O canto intenso das cigarras parecia fazer parte da recepção. Era começo de julho, os termômetros rondavam os 38 graus e o verão já havia tomado conta da região francesa da Provence quando chegamos ao cais de Aramon, nas margens do rio Rhône, para nos hospedar no Pivoine, um dos sete barcos da coleção Les Bateaux Belmond. A divisão fluvial, assim como o investimento em trens, é uma das frentes de atuação do grupo Belmond para quem quer desacelerar no melhor estilo slow travel, a filosofia de viagem que prioriza a imersão cultural com calma, em vez da correria de acumular destinos e pontos turísticos na velocidade dois de um áudio de WhatsApp.
Logo na chegada, percebemos que aquela não seria exatamente uma estadia típica de uma embarcação ou de um grande cruzeiro. Primeiro porque navegar faz parte do programa mais para observar a cidade de outro ângulo, em momentos específicos do dia, como durante as refeições. Poucas experiências traduzem tão bem a ideia de art de vivre quanto observar a Provence passar pela janela enquanto se toma café da manhã. Os pernoites, por sua vez, são feitos com o barco ancorado, sem que se sinta o balanço da água. Depois porque, desde o primeiro momento, a sensação é menos a de embarcar e mais a de chegar em casa.
A bordo do Pivoine, a viagem pela Provence combina paisagens, gastronomia e experiências personalizadas ao longo do Rhône
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Com capacidade para oito hóspedes, o Pivoine funciona no formato de charter privado, fechado para grupos de amigos ou uma família. É como uma villa flutuante. As quatro cabines — ou quartos, como eles preferem chamar — têm cama de casal, sofá, banheiro e janelas voltadas para o rio. Os ambientes comuns são decorados com quadros, plantas, livros, jogos de tabuleiro e até um violão, como em uma casa de férias. A piscina aquecida no deque está permanentemente à disposição para quem queira dar um mergulho.
“Os nossos hóspedes já conheceram os melhores hotéis do mundo. E agora o luxo não está relacionado ao maior quarto. É sobre a experiência, mas a real, a que nos permite desconectar. Estamos sempre presos ao celular, ao computador. Mesmo quando você vai para um hotel, quer ler os seus e-mails… Ao embarcar, parece que conseguimos realmente nos desconectar completamente da vida agitada”, diz Maxime Brun, gerente-geral do Les Bateaux Belmond.
A bordo do Pivoine, a viagem pelo sul da França combina paisagens da Provence, gastronomia e experiências personalizadas ao longo do Rhône.
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Ao chegar ao Pivoine, conhecemos toda a tripulação: guia turístico, camareiras, chef particular, piloto e marinheiro. Todos devidamente vestidos com looks listrados entre branco e azul-marinho, bem ao estilo navy, que em nada lembram os uniformes típicos de hotéis. O visual mais casual sugeria logo o dress code para os hóspedes, nos fazendo, mais uma vez, nos sentir em casa. Ao longo dos dias, a conexão com a equipe naturalmente foi se tornando maior, e eu, por exemplo, nem precisava mais dizer que a minha água era com gás…
É justamente na personalização que a Belmond constrói boa parte da experiência. Antes da viagem, há uma conversa para definir os interesses e desenhar a programação. A partir daí, o itinerário pode ganhar mais visitas a vinícolas, atividades culturais, ao ar livre ou voltadas para famílias com crianças. Ao chegar ao barco, os traslados e as reservas já estão organizados.
“Nenhuma viagem é igual à outra. Conhecemos o que é importante para cada hóspede e trabalhamos para construir a experiência a partir disso, seja descobrindo um château escondido, explorando uma vinícola, escolhendo produtos frescos em um mercado local ou simplesmente desacelerando e apreciando a paisagem. É um luxo profundamente pessoal, sob medida”, diz Jonathan Foschini, diretor de Experiência do Hóspede da Les Bateaux Belmond.
A bordo do Pivoine, a viagem pela Provence combina paisagens, gastronomia e experiências personalizadas ao longo do Rhône
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A gastronomia ocupa um papel central na estadia. A bordo, cada barco conta com um chef particular. A curadoria dos menus é assinada pela chef francesa Dominique Crenn, primeira mulher nos Estados Unidos a conquistar três estrelas Michelin.
