Um episódio de estupro coletivo ocorrido em outubro de 2024 ganhou repercussão nesta semana após uma ex-estudante, identificada nos documentos judiciais como Jane Doe, entrar com uma ação civil contra a universidade e sete homens. A promotoria do condado de Tompkins, em Nova York, reabriu a investigação criminal sobre o caso envolvendo sete integrantes da fraternidade Chi Phi, da Universidade Cornell, uma das instituições da Ivy League
Segundo a ação, a mulher tinha 20 anos na época e foi à casa da fraternidade para encontrar um amigo quando já estava alcoolizada. Ela afirma que foi induzida a consumir cetamina e, posteriormente, agredida sexualmente por vários integrantes da Chi Phi durante horas. A denúncia sustenta que as agressões começaram por volta de 1h42 e continuaram até aproximadamente 5h45.
A mulher relatou o episódio à polícia da própria universidade cerca de três semanas depois. Não houve prisões nem acusações criminais na época. Agora, o promotor do condado de Tompkins, Matthew Van Houten, decidiu retomar o caso e informou que as novas alegações serão apresentadas a um grande júri, que poderá decidir sobre eventuais acusações.
O que diz a denúncia
Na ação civil de 101 páginas, Jane Doe afirma que dois integrantes da fraternidade a fizeram a consumir a droga, e que outros homens foram chamados ao quarto depois que uma mensagem foi enviada em um grupo privado do Snapchat da Chi Phi. A mensagem, enviada por volta de 1h42, dizia que havia uma mulher disponível para sexo. Vídeos obtidos pela CBS News mostram integrantes do grupo trocando mensagens naquela madrugada e, em uma delas, um membro pergunta se a “loja” ainda estava aberta e recebe como resposta “sim”.
A ação afirma ainda que a estudante foi submetida a agressões físicas e sexuais e que, em determinado momento, teria sido atingida com tapas. Segundo o advogado da vítima, Thomas Giuffra, ela teria tentado deixar a universidade depois do episódio, mas sua família não conseguiu obter o reembolso das mensalidades restantes.
Por que a investigação foi reaberta
Em 2024, a promotoria decidiu não apresentar acusações. Van Houten afirma que a decisão foi baseada no depoimento prestado pela estudante à polícia da universidade em novembro daquele ano. Segundo o promotor, o relato feito na ocasião descrevia o consumo de drogas e a atividade sexual como voluntários e consensuais e não mencionava que ela havia sido drogada contra a vontade ou estuprada por vários homens.
Com a ação civil apresentada quase dois anos depois, porém, surgiram alegações que, segundo Van Houten, são significativamente diferentes das informações disponíveis à promotoria em 2024. O promotor afirmou que agora pretende ouvir novamente a mulher e analisar as novas evidências.
— Reconheço a realidade de que vítimas de agressões sexuais podem precisar de anos de terapia e recuperação para processar plenamente e compreender o que lhes aconteceu — afirmou Van Houten.
O advogado de Jane Doe contesta a versão da promotoria. Giuffra afirma que sua cliente estava traumatizada e em estado de negação após o episódio e que não houve uma investigação criminal adequada das informações apresentadas por ela.
A promotoria pretende levar o caso a um grande júri, que poderá analisar o depoimento da mulher e eventuais novas provas.
Mensagens trocadas após o episódio
Nesta terça-feira (29), a CBS News divulgou capturas de tela que, segundo a emissora, mostram uma conversa entre Jane Doe e um dos homens acusados, dois dias depois do suposto ataque.
Na troca de mensagens, o homem pede desculpas por “como as coisas aconteceram” e afirma que sua memória estava “meio confusa”. Ele diz que ele e outro homem lamentavam estar intoxicados demais para interromper a situação e retirar outras pessoas do local.
A mulher responde que sua própria memória também estava “muito confusa” e afirma que todos estavam bastante intoxicados. Em outra mensagem, segundo a CBS, ela afirma que a parte sexual não havia sido ilegal e diz que gostou de estar com aquele homem e outro integrante. Mais tarde, sugere que os três voltem a fumar juntos, mas sem os demais homens e sem cetamina.
O advogado da mulher confirmou que ela trocou mensagens com um dos acusados depois do episódio, mas afirmou não poder confirmar a autenticidade específica das capturas obtidas pela CBS. Segundo ele, a cliente tentava entender o que havia acontecido e acreditava que manter uma relação menos confrontativa com aquele homem poderia ajudá-la a obter informações.
Polêmica sobre redação como punição
A Universidade Cornell conduziu uma investigação interna no âmbito do “Título IX”, legislação federal americana que trata, entre outros temas, de discriminação e violência sexual em instituições de ensino.
A universidade afirma que o processo durou meses e incluiu audiências com um painel formado por professores e funcionários treinados. Segundo Cornell, foram aplicadas diferentes sanções, incluindo expulsões e suspensões. A fraternidade Chi Phi foi fechada em 2024 e continua proibida de funcionar no campus.
A ação judicial afirma que dois dos sete estudantes foram expulsos e que os demais receberam punições como suspensão, participação em workshops ou elaboração de redações — detalhe que gerou polêmica nas redes sociais.
Com a repercussão, a Universidade de Cornell contestou especificamente a versão de que alguns dos envolvidos teriam recebido apenas a obrigação de escrever redações como punição. A universidade declarou ainda apoiar a decisão da promotoria de reabrir a investigação criminal.
As alegações da ação civil ainda não foram comprovadas judicialmente, e os advogados dos homens citados na ação civil negaram as acusações imputadas a eles. Com a reabertura da investigação, a promotoria deverá analisar novamente as circunstâncias do episódio, incluindo o depoimento da mulher, as mensagens trocadas naquela noite e outras evidências que possam ser apresentadas ao grande júri.
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