Certa manhã, ele e a mulher, Lisa Galotti, acordaram na casa da fazenda em North Pomfret, no estado de Vermont, e encontraram um visitante inesperado voando pela lareira.
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“É um filhote de falcão”, disse Galotti à mulher. “Deve ter descido pela chaminé. Me traz uma toalha.”
E ela trouxe. Foi então que ele puxou o pássaro da lareira, soltou um palavrão ao vê-lo tentar morder seu dedo indicador e seguiu com o tour pela propriedade.
Nos anos 1990, Galotti era provavelmente o editor de revistas mais conhecido dos Estados Unidos, o cara que ajudou a construir a Vanity Fair e a Vogue. É verdade que esse cargo normalmente não traz a mesma fama que o de editor-chefe, mas não foi Graydon Carter quem inspirou Mr. Big, o magnata de limusine e interesse amoroso ocasional de Carrie Bradshaw em “Sex and the city”.
Em 2003, aos 54 anos e então publisher da revista GQ, Galotti foi demitido pelos chefes da Condé Nast. Em 2004, anunciou na New York Magazine que se mudaria para um terreno enorme, 430 km distante, no meio de uma estrada de terra. Iria pescar, caçar, cortar árvores, criar galinhas e até entrar para o corpo de bombeiros voluntário.
Amigos, inimigos e observadores da mídia nova-iorquina dos anos 1990 e 2000 tinham certeza: não havia chance de Mr. Big aguentar aquilo por muito tempo. Mas já se passaram mais de 20 anos. E ele não voltou rastejando para a civilização nem tentou escalar novamente o topo de um império midiático.
Esse império — ou pelo menos seu auge — reacendeu recentemente um interesse curioso.
“When the going was good”, o livro de memórias de Carter sobre (entre outras coisas) seu período como editor da Vanity Fair, esteve entre os mais vendidos. “Empire of the elite: Inside Condé Nast, the media dynasty that reshaped America”, de Michael Grynbaum, repórter de mídia do “New York Times”, foi lançado este mês. E Anna Wintour anunciou recentemente que deixará o cargo de editora-chefe da Vogue americana, encerrando não apenas um título, mas uma era.
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É um momento que parece reafirmar a retirada de Galotti.
“Não estou mais sentado naquela cadeira”, disse ele. “Mas parece que o destino não é bom.”
Enquanto editores de revistas costumam se orgulhar de serem eruditos, publishers são um pouco como gângsteres da Madison Avenue.
Uma história que Galotti adora contar é sobre uma visita a S.I. Newhouse Jr., bilionário dono da Condé Nast, no fim dos anos 1990 ou início dos 2000. No apartamento dele, perto da ONU, Galotti viu uma escultura de Damien Hirst com uma cabeça de vaca mergulhada em formol.
“Perguntei: ‘Quanto você pagou por isso?’”, contou Galotti, sentado na sala de estar de sua casa, usando o que costuma vestir hoje — jeans folgados e camisa xadrez vermelha com bolsos no peito. “Ele disse algo como 1,2 milhão de dólares. Respondi: ‘Por esse preço, eu podia ter pego a cabeça de um cliente e colocado aí pra você.’”
Galotti nasceu no Bronx, algo ainda perceptível em seu sotaque, mesmo após décadas em Vermont. Cresceu em Peekskill, Nova York. Os pais tinham uma loja de bebidas. Aos 9 anos, perdeu o pai por ataque cardíaco. Foi um aluno medíocre, mas trabalhou duro numa fazenda, cuidando de cavalos e galinhas.
No último ano da escola, o diretor avisou sua mãe que ele havia faltado demais e não se formaria. Galotti lembra que um acordo foi feito: ele se alistaria no Exército e, em troca, receberia o diploma.
Era época da Guerra do Vietnã e ele foi enviado às Filipinas, com a Força Aérea.
Durante o serviço militar, casou-se. Ao voltar aos EUA, foi com a esposa para Cocoa Beach, na Flórida, onde trabalhou como garçom e depois abriu uma empresa de aquecimento e refrigeração.
Após a falência do negócio, voltou a Nova York e morou no porão da sogra. Disse que sua mãe começou a namorar um homem que dirigia uma editora técnica. Galotti foi trabalhar com ele, vendendo anúncios no setor de produtos para costura.
Em 1970, ele e a primeira esposa tiveram um filho. O menino morreu em um acidente de carro aos 4 anos. Galotti estava dirigindo. O casamento, ele disse depois, acabou logo. E ele mergulhou ainda mais no trabalho com vendas.
Em 1978, já estava na Hearst, na revista Country Living. Virou publisher em 1982 e conheceu sua segunda esposa ali, também publisher.
Em 1985, foi contratado por Newhouse para comandar a Mademoiselle, voltada para jovens mulheres. Dois anos depois, passou a liderar a Condé Nast Traveler, que seria lançada com o renomado editor britânico Harold Evans, marido de Tina Brown, então à frente da Vanity Fair.
Em 1990, Galotti foi para a Vanity Fair. Em 1992, Tina Brown saiu para editar a New Yorker. Galotti ficou.
Embora Carter, sucessor de Brown, tenha comandado a revista por mais de duas décadas e virado um gigante da indústria, a revista teve dificuldades no primeiro ano sob seu comando, em parte por causa de uma recessão.
Galotti achava que Newhouse iria demitir Carter. Em vez disso, demitiu Galotti — e depois o recontratou como publisher da Vogue, ao lado da editora Anna Wintour.
Dessa experiência, Galotti tirou duas lições. A primeira: tudo em sua vida era emprestado.