“Para mim, cozinhar sempre foi uma forma de contar uma história. Cada barco da Les Bateaux Belmond tem sua própria personalidade e, no Pivoine, fui inspirada pelo espírito selvagem e belo do Rhône e pela abundância de produtos frescos e locais. Queria que a gastronomia refletisse essa jornada. Os melhores pratos são aqueles que fazem você sentir o lugar onde está”, afirma Dominique.
A bordo do Pivoine, a viagem pela Provence combina paisagens, gastronomia e experiências personalizadas ao longo do Rhône
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Em Châteauneuf-du-Pape, visitamos o Château La Nerthe, uma propriedade histórica da região. A visita começa nas caves e segue para a degustação dos vinhos. Em Vallée des Baux-de-Provence, o cenário mudou para os olivais do Domaine Jòlibois, onde conhecemos diferentes variedades de azeite. Os hóspedes também podem desfrutar de restaurantes estrelados. Nosso grupo esteve no Pollen, que tem uma estrela Michelin, no centro de Avignon.
A seleção de vinhos acompanha, em geral, o território visitado, mas, como parte do grupo LVMH, a Belmond também oferece rótulos de seu portfólio, incluindo champanhes Ruinart. “Essa é a nossa filosofia: navegamos pela região da França e bebemos o que ‘vemos’, o que a localidade oferece”, explica Maxime.
Em outro momento, fomos à Pont du Gard, aqueduto romano tombado como Patrimônio Mundial pela Unesco, e demos um mergulho no rio Gardon. Também conferimos um espetáculo de dança contemporânea em meio à movimentação do Festival d’Avignon. Em um fim de tarde, a Abadia de Saint-André, dentro do Fort Saint-André, em Villeneuve-lès-Avignon, foi aberta exclusivamente para nós. Sem outros visitantes, percorremos a exposição “Gustave Fayet e seus jardins imaginários”, dedicada ao artista, colecionador e mecenas francês cuja obra volta ao centro das atenções na grande retrospectiva que a Fondation Louis Vuitton inaugura em Paris, em outubro. Ao fim da visita, seguimos para outro espaço reservado apenas ao nosso grupo, onde brindamos ao pôr do sol enquanto Ella Shepherd, artista residente da Belmond, interpretava músicas escolhidas pelos próprios convidados:
“É uma experiência Belmond. Ou seja, é algo que só o dinheiro não pode comprar. Estamos no topo de Villeneuve, com a melhor vista para o Palácio dos Papas, em um lugar exclusivo e uma música só para nós”, afirma Maxime.
A bordo do Pivoine, a viagem pela Provence combina paisagens, gastronomia e experiências personalizadas ao longo do Rhône
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Segundo ele, a maior parte dos hóspedes é dos Estados Unidos e Reino Unido, mas tem crescido o interesse de viajantes da América do Sul, especialmente do Brasil. A própria ocupação da temporada demonstra esse movimento:
“O Pivoine está com 92% de ocupação. Os 8% restantes correspondem a semanas destinadas a viagens de imprensa. Também lançamos este ano o Marguerite, que trafega pela Borgonha, e já tem 20 dos 30 cruzeiros previstos para o próximo ano vendidos. E estamos preparando mais novidades”, adianta Maxime, explicando que o preço para fechar o barco começa em 82 mil euros por semana, de domingo a sábado. O valor é para até oito hóspedes e inclui traslado, alimentação e experiências. “Isso significa que, durante uma semana, você pode esquecer o cartão de crédito”, ressalta Maxime.
Os barcos da coleção carregam histórias anteriores. Antes de receber hóspedes, o Pivoine era utilizado para transportar areia. “Existe uma alma nesses barcos. Nenhum foi construído para ser hotel. Todos tiveram outra finalidade antes disso”, afirma Maxime, ressaltando também a qualidade da equipe. “O Bruno, marinheiro que nos acompanhou durante a viagem, está há 42 anos na profissão. Ele conhece os canais e os rios franceses melhor do que a palma da mão”.
A bordo do Pivoine, a viagem pela Provence combina paisagens, gastronomia e experiências personalizadas ao longo do Rhône
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Na última noite, em meio ao brinde com a tripulação, ficou claro que a lembrança mais forte do Pivoine não seria necessariamente um vinho ou uma visita, mas a sensação de ter habitado, ainda que por poucos dias, um lugar onde tudo parecia acontecer no ritmo certo.
