Documentos aos quais O GLOBO teve acesso mostram que o Conselho de Administração da Ambipar deu seu aval para a celebração dos contratos citados como centro da crise financeira que levou o grupo a pedir proteção à Justiça.
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Com R$ 10,5 bilhões em dívidas, a Ambipar pediu proteção à Justiça depois que o Deutsche Bank cobrou garantias adicionais relacionadas a um empréstimo de US$ 35 milhões — contratado em agosto deste ano em paralelo a um aditivo a contratos de derivativos, que protegem a empresa contra variações cambiais — e que poderia, segundo a empresa, funcionar como gatilho à antecipação de até R$ 10 bilhões em débitos com instituições financeiras.
Ontem, as ações da empresa recuaram em 12,5%, a R$ 0,35. No acumulado do ano, a queda é de 97,10%.
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Em seu pedido de recuperação judicial, deferido na quarta-feira, a Ambipar aponta que seu ex-diretor financeiro (CFO), João Arruda, teria coordenado uma série de iniciativas que não teriam passado pelo crivo do colegiado. Em fevereiro de 2024, a companhia fez uma primeira emissão de títulos no exterior (green bonds) por meio de sua subsidiária Ambipar Lux, no valor de US$ 750 milhões e com vencimento em 2031.
E celebrou, então, um contrato de derivativos, que protege a companhia contra variações cambiais com o Bank of America (BofA), onde o executivo trabalhou por 15 anos.
Arruda assumiu o cargo de CFO da Ambipar em agosto de 2024. Em 17 de fevereiro deste ano, esse contrato de derivativos foi transferido para o Deutsche Bank. O contrato de cessão de uma instituição financeira para a outra, contudo, traz a assinatura de Guilherme Borlenghi e Thiago da Costa Silva, diretores de Operações e de Finanças, respectivamente, da Ambipar.
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Também em fevereiro deste ano a companhia fez uma segunda emissão de green bonds com vencimento em 2033 e, na sequência, fechou novos contratos de derivativos, para incluir a proteção a essa operação, com o Deutsche Bank.
Ata da reunião do conselho de administração realizada no dia 27 daquele mês à qual O GLOBO teve acesso, aprova a celebração de novos contratos de derivativos (relativos à segunda emissão de títulos); delega poderes à diretoria de tomar as providências e praticar os atos necessários para fechar esses contratos, assinar documentos, “incluindo, mas não se limitando ao contrato global de derivativos e respectivo apêndice e confirmações de derivativos”.
Permite ainda ratificar outros atos já praticados pela diretoria para a celebração desses contratos.
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Uma pessoa próxima à companhia explica que os contratos de derivativos assinados a partir de então com o Deutsche Bank estão atrelados à essa emissão de títulos. Isso inclui o empréstimo, que impactou as condições dos contratos de derivativos, afirmou.
O documento é assinado por Tércio Borlenghi Júnior, fundador, CEO e presidente do conselho da Ambipar, e por Mauro Nakamura, então diretor jurídico da companhia e desligado no mesmo dia em que Arruda renunciou ao cargo de CFO.
No entanto, não consta da lista de atas de reuniões do colegiado no site de relações com investidores do grupo. Para o mês de fevereiro de 2025 está listada a ata da reunião do dia 7, autorizando a segunda emissão de green bonds.
Em 19 de setembro, João Arruda informou sua saída em cartas a Tércio Borlenghi Júnior e ao conselho de administração. Ele justificou sua decisão afirmando de ter tomado conhecimento de que negociações tocadas pelo controlador e outros executivos da companhia estavam sendo conduzidas sem o seu prévio conhecimento.
O ex-CFO afirmou que o cenário na Ambipar era de “falta de transparência e de governança”, o que teria corroborado para o rebaixamento da nota de risco da Ambipar pelas agências Fitch e S&P. Por fim, Arruda colocou em xeque a posição de caixa da companhia, destacando não saber mais se é “sólida e se a liquidez é robusta”.
Até julho, a Ambipar afirmava contar com R$ 4,7 bilhões em caixa. Parte desse montante, segundo o ex-diretor, no entanto, viria de um fundo cujos recursos eram compostos por recebíveis.
A Ambipar já havia iniciado um inquérito policial em São Paulo para investigar o executivo pelos supostos crimes de falsidade ideológica, fraude e abuso na administração da companhia e estelionato.
Em resposta, Arruda entrou com um pedido de busca e apreensão na Justiça paulistana requerendo uma operação de busca e apreensão para mapear e proteger documentos que descrevam o processo de tomada de decisão na companhia, sobretudo daquelas que ele afirma não terem chegado ao seu conhecimento.
Procurada, a Ambipar disse que não comentaria.

