Belize é um caso raro. É o único país continental da América Central que tem o inglês como idioma oficial, ainda que o espanhol seja falado por cerca de metade de seus pouco mais de 412 mil habitantes. Não é de se estranhar, então, que os belizenhos usem duas palavras inventadas a partir de ambas as línguas para celebrarem seu país, um lugar unbelizeable onde o visitante encontra a belicidad.
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A dualidade de Belize está presente em seu potencial turístico. Praia ou floresta? Azul ou verde? Neste país espremido entre México, Guatemala e o Mar do Caribe, vale ter as duas experiências, até porque é possível cruzar todo o território num curto espaço de tempo — cinco horas são suficientes para atravessá-lo de Norte a Sul, e menos de três horas de Leste a Oeste.
Essa praticidade permite, por exemplo, explorar perfeitamente o país em uma semana. Num intervalo de poucos dias, é possível subir incontáveis degraus em pirâmides maias, brincar de Indiana Jones em cavernas que parecem não ter fim, mergulhar com tubarões numa ilha que teria inspirado um dos clássicos de Madonna e sobrevoar a um imenso buraco azul no Caribe, que se tornou o principal cartão-postal de Belize, mesmo estando a mais de cem quilômetros de distância da costa. Tudo isso enquanto mergulha, sem pressa, na cultura local, uma combinação de influências indígenas, africanas e europeias que se nota na comida, na música e na língua local, o crioulo belizenho, ou kriol, a língua local falada por quase todo mundo.
É possível entrar no país a partir dos vizinhos Guatemala e México, cruzando as fronteiras terrestres ou em embarcações de passageiros. Mas a maneira mais comum de chegar a Belize é pelo aeroporto internacional, nos arredores de Belize City, maior cidade do país e antiga capital — a sede do poder foi transferida em 1970 para Belmopan, no centro do país. Apesar de acanhado, o terminal é servido por importantes companhias aéreas, entre elas a Copa Airlines, que conecta o país a sete cidades brasileiras via Panamá.
O aeroporto também é base de operação para duas empresas locais, a Tropic Air e a Mayan Island Air, que conectam a cidade a outros destinos dentro do país. Utilizando monomotores para 12 passageiros, ambas oferecem também um dos passeios mais concorridos do país, o voo panorâmico sobre o Great Blue Hole, o cartão-postal mais conhecido de Belize.
Trata-se mesmo de um grande buraco azul, ou sumidouro, que chama a atenção por formar um círculo quase perfeito de 300 metros de diâmetro e 124 metros de profundidade, cujo azul escuro contrasta com o turquesa, típico do Caribe, que o cerca. O cenário ficou conhecido nos anos 1970, com missões comandadas pelo explorador Jacques Cousteau, e faz parte da Barreira de Corais de Belize, listada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco desde 1996.
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Os minúsculos e barulhentos aviões levam de 20 a 30 minutos para chegar até o Great Blue Hole, ao redor do qual o piloto dá diversas voltas, para garantir que todos a bordo consigam registrar a imagem dos mais variados ângulos. No total, o tour dura cerca de uma hora, e permite apreciar arrecifes, pequenas ilhas e até um barco encalhado num banco de areia no mar com inúmeros tons de azul. Os aviões decolam de três bases (Belize City, San Pedro e Caye Caulker), e o preço varia de US$ 230 a US$ 295 por pessoa, dependendo da data e do ponto de partida.
Para quem tem certificação de mergulho com cilindro de oxigênio, é possível também nadar e mergulhar no Great Blue Hole. Nestes casos, os passeios são de dia inteiro — só para chegar até lá são três horas de navegação — e muitas empresas oferecem as excursões a partir do vilarejo de San Pedro.
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Embarcar para voos panorâmicos ou excursões náuticas para o Great Blue Hole não é o único motivo para se visitar San Pedro. O vilarejo, principal centro urbano da bela ilha de Ambergris Caye, é famoso também por ter servido, supostamente, de inspiração para um dos maiores hits dos anos 1980.
Reza a lenda que a letra de “La isla bonita”, de Madonna, foi inspirada nas belezas do vilarejo. Apesar de a própria cantora já ter dito que não conhecia o lugar na época do lançamento da música, e de haver outras ilhas chamadas San Pedro nas Américas (uma, inclusive, em El Salvador), a história pegou e não faltam referências à canção por todos os lados, de cartazes promocionais a camisetas em lojas de suvenires.
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A exploração turística um tanto desordenada pode ter tirado um pouco do charme de vila tropical praiana de San Pedro. Mas a beleza natural continua ali, presente no chocante mar de muitos tons de azul e em algumas praias de areia branquinha, tanto no próprio vilarejo quanto nos arredores, como é o caso de Secret Beach, distante 40 minutos em carrinhos de golfe, o principal meio de transporte local.
Dos muitos píeres instalados na orla do vilarejo partem, a todo instante, passeios de barco que levam a ilhotas e praias distantes, e, principalmente, à reserva marinha de Hol Chan, uma área de preservação ambiental na barreira de corais, onde grupos de visitantes se deslumbram com a beleza subaquática a poucos metros de profundidade. Com equipamento de snorkel, é possível ver tartarugas-marinhas, arraias, tubarões-lixa, barracudas e uma grande variedade de peixes coloridos que não se assustam com a presença humana.
