Uma mulher observa um ovo sobre a mesa da cozinha e, algum tempo depois, decide quebrá-lo. Entre essas cenas aparentemente banais, Clarice Lispector insere uma grande reflexão sobre a vida no conto “O ovo e a galinha”, que ganha sexta (4), no Teatro Municipal Ziembinski, no Rio de Janeiro, uma versão para os palcos criada pelo Teatro Oficina. Dirigido por Joana Medeiros e encenado por Ana Hartmann, o solo apresenta na íntegra o texto que a escritora chegou a declarar ser um mistério até para ela.
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— Quando descobri o conto, também percebi esse mistério. Ele lida com matéria, tempo, ritmo, com alguma coisa que é vista, mas não pode ser dita, ou alguma coisa que é dita e ainda não foi sentida — diz Joana, que começou a trabalhar o texto em performance em 2017.
Convidada para o 1º Simpósio de Bruxaria de Bogotá, na Colômbia, em 1975, Clarice fez uma leitura da obra. A peça parte de projeções do evento e entra no conto, transformando a autora na própria narradora que observa o ovo em sua epifania.
Ana Hartmann em cenas de “O ovo e a galinha”, adaptação de conto de Clarice Lispector
Pedro Martins
— Os relatos daquele dia são fantásticos. Tem gente que diz que ela não leu nada, que foi outra pessoa que leu, em inglês, e até que, enquanto ela lia, um homem comia um ovo cru no chão e um galo apareceu — conta Ana. — A partir disso tudo, tentamos recriar esse acontecimento, pela nossa concepção do que é bruxaria teatral.
Com música ao vivo, a performance ganha contornos de bruxaria enquanto o fluxo de consciência de Clarice investiga os limites da linguagem e a dificuldade de compreender a vida pelo racional.
— Esse conto é um convite para a gente não entender e, ao mesmo tempo, procurar um sentido. Li tantas vezes, pois me encontrava nessa busca. E o sentido é talvez o fato de conseguirmos ser vistos nesse lugar. Clarice nos vê, e, na peça, a gente se vê juntos. Esse é o magnetismo de Clarice e do próprio teatro: o convite à presença — finaliza Ana.
Serviço
Onde: Teatro Municipal Ziembinski, Tijuca.
Quando: Sex e sáb, às 20h. Dom, às 19h. Até 27 de setembro. Estreia sexta (4).
Quanto: R$ 70.
Classificação: 14 anos.

