista em Cuba, na Invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e tiveram papel decisivo para instaurar a ditadura de Suharto na Indonésia, nos anos 1960.
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No Afeganistão, as Unidades Zero, surgidas nos primeiros momentos da invasão de outubro de 2001, guardavam uma aura de mistério — ninguém queria falar sobre elas ou estar associado a elas — e missões claras: executar tarefas de apoio às forças especiais americanas, e assumir riscos que os militares dos EUA não queriam ou podiam. Seus alvos incluíam lideranças da rede al-Qaeda, do Talibã, operativos do Estado Islâmico e agentes envolvidos em ataques terroristas. Apesar de representantes da CIA alegarem o contrário, elas não eram regidas pelas normas da guerra, seguidas pelas Forças Armadas regulares.
— Estávamos lutando pela liberdade — disse, em depoimento à revista Rolling Stone, Nasir Andar, um membro das Unidades Zero em Jalalabad. — Estávamos lutando pela nossa terra. Pela nossa bandeira. Pela nossa dignidade. Estávamos lutando pelos nossos direitos e pela humanidade. Não queríamos que nosso solo fosse usado para ferir ninguém.
Rahmanullah Lakanwal, suspeito pelo ataque em Washington, atuava desde 2011 na Unidade 3 do “exército secreto da CIA”, nos arredores de Kandahar, bastião do Talibã no Sul do Afeganistão. Segundo o relato de militares afegãos, ouvidos pelo New York Times, em julho de 2021 o então presidente Ashraf Ghani precisou pedir à CIA autorização para que a Unidade 3 o ajudasse a defender Kandahar dos talibãs — nenhuma autoridade envolvida no pedido o confirmou oficialmente, e Ghani fugiu de Cabul antes que seu governo caísse, em agosto. Oficialmente, as unidades foram desmanteladas naquele ano.
— São unidades muito eficazes, motivadas e baratas — afirmou ao New York Times o ex-assessor de segurança da Ghani, Hamdullah Mohib, em dezembro de 2021. — Elas não precisam de todo tipo de equipamento pesado. Gostaria que tivéssemos mais unidades como essas.
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Mas essa não é uma história apenas de bravura. Além de homens acusados de integrarem grupos terroristas, centenas de civis morreram nas ações noturnas das Unidades Zero: um levantamento feito pela agência ProPublica em janeiro de 2023 apontava que, em 107 operações, 452 civis foram mortos, sem qualquer tipo de punição. Um número que os próprios veteranos da guerra secreta da CIA admitem ser subestimado.
— Essas mortes aconteceram pelas nossas mãos. Participei de muitas incursões, e houve centenas de incursões em que alguém foi morto e não eram talibãs nem membros do Estado Islâmico, e onde não havia nenhum militante presente — disse um ex-integrante das Unidades Zero à ProPublica.
Em outubro de 2019, a Human Rights Watch publicou um relatório acusando as Unidades Zero por “execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados, ataques aéreos indiscriminados, ataques a instalações médicas e outras violações do direito internacional humanitário ou das leis da guerra”. A denúncia cita o papel da CIA no treinamento e apoio às milícias, e afirma que militares americanos participaram de algumas das operações onde houve mortes de civis.
“Em entrevista à Human Rights Watch, um diplomata familiarizado com as operações das forças de ataque afegãs se referiu a elas como ‘esquadrões da morte’”, diz um trecho do relatório, que elenca alguns casos de ataques civis. “Em vez de trazer estabilidade ao Afeganistão, eles minaram as instituições afegãs e colocaram muitos afegãos em risco.”
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Em 2023, em resposta à ProPublica, a agência declarou que os EUA adotam “medidas extraordinárias — além daquelas exigidas por lei — para reduzir as baixas civis em conflitos armados, e trata qualquer denúncia de violações de direitos humanos com a máxima seriedade”. Sobre as Unidades Zero, alegou que as acusações faziam parte de uma campanha midiática para minar sua imagem “por causa da ameaça que representavam para o regime talibã”. A justificativa foi repetida agora, após o ataque em Washington.
Dentro da primeira leva de quase 80 mil afegãos levados aos EUA pela Operação Boas-Vindas aos Aliados, destinada a apoiar pessoas que trabalharam para os americanos ao longo de 20 anos de guerra, havia entre 10 e 12 mil integrantes das Unidades Zero, incluindo Lakanwal, que chegou em agosto de 2021. Ouvidos pelo New York Times, alguns dos veteranos se disseram chocados com o ataque de quarta-feira, e afirmaram que hoje tentam viver suas vidas da melhor forma possível, sem citar seus atos do passado.

