Michael Maggart passa a maior parte dos dias administrando o curso online que fundou após uma década trabalhando como professor de matemática. Mas, de vez em quando, seu amigo do ensino médio, Wes Anderson, o convoca para um set de filmagem e manda para ele um figurino.
Em “O esquema Fenício”, o filme mais recente de Anderson, Maggart interpreta um segurança. Antes, ele já foi um detetive em “Asteroid City” (2023) e um concierge de hotel no segundo longa-metragem de Anderson, “Três é demais” (1998). Seus créditos também incluem uma série de comerciais da AT&T dirigidos por Anderson e o curta-metragem “A incrível história de Henry Sugar”, de 2023.
O professor de 55 anos, que divide seu tempo entre Austin, Texas, e Nova York, não tem formação como ator nem interesse em seguir carreira. Ele não tem outros créditos de atuação e jamais teria aparecido em filmes se não fosse por seu velho amigo que, por acaso, é um diretor de cinema renomado. Para Maggart, isso significou confraternizar, jantar e trocar provocações com atores de primeira linha como Tom Hanks, Bill Murray e Benicio Del Toro.
“Às vezes me sinto um pouco culpado porque, por exemplo, em ‘O esquema Fenício’ tenho uma cena com três falas”, disse ele. “E tenho certeza de que seria um grande momento para a carreira de um iniciante ou de qualquer ator receber essas três falas. Mas isso passa rápido pela minha cabeça e depois eu simplesmente aproveito.”
Maggart não sabe ao certo por que Anderson continua chamando ele para pequenos papéis. O cineasta de 56 anos, que não respondeu a um pedido de entrevista, descreveu seu velho amigo como um “colaborador crucial” em uma mensagem de vídeo para um evento em Houston comemorando o 25º aniversário de “Três é demais”.
Pode ser um conforto para Anderson, que colaborou com atores como Bill Murray, Jason Schwartzman e Frances McDormand repetidamente ao longo de sua carreira.
“Ele gosta de trazer de volta algumas das mesmas pessoas para filmes diferentes”, disse Maggart. “Há muita camaradagem no set. Todos jantam juntos.”
Maggart e Anderson se conheceram na Escola St. John, em Houston, que mais tarde foi usada como locação para as filmagens de “Três é demais”. Havia cerca de 100 pessoas na turma. Quando estavam no último ano, o projeto de estudo independente de Maggart era escrever e encenar uma peça. Anderson foi o diretor de palco.
“Essa foi a última vez que eu disse ao Wes o que fazer”, disse Maggart.
Após se formar no Davidson College, Maggart retornou à St. John’s School para lecionar matemática. Ele e Anderson mantiveram contato, e Anderson mostrou a ele os primeiros rascunhos do roteiro de “Três é demais”. Anderson decidiu filmar grande parte do filme em sua universidade, e Maggart atuou como uma espécie de elo entre o diretor e a escola, ajudando a encontrar alunos para interpretar papéis. As audições foram realizadas na sala de aula de Maggart. A cena de abertura do filme também foi filmada lá.
Maggart foi pego de surpresa quando Anderson o convidou para fazer um teste para o papel de concierge no filme. Apesar de suas atuações em peças e musicais no ensino médio, ele não havia demonstrado interesse em participar do filme.
A audição correu tão bem que Anderson o incluiu numa cena com Bill Murray filmada no saguão do que era então o Warwick Hotel, em Houston. Anderson ainda não era um diretor importante o suficiente para fechar o saguão para as filmagens, então um concierge de verdade trabalhou nas proximidades enquanto a cena era feita.
A cena, em que Maggart pergunta ao personagem de Bill Murray quanto tempo ele ficaria no hotel, levou 16 tomadas. A cada dois meses, disse Maggart, ele recebe um cheque de royalties de alguns dólares por seu trabalho em “Três é demais”.