“Quando você era chamado ao escritório do S.I., não sabia se ia ser promovido ou demitido.”
A segunda: ele não gostava de Anna Wintour.
“Tina e eu éramos amigos. Era como família. Anna é só negócios. Nunca vi ela fazer nada que não fosse puramente profissional.”
Parte da vida “emprestada” incluía uma casa espetacular em Water Mill, NY, comprada com um empréstimo sem juros de Newhouse. O apartamento luxuoso em Manhattan, na 57th Street, com uma jacuzzi para quatro pessoas no banheiro, era todo pago pela empresa.
“David Copperfield morava ali e eu tinha um átrio de vidro com vista para o céu”, lembrou Galotti. Cada aspecto de sua vida pessoal parecia decorrer do seu cargo na Condé Nast.
Recém-solteiro após o fim do segundo casamento, conheceu Candace Bushnell em um desfile em 1995. Ela havia começado uma coluna no New York Observer, “Sex and the City”.
“Ela era ótima”, disse. “Nos divertimos muito, mas não havia futuro. E nunca foi para ter. Nunca enganei. Nunca disse que a amava.”
O que achava das colunas em que Bushnell claramente estava apaixonada por ele?
“Não posso evitar”, disse. “Nada é pior do que quando você me ama e eu não amo você.”
No início de 1996, conheceu Lisa em um evento em Aspen.
“Achei ele intrigante, diferente dos outros VIPs”, contou Lisa. “Tinha aquele ar de cara da cidade, cabelo penteado para trás.” Era um evento de quatro dias, e eles ficaram conversando todas as noites até tarde.
Logo ela foi visitá-lo em Water Mill.
Enquanto estava lá, Galotti ligou para Bushnell pedindo que fosse buscar suas coisas no armário. Em três meses, Lisa já morava com ele na cidade.
No fim do ano, fugiram para se casar.
Bushnell não guarda mágoas. “Ele é um cara legal, essa é a verdade”, disse ela recentemente.
Logo após o casamento, Galotti fez outra mudança: foi com Tina Brown fundar a Talk Magazine, com financiamento de Harvey Weinstein e da Hearst.
Para atrair os compradores de anúncios da Louis Vuitton, enviou a eles uma lixeira cheia de edições antigas da Vanity Fair e da New Yorker. Em agosto de 1999, ele e Brown reuniram de Madonna a Henry Kissinger numa festa de lançamento na Ilha da Liberdade.
A revista fechou após os ataques de 11 de Setembro e o fim do primeiro boom da internet. Galotti logo foi contratado como publisher da GQ.
Achava que seria o próximo a comandar a empresa, mas não foi o que aconteceu.
Desde 1983, a GQ era editada por Art Cooper, conhecido por seus ternos de três peças e almoços com martínis. Galotti logo pressionou por sua aposentadoria. Quatro meses depois, Cooper sofreu um derrame num almoço no Four Seasons.
Morreu poucos dias depois.
Quando Galotti foi demitido da GQ por Newhouse um mês depois, muitos dentro do império especularam (inclusive Jay McInerney, que escreveu uma matéria de capa sobre Galotti para a New York Magazine) se Newhouse o teria sacrificado para aliviar a própria culpa. Galotti segue sem remorso.
“Ninguém poderia prever que ele morreria daquele jeito”, disse. “Foi trágico. Art era ótimo. Mas foi uma decisão de negócios.”
“Correndo para a realidade”
Outro aprendizado do mundo dos anúncios: tudo tem um preço. Quando se mudou para Vermont, Galotti aplicou essa lógica.
“Os nova-ingleses têm fama merecida”, disse. “São rudes. Não aceitam forasteiros facilmente.”
Então, ele ajudou a reformar o quartel dos bombeiros locais e fez curso para virar voluntário. Lisa se ofereceu como voluntária numa estação de esqui. Abigail, filha do casal, hoje com 26 anos e administradora hospitalar, foi matriculada na escola local.
“Muita gente achava que o Ron estava fugindo da realidade”, disse Lisa. “Mas ele estava correndo para ela.”
O momento foi oportuno, segundo Tina Brown. “Ele escapou da decadência mesquinha da indústria da mídia. Saiu antes que tudo azedasse. Quantos podem dizer isso?”
No iPad, Galotti mostrou uma foto com a carcaça de um animal que caçou. “Quer saber quais são as duas coisas mais destrutivas do mundo? Primeiro, os humanos. Segundo, os castores.”
Depois foi até um galpão, onde subiu no seu brinquedo favorito — um trator gigante de US$ 55 mil (“US$ 120 mil hoje”, disse ele), comprado com dinheiro dado pelo editor Jason Binn em troca de conselhos de negócios.
“Esse é meu xodó”, disse.
Rodamos pelos arredores da casa catando galhos. Galotti começou devagar, depois pisou fundo. Eu ia no banco do passageiro, me segurando no corrimão enquanto ele ria e dirigia.
De volta à casa, subimos para o quarto, onde fotos emolduradas mostravam Galotti com celebridades: Dolly Parton, Sylvester Stallone, Janice Dickinson, Linda Evangelista.
Na sala, mostrou uma tigela de cerâmica feita pela ceramista Miranda Thomas. Dentro, peixes nadavam em círculo.
No fundo da tigela, estava escrita a palavra “Big”.
Ele admite que sente falta da vida antiga. “O mais difícil foi não poder mais mandar nos outros, nem ser idolatrado pela minha inteligência.”
Ultimamente, tenta — sem sucesso — vender suas memórias.
O título provisório: “Tchau, Mr. Big”.