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O ponto alto do tour, que em geral dura cerca de duas horas, é a parada na Shark Ray Alley, uma região onde é possível mergulhar ao lado de tubarões-lixa e arraias, atraídos pelas sardinhas que os guias jogam ao mar.
De volta à terra firme, tente guardar ao menos uma tarde e uma noite para passear pelas ruas de San Pedro e curtir seu ritmo praiano. O vilarejo oferece uma boa chance para provar alguns pratos típicos de Belize, resultado de uma combinação entre tradições caribenhas (arroz com feijão, bananas caramelizadas e carne de frango e porco) e mexicanas (tortilhas de todo jeito, moles e pimentas). No café da manhã do hotel, por exemplo, não deixe de provar o Fry Jack, uma massa frita, servida normalmente com o feijão refrito mexicano e o bacon e os ovos que tanto agradam os turistas, especialmente os norte-americanos e ingleses, que são sempre maioria por lá.
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Longe do Mar do Caribe, Belize troca o azul pelo verde. Basta se afastar um pouco da costa para entrar numa região marcada pela floresta tropical e onde a influência de povos indígenas fica ainda mais visível.
No interior do país, de Norte a Sul, podem ser encontrados importantes sítios arqueológicos de culturas pré-colombianas, especialmente da civilização maia, que esteve presente do Sul do México a Honduras. Muitas dessas atrações ficam no distrito de Cayo, na porção centro-oeste, e que engloba a capital Belmopan e a cidade de San Ignacio, quase na fronteira com a Guatemala, sendo a melhor base para explorar a região, com opções de hospedagem que vão de pousadas a luxuosos hotéis de selva.
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Nos arredores de San Ignacio, por exemplo, vale a pena conhecer as ruínas de El Pilar, Cahal Pech e especialmente Xunantunich. Este sítio é considerado um dos melhores em termos de preservação no país. O primor das construções, que passaram séculos soterradas e cobertas por vegetação, pode ser visto em palácios, templos e centros cerimoniais, habitados por nobres e sacerdotes maias que viveram naquela região nos anos 800 e 900, a chamada “Era Clássica” desta civilização.
O grande destaque do complexo é a pirâmide El Castillo, uma estrutura de 40 metros que ainda preserva as bases de antigos quartos e salões, ocupados apenas pelas pessoas mais importantes da região. Nas laterais, inscrições e desenhos de divindades maias estão preservados e atraem a curiosidade de quem consegue subir os muitos degraus até o topo, que oferece uma vista de tirar o fôlego.
Outras ruínas que valem a viagem são Caracol, também em Cayo, que tem a maior pirâmide de Belize (com 43 metros); Lamanai, no distrito de Belize, cuja construção principal virou logo da maior cervejaria do país; e Altum Ha, a 50km de Belize City, com 13 construções e um famoso artefato em jade, dedicado ao deus sol dos maias.
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As pirâmides não são os únicos locais onde se pode ver os rastros deixados pelos maias. No próprio distrito de Cayo há grutas e cavernas onde é possível encontrar utensílios e até mesmo restos mortais dos antigos habitantes da região, além dos já esperados amplos salões de pedra e impressionantes galerias de estalactites e estalagmites.
Uma das mais impressionantes é a caverna Actun Tunichil Muknal, popularmente conhecida como ATM Cave, redescoberta apenas em 1989 e que chamou a atenção de especialistas por ser um local de rituais sagrados dos antigos maias, que utilizavam o espaço para oferendas a deuses e até sacrifícios humanos. Um grande número de potes de cerâmica (muitos ainda intactos) e alguns esqueletos humanos podem ser vistos dentro da caverna, fazendo com que os visitantes se sintam verdadeiros Indianas Jones.
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Por se tratar de uma área protegida, é obrigatório contratar um guia ou fazer parte de uma excursão — agências locais cobram a partir de US$ 145 por pessoa, com transporte e almoço incluídos. O tour leva de sete a oito horas de duração, sendo umas cinco, pelo menos, dentro da caverna.
O turista precisa saber que irá se molhar do começo ao fim, por isso deve usar uma roupa confortável e leve, além de um calçado fechado e seguro, para evitar derrapar no caminho. O guia fornece um colete salva-vidas e um capacete com lanterna presa no topo, que só poderão ser retirados ao final do passeio.
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A aventura começa com uma trilha leve de pouco mais de um quilômetro pela floresta, na Tapir Mountain Nature Reserve, com direito a uma travessia, a pé, de três rios. Depois da caminhada, chega-se à entrada da caverna, onde é preciso nadar para atravessar um rio subterrâneo. A partir daí começa uma sucessão de subidas, descidas, pedras escorregadias, corredores estreitos, poças d’água e riachos que fazem o visitante mais sedentário duvidar da própria capacidade. Mas a recompensa vem a cada passo, a cada beleza avistada, até que se chega ao salão principal, onde se pode caminhar, com cuidado, entre as lembranças dos tempos dos maias.
E, assim como os antigos povos da região, o visitante explora a caverna sem câmeras nem celulares, proibidos desde 2012, por questão de segurança. Sem essa distração contemporânea, a experiência se torna ainda mais especial.
Eduardo Maia viajou a convite do Belize Tourism Board

