Já gritei gol em arquibancada, bar, sala, redação, carro, aeroporto e provavelmente em lugares onde não deveria. No cinema, não me lembrava. E o mais estranho é que aquele gol acontecera mais de dois anos antes. Bastava uma busca mal-educada no Google no meio da sessão para descobrir o resultado. Ninguém fez. Quando a bola entrou, a sala do Cinefoot gritou, bateu palma, teve gente se ajeitando na cadeira como se ainda houvesse alguma coisa em disputa. Futebol tem esse truque bonito de bagunçar a cronologia. Um gol antigo acontece de novo se alguém souber virar a câmera para o lado certo e contar direito a história que o cercava.
Foi assim que vi “Copinha”, primeiro longa de Joaquim Salles, escolhido pelo voto popular como melhor filme da 16ª edição do Cinefoot, festival de cinema de futebol encerrado nesta terça-feira no Rio e em São Paulo. Joaquim acompanhou a primeira participação do Esporte Clube Macapá na Copa São Paulo de Futebol Júnior, em janeiro de 2024. Saiu para fazer um curta e voltou com 77 minutos de filme, o que já diz alguma coisa sobre a história que encontrou pelo caminho.
Passamos boa parte da última Copa do Mundo encantados por Cabo Verde. De repente, um país que muita gente precisou procurar no mapa empatava com a Espanha, atravessava uma fase de grupos sem perder e oferecia ao torneio figuras que ninguém tinha incluído nas listas de candidatos a personagem. Vozinha virou celebridade mundial praticamente entre uma defesa e outra. A Copa facilita esse tipo de descoberta porque a gente atravessa oceanos disposto a encontrar uma história extraordinária e desembarca num lugar em que tudo, de algum modo, já vem com uma placa avisando que é extraordinário.
“Copinha” fez um caminho bem menos óbvio. Joaquim encontrou o seu Cabo Verde dentro do Brasil, num estado que o grande futebol brasileiro quase nunca enxerga e num clube que jamais havia disputado aquela competição. Para parte daqueles jogadores, uma viagem para São Paulo já carregava certa distância de exterior. Ali estavam televisão, empresários, olheiros, clubes dos quais eles conheciam o escudo e, principalmente, a possibilidade de alguém finalmente saber seus nomes.
“Copinha” é escolhido pelo voto popular como melhor filme da 16ª edição do Cinefoot
Reprodução
Joaquim foi com eles (Luan Dias cuidou da fotografia, Diogo Ekizian da montagem, Raphael Bottino dividiu a produção). A câmera acompanha os últimos dias no Amapá, a viagem, o réveillon, o hotel em Guarulhos, treino, preleção, quarto de jogador e, aos poucos, encontra a sorte que documentário nenhum consegue incluir numa planilha de produção: o Macapá resolveu colaborar com o roteiro.
Aqui começam alguns spoilers, o que é um conceito meio ridículo para partidas disputadas em janeiro de 2024, mas convém avisar.
Na estreia, o adversário é o Vasco. O Macapá perde até os 42 minutos do segundo tempo, quando Jeremias empata. A segunda partida também termina empatada, contra o Flamengo de Guarulhos, time da casa. Na última rodada, 4 a 0 sobre o Potyguar, classificação e invencibilidade na primeira fase. Azul no uniforme, estreia nacional, empate improvável com um gigante, primeira fase sem derrota. Cabo Verde aparecia dois anos antes sem saber que era Cabo Verde.
Só que o filme melhora justamente quando sai do placar e começa a prestar atenção em tudo aquilo que o placar normalmente esconde.
Miguel Seruca, o técnico português do Macapá, é um personagem especialmente divertido para quem passou os últimos anos vendo o Brasil importar treinadores portugueses acompanhados de comissões enormes, conceitos táticos e apresentações em PowerPoint. Seruca foi parar no Amapá e, em algum momento do caminho, parece ter recebido cidadania futebolística brasileira. Dá esporro, faz piada, implica, gesticula e, conforme a classificação deixa de ser maluquice e vira possibilidade, parece compartilhar com os jogadores certo espanto com o tamanho da encrenca em que todos se meteram.
Porque, naquele caso, vencer também dava problema. Quando o Macapá percebe que pode avançar, aparece uma questão absolutamente incompatível com qualquer filme esportivo americano de superação: de onde vai sair o dinheiro para voltar para casa se eles continuarem ganhando? Surge uma vaquinha. Depois, o governo do Amapá garante as passagens. Num pedaço do futebol, classificação aumenta receita; ali, aumentava a estadia.
Filme “Copinha” acompanhou a primeira participação do Esporte Clube Macapá na Copa São Paulo de Futebol Júnior, em janeiro de 2024
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Jeremias, autor do gol na estreia, descobre rapidamente que marcar contra o Vasco na internet de 2024 tem consequências. A transmissão da CazéTV convoca o público a segui-lo, os seguidores começam a chegar aos milhares e, em algum momento, o garoto passa o próprio Macapá. É uma espécie de Vozinha em escala amapaense. Na Copa, vimos o goleiro de Cabo Verde acordar personagem mundial, empurrado para milhões de seguidores. “Copinha” registra uma versão doméstica e talvez mais interessante da mesma vertigem: um menino olhando para o telefone e descobrindo, praticamente em tempo real, que agora existem milhares de desconhecidos olhando de volta para ele.
Dayveson, o camisa 10, experimenta outra forma de aceleração. Joga bem, faz dois gols no 4 a 0 da classificação, desperta interesse de outros clubes e percebe que algumas conversas que até então pertenciam à categoria do sonho começam, enfim, a ganhar a linguagem mais concreta e menos romântica do mercado de trabalho.
“Copinha” poderia se perder no catálogo habitual de cicatrizes, sacrifício, menino pobre e sonho de ser jogador. Joaquim escolhe um caminho melhor e deixa os garotos serem engraçados, vaidosos, religiosos, inseguros, pais, amigos, aspirantes a famosos, às vezes imaturos e às vezes velhos demais para a idade que têm. O filme gosta deles o suficiente para não transformá-los em exemplos de nada.
Alguns têm 19, 20 anos e já são pais. Falam de futebol e falam de dinheiro, fazem brincadeira e carregam responsabilidade, disputam uma competição de juniores enquanto tentam resolver uma questão bastante adulta: se aquilo que fizeram a vida inteira vai continuar sendo a vida deles quando a Copinha acabar.
Joaquim Salles, de camisa marrom e barba, com troféu no CineFoot por “Copinha”, sua estreia em longas-metragens; diretor é filho de João Moreira Salles
Divulgação / Cinefoot
E isso faz uma diferença danada porque, quando chegou o gol na sessão em que assisti ao filme, ninguém gritava por pena do Esporte Clube Macapá. A gente queria que aquela bola entrasse, mesmo sabendo que ela já tinha entrado havia mais de dois anos.
Grandes competições facilitam o nosso trabalho jornalístico. Juntam os melhores jogadores, as maiores câmeras, as maiores audiências e avisam: procure aqui, alguma história importante vai acontecer. O melhor de “Copinha”, que é cinema mas também tem muito de jornalismo, talvez seja lembrar que, enquanto a gente olha para esses lugares, as histórias continuam acontecendo quando ninguém mandou repórter, quando o estádio está vazio, quando a camisa pertence a um clube que boa parte do país nunca viu jogar.
Passei a Copa procurando histórias como a de Cabo Verde a milhares de quilômetros de casa. Joaquim Salles precisou ir até o Amapá para lembrar que elas estavam muito mais perto. No meu caso, uma delas acabou me encontrando, dois anos atrasada, numa sala de cinema em Botafogo.