Em 2007, quase uma década depois, ele recebeu outra ligação de Anderson. Será que ele estaria apto para a participar de um comercial da AT&T? Anderson precisava de seis atores para seis comerciais — cada um seria o protagonista de um comercial e apareceria como coadjuvante nos outros cinco. Após um teste, Maggart não recebeu resposta por quatro dias. Ele achou que tinha estragado tudo. Então Anderson ligou com instruções.
“Vá à Don’s Western Wear, compre uma jaqueta de camurça e leve os recibos para Praga”, Maggart se lembra das instruções de Anderson. “Eu pensei: ‘Acho que consegui o papel.'”
Anderson escalou Maggart como um empresário — talvez, teoriza Maggart, porque ele estava abrindo seu próprio negócio. Dias depois, ele estava filmando em Praga. (Nas outras cenas, ele aparece em papéis que incluíam um cowboy, um policial e um árbitro de futebol juvenil.)
Para “Asteroid City”, Anderson levou Maggart à Espanha para interpretar um detetive — desta vez sem teste — ao lado de Fisher Stevens. Maggart acredita ter sido escalado principalmente por ser mais alto que Stevens.
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Ele ficou na Espanha por sete semanas, jantando todas as noites com o elenco, incluindo Tom, Hanks, Scarlett Johansson e Jeff Goldblum. Depois de recomendar um item do cardápio de que Hanks gostou, Maggart se lembrou do ator dizer: “Eu te seguiria até o inferno”. Em outra conversa à mesa, ele contou a Goldblum sobre sua luta contra uma distensão na panturrilha. Goldblum lembrou que certa vez teve um problema no tendão que causou a interrupção das filmagens. “Ele disse: ‘Bem, eu estava fugindo de dinossauros'”, disse Maggart. (O filme era “Jurassic Park”.)
Maggart não é o único amigo de infância escalado por Anderson em seus filmes. O Dr. Sanjay Mathew, professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina Baylor, conheceu Anderson na quarta série na Escola Episcopal Diurna St. Francis, em Houston, e mais tarde fez parte de um grupo de amigos do ensino médio que incluía Maggart.
Anderson, disse Mathew, “sempre foi criativo, muito inteligente e sempre lia e apresentava às pessoas coisas que nenhum de nós tinha ouvido falar, como a revista ‘New Yorker'”.
Matthew era o capitão do time de tênis de St. John’s, o que o levou a um papel em “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001) como um tenista chamado Sanjay Gandhi. Ele teve que deixar crescer um bigode fino como um lápis para interpretar o papel, com uma fala.
Anos depois, Anderson levou Mathew para a Índia para ser um figurante em “Viagem a Darjeeling” (2007). Mathew na época era professor assistente de psiquiatria na Faculdade de Medicina Mount Sinai, em Nova York, e nunca havia voado na classe executiva. Ele imagina que Anderson tenha irritado os produtores ao trazê-lo — uma proposta cara. “Foi um pouco estranho que um figurante viesse de Nova York para fazer esse papel sem fala”, disse Mathew.
A escalação de Maggart para “O esquema Fenício” também veio de surpresa, algumas semanas antes do início das filmagens na Alemanha. A princípio, Anderson queria ele como um personagem que — alerta de spoiler — explode na cena de abertura. Em vez disso, Maggart foi escalado novamente como um segurança com três falas em uma cena com Benicio Del Toro, Michael Cera e Mia Threapleton. Foi a primeira vez em que Maggart foi a peça central de uma cena.
“Você não está apenas recitando falas”, disse ele. “Há coisas acontecendo nos bastidores. Todos têm um pequeno papel a desempenhar. Então você realmente se sente parte dessa equipe criando uma cena.”
Foram necessárias 20 tomadas, e ele tropeçou em algumas delas.
“Se você for alguém como eu, então seu papel não é tão desafiador”, disse Maggart. “É melhor fazer certo todas as 20 vezes.”
Ele se lembrou de se desculpar com Del Toro por errar suas falas.
“Todos nós erramos”, disse Del Toro, dando um soquinho em Maggart. Apesar dessas experiências gratificantes no set, Maggart insiste que não quer continuar atuando.
“Tenho outro negócio”, disse ele. “É divertido não ter que fazer testes.”